Nivin Mazen Said1; Gisele Alves Morikawa Caldeira1; Airton Kenji Motizuki2; Maraya de Jesus Semblano Bittencourt1; Mariana Bastos Amanajás1; Silvia Ferreira Rodrigues Müller1; Franklin de Souza Rocha1
Fonte de financiamento: Não
Conflito de interesses: Não
É Ensaio Clínico? Não
Data de Submissão: 08/11/2025
Decisão final: 14/05/2026
Como citar este artigo: Said NM, Caldeira GAM, Motizuki AK, Amanajás MB, Bittencourt MJS, Müller SFR, Rocha FS. Localização atípica de tumor de células granulares em uma paciente do sexo feminino: um relato de caso raro. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(2):e20260537.
Tumores de células granulares são neoplasias neurogênicas raras, geralmente benignas, com apresentação clínica inespecífica. Relatamos o caso de uma mulher de 70 anos com lesão nodular ulcerada no braço, de crescimento progressivo, com dor e prurido. Os achados descritos nos exames complementares, como a ressonância magnética, o exame histopatológico e a imunohistoquímica, confirmaram, respectivamente, a presença de uma massa subcutânea expansiva, uma proliferação de células poliédricas com citoplasma granulado e positividade para proteína S100, compatível com o diagnóstico de tumor de células granulares. Discutem-se a importância do diagnóstico precoce, da ressecção completa e do acompanhamento clínico do paciente para prevenir recidivas e monitorar o risco raro de malignidade.
Keywords: Tumor de Células Granulares; Células de Schwann; Neoplasias por Localização
Os tumores de células granulares (TCG) são neoplasias de origem neurogênica, tipicamente benignas e derivadas das células de Schwann.1-4 Costumam manifestar-se clinicamente como nódulos subcutâneos de crescimento lento, geralmente assintomáticos e com aspecto clínico pouco característico, o que pode dificultar seu diagnóstico inicial.1-4 Predominantemente são encontrados em adultos, especialmente em mulheres e indivíduos de pele negra, e os TCG podem surgir em várias regiões do organismo, como pele, língua, trato gastrointestinal, sistema nervoso periférico e tecido subcutâneo.1-4
O estudo consiste em um relato de caso de uma mulher de 70 anos diagnosticada com tumor de células granulares na região do braço direito. Descreve-se o caso desde o diagnóstico até o tratamento dessa neoplasia, tendo como base teórica uma revisão da literatura sobre a temática nas bases de dados PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). Além disso, o presente estudo seguiu as orientações do checklist CARE para relatos de caso e séries de casos. O caso foi baseado no prontuário médico da paciente e nos exames complementares que auxiliaram no diagnóstico e na conduta, seguindo todos os procedimentos éticos e após consentimento da paciente.
Paciente do sexo feminino, 70 anos, encaminhada ao dermatologista devido ao surgimento de lesão nodular no braço esquerdo cerca de 2 anos antes, com crescimento progressivo, dor e prurido local, sem tratamentos prévios (Figura 1).
Ao exame dermatológico inicial, apresentava uma placa infiltrada, violácea, com centro ulcerado, medindo 2 cm de diâmetro e localizada na face anterolateral do braço esquerdo (Figura 2).
Foram solicitados ressonância magnética (RM), exame histopatológico (HPT) e estudo imunohistoquímico (IHQ) da lesão cutânea. A RM da lesão indicou formação expansiva heterogênea, de contornos lobulados, localizada de permeio ao tecido celular subcutâneo da região axilar esquerda, medindo cerca de 3,8 × 3,3 × 2,5 cm, apresentando extensão para a pele adjacente e em íntimo contato com a musculatura do bíceps braquial, porém sem sinais de invasão ou outras alterações, sendo necessário correlacionar os achados com o estudo histopatológico para o diagnóstico. O HPT revelou fragmento revestido superficialmente por epiderme sem atipias, sobre derme média e profunda expandidas por proliferação compacta de células poligonais justapostas, com amplos citoplasmas granulares anfofílicos e pequenos núcleos centrais hipercromáticos (Figura 3A, 3B e 3C).
A IHQ resultou em positividade difusa para a proteína S100 e NKI-C3, sem sinais de malignidade. Correlacionando a IHQ aos achados clínicos, confirmou-se o diagnóstico de tumor de células granulares (Figura 3D).
A conduta inicial consistiu em solicitar os exames pré-operatórios para exérese cirúrgica e manter o seguimento clínico da paciente. Foi realizada a exérese cirúrgica do tumor com fechamento primário (Figura 4). Três meses após o procedimento, observou-se apenas cicatriz operatória residual no sítio da lesão (Figura 5).
Os TCGs, também conhecidos como mioblastomas de Abrikossoff, são neoplasias raras e de origem controversa, com manifestação de caráter majoritariamente benigno e pouca variação maligna relatada na literatura.1,2 Inicialmente considerados como derivados de mioblastos, evidências obtidas por estudos imunohistoquímicos e de microscopia eletrônica indicam que sua verdadeira linhagem é neurogênica, mais especificamente se originando das células de Schwann, como sugere a intensa expressão do marcador S100.3-5
Os TCGs podem ocorrer em diversas regiões anatômicas, sendo mais comuns na língua, pele e tecidos subcutâneos, embora possam surgir em praticamente qualquer parte do corpo, incluindo trato respiratório, gastrointestinal, mama e sistema nervoso central. Entretanto, o desenvolvimento na pele é pouco documentado na literatura.1,3,4 A apresentação clínica é frequentemente inespecífica, com crescimento lento e indolor, o que pode levar a atrasos no diagnóstico.1,4,5 Ainda que pouco frequentes, há relatos de associação dos TCGs com síndromes genéticas, como a síndrome de Noonan e a neurofibromatose. 4-6
Acometem predominantemente adultos entre a terceira e a sexta décadas de vida, com discreto predomínio no sexo feminino e em indivíduos afrodescendentes.2-4 A maioria dos tumores é benigna, mas menos de 2% apresentam comportamento maligno, com achados histológicos como necrose, pleomorfismo nuclear e atividade mitótica aumentada, com risco de metástase.2
Dada sua raridade e potencial para mimetizar outras lesões benignas ou malignas, o diagnóstico definitivo de TCG requer exame histopatológico, podendo ser associado à imunohistoquímica.2,4 Histopatologicamente, o TCG é caracterizado por um tumor não encapsulado, com grandes células poliédricas, pequenos núcleos centrais hipercromáticos e citoplasma contendo abundantes grânulos eosinofílicos, estendendo-se até a hipoderme.2 As células tumorais frequentemente apresentam grandes grânulos eosinofílicos circundados por um halo transparente, conhecido como corpos pústulo-ovoides de Milian.2
A abordagem terapêutica de escolha é a excisão cirúrgica completa com margens livres, sendo o acompanhamento clínico essencial para a detecção precoce de recidivas, principalmente nos casos que apresentam parâmetros histológicos de agressividade.2
Conclui-se, que este caso documenta uma neoplasia rara que possui tanto diagnóstico desafiador quanto localização incomum, sendo pouco descrita na literatura científica quando localizada em membro superior. Também reforça a importância do diagnóstico precoce desse tumor, visto que pode apresentar comportamento maligno. l
Nivin Mazen Said
ORCID: 0000-0002-0611-5672
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Gisele Alves Morikawa Caldeira
ORCID:0000-0001-7655-1173
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Airton Kenji Motizuki
ORCID: 0009-0002-7188-0984
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Maraya de Jesus Semblano Bittencourt
ORCID: 0000-0002-7297-0749
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Silvia Ferreira Rodrigues Müller
ORCID: 0000-0002-5714-8466
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica do manuscrito.
Franklin de Souza Rocha
ORCID:0000-0002-7386-1616
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica do manuscrito.
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