Sociedade Brasileira de Dermatolodia Surgical & Cosmetic Dermatology

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ISSN-e 1984-8773

Volume 5 Número 2


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Artigos Originais

Hiperidrose inframamária: caracterização clínica e gravimétrica

Inframammary hyperhidrosis: clinical and gravimetric characterization


Gabriel A. de A. Sampaio1, Ada Regina Trindade de Almeida1, Ana Flávia Nogueira Saliba1, Natássia Pinheiro de Lavor Queiroz1

Médicos residentes de Dermatologia da Clínica de Dermatologia do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo – São Paulo (SP), Brasil.1, Médica assistente da Clínica de Dermatologia do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo – São Paulo (SP), Brasil.2, Médicos residentes de Dermatologia da Clínica de Dermatologia do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo – São Paulo (SP), Brasil.1, Médicos residentes de Dermatologia da Clínica de Dermatologia do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo – São Paulo (SP), Brasil.1

Data de recebimento: 04/06/2013
Data de aprovação: 17/06/2013
Trabalho realizado na Clínica Dermatológica
do Hospital do Servidor Público Municipal de São
Paulo – São Paulo (SP), Brasil.
Suporte Financeiro: Nenhum
Conflito de Interesses: Nenhum

Correspondência:
Dra. Ada R. Trindade de Almeida
Rua Fábia, 94 / 111ª – Vila Roma
5051-30 – São Paulo – SP
E-mail: artrindal@uol.com.br

 

Resumo

Introdução: A hiperidrose é caracterizada por sudorese excessiva, generalizada ou focal. As formas primárias ou idiopáticas são geralmente focais. A localização inframamária é atípica, sendo pouco citada. A severidade da hiperidrose é avaliada por métodos objetivos (gravimetria) ou de impacto na qualidade de vida (Hiperydrosis Disease Severity Scale). Objetivos: Caracterizar a hiperidrose inframamária quanto à prevalência, fatores associados, impacto na qualidade de vida e gravimetria. Métodos: Estudo observacional, descritivo e transversal, em que todos os pacientes atendidos durante uma semana foram questionados sobre a presença de sudorese excessiva inframamária. Aqueles que responderam positivamente preencheram questionário, escala de gravidade e submeteram-se à gravimetria. Os dados foram analisados por estatística descritiva e testes de qui-quadrado (x2). Resultados: Foram atendidos 678 pacientes dos quais 39 (5,7%) confirmaram a queixa de HH inframamária. Associação estatística entre resultado da gravimetria e índice de massa corpórea foi encontrada. Conclusões: A prevalência da HH inframamária foi demonstrada como importante localização de HH focal primária. A caracterização da HH inframamária, condição pouco estudada até agora, pode servir de base para estudos futuros, sobre opções terapêuticas que possam melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Palavras-chave: HIPERIDROSE, SUDORESE, GRAVIMETRIA

INTRODUÇÃO

A hiperidrose é condição caracterizada por sudorese excessiva, generalizada ou focal. A hiperidrose generalizada envolve todo o corpo e geralmente está associada a problemas sistêmicos, como desordens endócrinas, neurológicas ou infecções. A forma focal primária ou idiopática afeta pessoas saudáveis, sendo mais frequente na região palmoplantar, axilas e face.1 A fisiopatologia não é totalmente esclarecida, sendo atribuída à disfunção do sistema nervoso simpático.2

O diagnóstico é clínico, baseado na anamnese e exame físico. A severidade da hiperidrose é avaliada por medidas objetivas (quantitativas) ou subjetivas1. Das objetivas, a mais descrita é a gravimetria, que quantifica a sudorese em peso (miligramas) por tempo (minuto).3

Avaliações subjetivas são usadas para estimar o impacto da afecção na qualidade de vida dos pacientes, bem como o grau de severidade. Como essa afecção pode resultar em substancial prejuízo para o paciente, avaliações subjetivas de severidade são importantes, incluindo limitações no trabalho, na interação social, nas atividades físicas e no lazer, assim como transtornos psicológicos e de relacionamento. A Hyperhidrosis Disease Severity Scale (HDSS) é específica para hiperidrose e mensura sua interferência nas atividades diárias do paciente.4

A prevalência da hiperidrose focal é variável. No Brasil, estudos epidemiológicos encontraram prevalência de 9% em Blumenau (SC)5 e 5,5% entre estudantes de medicina em Manaus (AM).6 Ainda assim, a localização inframamária é pouco citada, com referências prévias em dois trabalhos, que apenas exemplificam essa região como local atípico de hiperidrose focal.7, 8

Este trabalho objetivou caracterizar a hiperidrose inframamária quanto à prevalência, fatores associados, impacto na qualidade de vida e gravimetria em pacientes atendidos na Clínica Dermatológica do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo.

MÉTODOS

Estudo transversal, observacional e descritivo, em que todos os pacientes atendidos na Clínica Dermatológica do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo, durante uma semana, foram questionados sobre a presença de sudorese excessiva inframamária. Aqueles que responderam positivamente preencheram questionário clínico (Quadro 1) e escala de gravidade adaptada a partir da HDSS (Quadro 2).

Os critérios para inclusão dos pacientes no estudo foram: idade igual ou superior a 14 anos, pacientes com queixa de sudorese excessiva inframamária e preenchimento do consentimento livre e esclarecido (TCLE). Os pacientes menores de 18 anos de idade que apresentaram tal queixa só participaram da pesquisa quando acompanhados de seus representantes legais para autorização e assinatura do TCLE.

Os critérios de exclusão de pacientes foram: gestantes, lactantes, menores de 14 anos e pacientes que se recusaram a participar da pesquisa. Todos os pacientes foram devidamente esclarecidos sobre a voluntariedade de sua participação, a ausência de ônus ou nenhuma recompensa decorrente de sua decisão.

Aplicou-se questionário após consentimento livre e esclarecido do paciente, resgatando-se dados pessoais de identificação, história familiar, fatores de melhora e/ou piora, comorbidades, uso de medicamentos, idade de início dos sintomas e outras áreas de hiperidrose focal, que fazem parte da avaliação clínica da hiperidrose, já padronizada em outros estudos.9

A avaliação subjetiva do impacto da hiperidrose inframamária na qualidade de vida foi preenchida pelos próprios pacientes obedecendo à graduação utilizada na escala de gravidade da HDSS.4 Durante a gravimetria (Figura 1) todos os testes foram realizados na mesma sala, sob a mesma faixa de temperatura (25º a 29ºC), verificada com termômetro para avaliação de temperatura ambiente Modelo Cool 23C TA40 (Incoterm® , Porto Alegre, Brasil).

Previamente à realização do teste de gravimetria, a umidade na região inframmamaria foi retirada com papéis absorventes a fim de não interferir na medição da sudorese, durante o período de aferição. Filtros de papel (coador de papel 102 médio, marca Melitta® São Paulo, Brasil) foram pesados previamente em balança de precisão (Ohaus Precision Standard® Modelo TS 2KS, Metrohom, São Paulo, Brasil) e então posicionados na região inframamária seca. Após cinco minutos, os filtros foram novamente pesados e a diferença entre as duas medidas de peso foi considerada como a quantidade de suor em miligramas produzida em cinco minutos.

Os dados foram analisados por estatística descritiva e testes de qui-quadrado (testes x2). Consideraram-se intervalo de confiança maior que 95% e nível de significância menor ou igual a 5%.

O trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo (Protocolo 227/2011, Parecer no 15/2011).

RESULTADOS

Foram atendidos 678 pacientes no período, dos quais 39 (5,7%) responderam positivamente sobre sudorese excessiva na região inframamária (38 mulheres e 1 homem) (Gráfico 1).

A faixa etária mais acometida foi a de 50 a 59 anos (Gráfico 2), e a idade de surgimento variou entre 15 e 63 anos. História familiar positiva (Gráfico 3) para hiperidrose foi observada em 41%, seguida de desconhecida em 31% ou negada em28%.

Quanto à avaliação qualitativa da severidade, observou-se: nível 1 (Meu suor nunca é notado e nunca interfere em minhas atividades diárias) em 6,6% dos casos, nível 2 (Meu suor é tolerável, mas algumas vezes interfere em minhas atividades diárias) em 36,39%, nível 3 (Meu suor é mal tolerável e frequentemente interfere em minhas atividades diárias) em 27,29% e nível 4 (Meu suor é intolerável e sempre interfere em minhas atividades diárias) em24,26% na escala adaptada da HDSS (Gráfico 4).

Os fatores associados e agravantes, em ordem decrescente foram: calor, exercício físico, estresse mental, ansiedade, vestuário, e alimentação. Observou-se associação com outros focos de hiperidrose em 84,62% dos casos (Tabela 1).

Os valores da gravimetria variaram de zero (nulo) a 330mg/5minutos, e, relacionando-os com outras variáveis independentes, não foi encontrada nenhuma associação significativa entre gravimetria e história familiar (x2 = 31,754; p = 0,2014), tamanho do sutiã (x2 = 120.078; p = 0,7224) ou escala de gravidade (x2 = 9,497; p = 0,3927). Índice de massa corpórea e resultados gravimétricos apresentaram associação estatisticamente significativa (Tabela 2) tanto em resultados isolados (X² = 56.456; p = 0,0349), como por faixa de peso (x² = 19.838; p = 0,0189).

DISCUSSÃO

Apesar de estudos brasileiros prévios estimarem a frequência da hiperidrose focal, subdividida por locais de acometimento, a prevalência e caracterização da hiperidrose inframamária foi primeiramente descrita neste estudo.

A faixa etária observada10 e história familiar positiva11 aproximaram- se dos dados da literatura para outras hiperidroses focais, em que se observaram na população norte–americana maior prevalência na faixa etária de 45 a 55 anos e frequência de 47,5% de pacientes com antecedentes familiares.

Associação estatística encontrada entre gravimetria e índice de massa corpórea corrobora a hipótese de que o grau de obesidade se reflete na área de superfície corporal e na densidade de glândulas sudoríparas, sendo também observada em outras áreas de hiperidrose focal.

O índice de massa corpórea foi recentemente avaliado em pacientes com hiperidrose facial no Brasil, sem resultados associativos.12 No entanto, uma relação positiva, ainda que não estatística, foi observada entre obesidade e hiperidrose primária em trabalho brasileiro com estudantes de medicina em Manaus.

Outras características da hiperidrose inframamária foram semelhantes aos estudos em outras localizações. A frequência observada na escala de gravidade foi semelhante ao estudo pioneiro de padronização dessa escala,13 com maior prevalência dos níveis 2 ("Meu suor é tolerável, mas algumas vezes interfere em minhas atividades diárias") e 3 ("Meu suor é mal tolerável e frequentemente interfere em minhas atividades diárias").

Os fatores agravantes e/ou associados à hiperidrose inframamária foram semelhantes ao encontrados em trabalhos prévios para outras áreas de hiperidrose focal, que observaram maior associação com calor, estresse, ansiedade e exercício em inquéritos epidemiológicos nas populações norte-americana e canadense.11

A coexistência de hiperidrose inframamária com outras áreas também afetadas e relatadas pelos pacientes (84,62%) condiz com a associação entre diferentes áreas de hiperidrose focal já observada na literatura.10

CONCLUSÃO

A prevalência da hiperidrose inframamária, condição pouco estudada até agora, demonstra sua importância como forma de hiperidrose focal e primária.

A utilização da gravimetria e da escala de severidade serviram para avaliar a sudorese inframamária. Os níveis de gravidade revelaram que a sudorese exerce impacto frequente e importante na qualidade de vida dos portadores, podendo ser abordados terapeuticamente. Portanto, é consenso que deve ser vista como anormalidade.

A metodologia utilizada neste estudo foi semelhante à empregada em trabalhos para caracterização de outras formas de hiperidrose focal5,6,13 e pode servir de base para estudos futuros sobre opções terapêuticas que possam melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Referências

1 . Solish N, Bertucci V, Dansereau A, Hong HC, Lynde C, Lupin M, et al. A comprehensive approach to the recognition, diagnosis, and severitybased treatment of focal hyperhidrosis: Recommendations of the Canadian Hyperhidrosis Advisory Committee. Dermatol Surg. 2007;33(8): 908–923

2 . Almeida ART, Hexsel DM. Hiperidrose e Toxina Botulínica. São Paulo: Edição das autoras;2003

3 . Hund M, Kinkelin I, Naumann m, Hamm H. Definition of axillary hyperhidrosis by gravimetric assessment. Arch Dermatol. 2002;138(4):53-41

4 . Solish N, Benohanian A, Kowalski JW; Canadian Dermatology Study Group on Health-Related Quality of Life in Primary AxillaryHyperhidrosis. Prospective open-label study of botulinum toxin type A in patients with axillary hyperhidrosis: effects on functional impairment and quality of life. Dermatol Surg. 2005;31(4):405-13

5 . Fenili R, Demarchi AR, Fistarol ED, Matiello M, Delorenze LM. Prevalência de hiperidrose em uma amostra populacional de Blumenau – SC, Brasil. An Bras Dermatol. 2009;84(4):361-6

6 . Westphal FL, de Carvalho MA, Lima LC. Prevalence of hyperhidrosis among medical students. Rev Col Bras Cir. 2011;38(6):392-7

7 . Walling HW. Primary hyperhidrosis increases the risk of cutaneous infection: a case-control study of 387 patients. J Am Acad Dermatol. 2009;61(2):242-6

8 . Walling HW. Clinical differentiation of primary from secondary Hyperhidrosis. J Am Acad Dermatol. 2011; 64(4):691-5

9 . Leung AK, Chan PYH, Choi MCK. Hyperhidrosis. Int J Dermatol. 1999; 38(8):561–7

10 . Cohen JL, Cohen G, Solish N, Murray CA. Diagnosis, impact and management of focal hyperhidrosis: Treatment review including botulinum toxin therapy. Facial Plast Surg Clin North Am. 2007;15(1):17–30

11 . Lear W, Kessler E, Solish N, Glaser DA. An epidemiologic study of hyperhidrosis. Dermatol Surg. 2007;33(1 Spec No):S69-S75

12 . Wolosker N, Campos JR, Kauffman P, Munia MA, Neves S, Jatene FB, et al. The use of oxybutynin for treating facial hyperhidrosis. An Bras Dermatol. 2011;86(3):451-6

13 . Strutton DR, Kowalski JW, Glaser DA, Stang PE. US prevalence of hyperhidrosis and impact on individuals with axillary hyperhidrosis: results from a national survey. J Am Acad Dermatol. 2004;51(2):241-8

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