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Ácido hialuronico no rejuvenescimento do terço superior da face: revisão e atualização. Parte 2: regiões temporal e supraórbitária

Ada Regina Trindade de Almeida1; Gabriel Ângelo de Araújo Sampaio2; Natássia Pinheiro Lavor Queiroz3

DOI: https://doi.org/10.5935/scd1984-8773.20179201

Data de recebimento:10/01/2017
Data de aprovação: 12/05/2017
Suporte Financeiro: Nenhum
Conflito de Interesses: Nenhum

Abstract

As técnicas não invasivas para rejuvenescimento facial tiveram crescimento exponencial nos últimos anos. O maior entendimento das alterações anatômicas envolvidas no processo do envelhecimento foi acompanhado por rápida evolução na forma de abordar estas alterações e pela expansão de substâncias e tecnologias usadas para este fim.
A reposição de volume, particularmente com o ácido hialurônico vem ocupando lugar de destaque pela facilidade de obtenção e utilização, resultados imediatos e duradouros, reversibilidade e segurança quando bem utilizados.
O objetivo deste segundo artigo é oferecer revisão da literatura e atualização sobre o uso de preenchedores de ácido hialurônico no rejuvenescimento das regiões temporal e supraorbitária.


Keywords: PREENCHEDORES DÉRMICOS, ÁCIDO HIALURÔNICO; REJUVENESCIMENTO


INTRODUÇÃO

Como já discutido na parte 1 deste artigo, as técnicas de rejuvenescimento do terço superior da face com ácido hialurônico (AH) exigem do médico conhecimento anatômico profundo (incluindo partes moles, estruturas ósseas e neurovasculares), entendimento das deficiências volumétricas faciais inatas ou adquiridas e das propriedades e características dos produtos disponíveis.1 Nesta segunda parte abordaremos as regiões temporal e supraórbitaria, incluídas no terço superior da face.

1. REGIÃO TEMPORAL

A face jovem apresenta transição sutil entre as diferentes regiões e boa cobertura sobre as proeminências ósseas, especialmente nas têmporas, que devem ser planas ou ligeiramente côncavas na mulher, enquanto convexidade local confere à fisionomia aspecto mais masculino. A perda de volume nessa região é sinal precoce de envelhecimento, mas também pode ocorrer em jovens com baixo índice de gordura corporal.2,3 A reposição de volume nas têmporas, substitui a concavidade local pela convexidade da face jovem, promove sustentação da porção externa do olho, elevação lateral da sobrancelha e atenua as rugas periorbitárias.4

1.a. Anatomia da região temporal

As fossas temporais são depressões rasas e bilaterais da calota craniana delimitadas, para fins didáticos, da seguinte forma: limite superior, linha temporal; anterior, parede lateral da órbita; inferior, arco zigomático; e posterior, área de implantação do couro cabeludo, onde a pele é mais espessa e vascularizada (Figura1).5-8

Nos últimos anos, vários artigos descrevendo a anatomia das têmporas voltada para o uso de preenchedores foram publicados.3,6,7,9 Dentre eles, destaca-se o trabalho de Sykes et al. que identifica, a partir da superfície e em direção à profundidade, seis níveis de estruturas na fossa temporal: pele (camada 1), tecido celular subcutâneo (camada 2), fáscia superficial, também chamada de temporofacial (camada 3), tecido areolar frouxo (camada 4), fáscia temporal profunda (camada 5) e músculo temporal (camada 6).7

A fáscia temporoparietal ou fáscia temporal superficial repousa diretamente sob a gordura subcutânea da região temporal e representa a extensão cefálica do SMAS (sistema musculoaponeurótico superficial), que se inicia acima do arco zigomático e é contínua à aponeurose craniana da fronte e do couro cabeludo.5

O tecido areolar frouxo apresenta áreas de espessamento, formando dois septos fibrosos: um superior (coincidente com a linha temporal superior) e outro inferior, que divide a região temporal em compartimentos superior e inferior. Os dois septos se fundem próximo ao término da sobrancelha.6

A fáscia temporal profunda, conhecida como fáscia do músculo temporal, cobre esse músculo e é única, superiormente, para depois se dividir em duas (intermediária e profunda), no compartimento temporal inferior, a cerca de 2-3cm do arco zigomático. Essa divisão ocorre para englobar um compartimento de gordura temporal que é contínuo à gordura malar, localizada abaixo do musculo orbicular dos olhos (Soof — suborbicularisoculifat). Por esse motivo, em vez de compartimento superficial da têmpora, alguns autores sugerem a denominação “gordura supra-zigomática da têmpora” para esse compartimento, em contraposição a outro ainda mais profundo, contínuo à gordura bucal e que poderia ser chamado de “gordura profunda ou retrozigomática da têmpora”.6

O músculo temporal tem a forma de leque, é mais fino na porção superior e mais espesso e fibroso inferiormente. Está firmemente ancorado no osso temporal, de onde pode exercer sua função mastigatória de elevar e retrair a mandíbula.6,10 As camadas que formam a fossa temporal são ilustradas pela figura 2.

Os vasos sanguíneos que irrigam a fossa temporal, são todos ramos da carótida externa e localizam-se em três planos: vasos superficiais (artéria e veias temporais superficiais) no plano subcutâneo acima da fáscia temporoparietal; vasos temporais médios abaixo dessa fáscia e acima da camada superficial da fáscia temporal; e os vasos profundos que se localizam abaixo do músculo temporal e acima da camada profunda da fáscia temporal.3 Estudo recente de anatomistas coreanos sugere que o local com menor risco de lesão vascular na têmpora para injeção supraperiosteal seria correspondente à área da largura de um dedo acima do arco zigomático.11

Na têmpora, o ramo temporal do nervo facial emerge profundamente (na fáscia temporal profunda) e se superficializa acima da porção média do zigoma, para localizar-se abaixo da fáscia temporoparietal ou dentro do SMAS (Figura 3). Esse nervo inerva os músculos orbicular, corrugador e o frontal do lado correspondente.

1.b. Envelhecimento temporal

As alterações do envelhecimento da face ocorrem tanto nas partes moles quanto nos ossos. Na região temporal, os compartimentos de gordura perdem volume, o músculo sofre atrofia e afinamento, e o osso sofre retração, ficando ainda mais côncavo. Todas essas alterações evidenciam gradativamente as proeminências ósseas do arco zigomático e da linha temporal até chegar a aspecto esqueletal e envelhecido.3,9,12

Raspaldo graduou o envelhecimento temporal em quatro estágios (Figura 4): no primeiro, a fossa temporal não apresenta alterações de volume e encontra-se linear ou convexa. No estágio 2, podem ser percebidos os primeiros sinais de envelhecimento, com discreta depressão. No terceiro, evidencia-se a concavidade da fossa temporal, alguns vasos tornam-se visíveis, e ocorre a queda da sobrancelha. Já no estágio 4, observam-se “esqueletização” e concavidade importante da fossa temporal, tornando ossos, veias e artérias claramente visíveis (Quadro 1).13

1.c. Técnicas de correção

O preenchimento da região temporal pode ser feito de forma segura em três planos: subcutâneo (superficial à fáscia temporoparietal), tecido areolar frouxo (entre as fáscias temporal superficial e profunda) e submuscular (junto ao periósteo).3,5,7

A escolha tanto da profundidade na qual deve ser depositado o preenchedor quanto do produto a ser utilizado depende da necessidade do paciente e da preferência e experiência do médico aplicador (Quadro 2).

De forma geral, a reposição de volume próxima à linha de fusão temporal reduz a aparência esqueletal, enquanto o preenchimento próximo à linha capilar faz o contorno facial recuperar o formato “oval”, considerado atraente nas mulheres, e perder a forma de “amendoim“, adquirida com o envelhecimento.2,14

A injeção pode ser feita em bólus, pilares, de forma linear, em leque (fanning), retrógrada ou anterógrada. Nas camadas superficiais, a preferência é pela técnica de fanning e pelo uso de AH mais fluidos e menos espessos, enquanto abaixo do músculo temporal, utiliza-se a “Depot ou Bolus Technique” e produtos que contenham AH com alto G’ e alta coesividade. As duas técnicas devem ser precedidas por aspiração anterior à injeção (para minimizar o risco de injeção intravascular) e seguidas por massagem uniformizadora.2

Os calibres de agulhas ou cânulas variam de acordo com a viscosidade e a coesividade do ácido hialurônico escolhido e, mais uma vez, com a preferência do médico. Em geral as técnicas de preenchimento profundo são feitas com agulha, e as de preenchimento superficial com cânulas.

Na literatura encontramos variações na forma de reposição de volume temporal, detalhadas a seguir:

1.c.1. Preenchimento profundo

• Raspaldo13

A técnica descrita por Raspaldo13 usa agulhas 27G e injeta o produto em bólus sob a fáscia temporal profunda com o objetivo de dar maior projeção, mais volume e evitar o nervo facial. Para isso, sugere dividir a região temporal em quadrantes (anteroinferior e superior e posteroinferior e superior) a partir do cruzamento de duas linhas imaginárias: uma vertical no ponto médio do arco zigomático e outra horizontal, do canto externo do olho à linha do cabelo (Figura 5). A injeção deve ser iniciada pelo quadrante anteroinferior, seguida pelo anterossuperior e, depois, pelos quadrantes posteriores, se houver depressão severa. Sugere ainda que o volume a ser injetado varie conforme o estágio de envelhecimento temporal: no primeiro, não há necessidade de tratamento; no segundo, repõe-se de 0,4ml a 1ml de ácido hialurônico/lado; no terceiro, o volume chega a 2ml; e no quarto pode alcançar 4ml. Após a aplicação, massagens delicadas ajudam a moldar o produto.

• One up/One over (Arthur Swift15)

Injeção planejada em punctura única com agulha 27G posicionada verticalmente, 1cm acima da linha de fusão temporal e 1cm lateralmente, paralela à borda supraorbitária. Pressão digital com intuito de detectar pulsação arterial, aspiração prévia do refluxo sanguíneo e manutenção da ponta da agulha na superfície óssea garantem um plano seguro de depósito do preenchedor. Esse local, próximo à crista temporal, onde o músculo é menos espesso, é relativamente avascular. A utilização de AH com alta coesividade e viscosidade nesse plano profundo e injeção única provocarão dispersão circunferencial em direção ao arco zigomático (Canopy Effect ou efeito de tenda). O dedo indicador da mão não dominante, deve ficar posicionado atrás do ponto de injeção, para evitar que o produto se disperse na área próxima ao couro cabeludo. Essa técnica tende a ser mais econômica, usando em geral de 0,25ml a 0,75ml de AH por têmpora. O autor não recomenda depósitos profundos com agulha acima do arco zigomático devido à presença dos ramos da segunda porção da artéria maxilar interna, cuja embolização poderia promover necrose do palato ipsilateral.15

• Three point approach (Marmur16)

Técnica de preenchimento temporal em três pontos, com AH diluído em quantidade variável de 0,2ml a 0,4ml de solução salina ou lidocaína com epinefrina e agulhas de 25 a 30G. O primeiro ponto escolhido localiza-se na porção central da fossa temporal, geralmente a 1,5-2cm do canto lateral do olho. Após palpação digital afastar pulsação local, injeta-se profundamente de 0,1ml a 0,4ml do AH diluído. O segundo ponto é superior e posterior ao primeiro, indicado apenas para complementar irregularidades e depressões, se necessário. O terceiro ponto localiza-se na fronte lateral próximo à linha de fusão temporal, promovendo transição gradual da têmpora para a fronte e elevação da sobrancelha.

• Breithaupt3

Usa agulha 27 ou 30G e delimita uma janela ótima de injeção, em que a aplicação seria mais segura se feita justaperiostealmente. Sugere começar palpando e desenhando a artéria temporal superficial, para evitá-la. A janela começa na cauda da sobrancelha, na junção com a linha de fusão do temporal (limite superomedial). As injeções devem ser feitas abaixo e posteriormente a essa linha, 1,5cm ou a largura de um dedo acima do arco zigomático, e na frente da linha de implantação dos cabelos temporais. A injeção deve ser perpendicular ao osso, e também é sugerida aspiração prévia.

1c.2. Preenchimento superficial

• Moradi6,17

Prefere o uso mais superficial do ácido hialurônico, no subcutâneo ou imediatamente abaixo da fáscia temporoparietal. Os autores utilizam agulha 30G, entram na pele a 90° até a derme e depois angulam a 45° para fazer a injeção do produto. Injetam volumes de 0,05ml a 0,1ml/ponto de aplicação e fazem a dispersão em leque (Fanning technique). Esses autores também utilizam massagem cuidadosa local após aplicação do produto.

Recentemente, porém, estudo histopatológico em cadáveres evidenciou a presença de preenchedores à base de AH em planos mais profundos (fáscia temporal e músculo temporal), mesmo quando o plano superficial de preenchimento foi adotado.18

Considerando o risco de injúrias vasculares nos planos intermediários, para garantir aplicação segura, o uso de cânulas é recomendado para aplicações mais superficiais. As preferidas são as de calibre 25 a 27G. O orifício de entrada é feito com agulha de calibre maior, localizado abaixo ou acima de onde se quer corrigir. A cânula deve ser introduzida no mesmo ângulo e direção da agulha usada no orifício de entrada, ou haverá resistência e pode ser necessária a realização de outra punctura. Os movimentos devem ser feitos em direções perpendiculares aos ramos da artéria temporal superficial. O preenchedor é depositado em pequenas alíquotas, de maneira retrógrada em túneis distribuídos por toda a região. Massagem local delicada para moldagem é feita em seguida.5 O resultado após realização do procedimento está ilustrado pela figura 6.

Os AH de preferência são mais fluidos, menos viscosos e menos concentrados; ver quadro 2. Produtos muito espessos tendem a formar acúmulos, são mais difíceis de moldar em planos superficiais e conferem aspecto irregular ou ondulado à área tratada. Mesmo com material adequado, deve-se evitar injeção muito superficial ou intradérmica, que poderia tornar o preenchedor aparente, com coloração cinza-azulada (efeito Tyndall).5

Imediatamente após cada aplicação é realizada compressão local delicada por cerca de um a dois minutos para evitar sangramentos e equimoses. Compressas geladas podem ser aplicadas ao final do procedimento.

2. REGIÃO SUPRAORBITÁRIA

2.a. Aspectos normais

O complexo pálpebra superior/sobrancelha do jovem é caracterizado por abundância homogênea de tecidos moles, estendendo-se do sulco orbital até o término superior da porção capilar da sobrancelha, em transição contínua para a região temporal.19

A posição ideal da sobrancelha tem sido relacionada com algumas referências anatômicas: o início geralmente localiza-se na área correspondente à intersecção de linha perpendicular, traçada a partir da base alar do nariz, passando pelo canto interno do olho. O término ocorre no ponto de intersecção de linha reta em direção obliqua, que começa na base alar e passa pelo canto lateral do olho. Idealmente, o início ou a cabeça do supercílio deve ficar posicionado na mesma altura que a cauda (na mulher o fim da sobrancelha pode ficar mais elevado que o começo), enquanto a porção medial deve ser mais espessa, tornando-se menos densa à medida que progride lateralmente, e o ápice deve projetar-se sobre linha oblíqua que começa na base alar e passa no limbo ocular lateral. Nas mulheres o pico deve se posicionar pouco acima do arco da órbita enquanto nos homens, deve ficar na altura do rebordo orbitário (Figura 7).

2.b. Envelhecimento

A região supraorbitária é uma das primeiras a aparentar sinais de senilidade. Isso é facilmente percebido no ensaio do fotógrafo Nicholas Nixon, que durante 40 anos (1974-2004), fotografou anualmente quatro irmãs, inicialmente com idades entre 15 e 25 anos. A fotografia tirada 10 anos após a primeira mostra que as sobrancelhas sofrem descenso considerável, perdem a projeção que era vista nas primeiras fotografias, enquanto sombras se tornam visíveis na fronte e nas têmporas.

Perda de elasticidade cutânea e de partes moles, ação gravitacional e remodelação óssea contribuem para o envelhecimento e a ptose dos supercílios. Estudos com tomografia computadorizada mostraram que o rebordo orbitário sofre recesso ou redução da espessura em suas porções superomedial e infero-lateral, tornando-se mais largo e inclinado.12,20

Essas alterações provocam perda de suporte dos componentes supraorbitários. O processo de envelhecimento pode manifestar-se de duas maneiras: na primeira, a perda de suporte promove ptose dos tecidos supraorbitários, flacidez cutânea, gerando queda dos supercílios e sobra de pele local (Figura 8). Na segunda, além da reabsorção óssea, ocorre desaparecimento dos coxins adiposos, e a pele tende a se justapor ao rebordo orbital, especialmente na parte medial, manifestando-se como uma sombra central superior, denominada “deformidade em forma de A” nos casos mais leves (Figura 9) e como afundamento e “esqueletização” de toda a órbita superior, nos casos mais severos.21,22

2.c. Anatomia da região supraorbitária

Nessa área, além de pele, subcutâneo e aponeurose epicraneana, temos a porção orbital do músculo orbicular dos olhos e abaixo dele um compartimento de gordura chamado Roof (Retro Orbicular Oculi Fat) e depois o periósteo do rebordo orbitário. É a gordura do Roof que confere a forma e a projeção das sobrancelhas. A perda de volume nesse compartimento promove recuo, perda de projeção e queda de todo o supercílio em relação à borda da órbita, bem como aparência envelhecida de toda a região supraorbitária.6

Como já descrito no artigo anterior na parte da glabela, a irrigação da região supraorbitária é feita pelas artérias supratrocleares (emergem do forame supratroclear, localizado entre 17mm e 22mm da linha centro-facial, geralmente correspondendo à altura do canto do olho) e pelas artérias supraorbitais (emergem dos forames supraorbitários, que deixam o rebordo orbitário na altura da linha mediopupilar).1 Lateralmente a irrigação é feita pelas artérias temporais.

2 d. Técnicas de correção

Alguns autores perceberam melhora na aparência dos olhos após reposição de volume dos supercílios. Sobrancelhas expandidas refletem mais luz, eliminam sombras indesejadas e ainda aumentam a altura, a projeção e o equilíbrio do terço superior da face.

Inicialmente o tratamento era feito com gordura autóloga, substituída nos últimos anos pelo ácido hialurônico, que apresenta maior disponibilidade, facilidade de aplicação e segurança, porque pode ser dissolvido com o uso da hialuronidase em casos de oclusão vascular ou resultados insatisfatórios.

Antes do procedimento pode-se aplicar anestesia tópica com cremes que devem ser deixados no local durante cerca de 30 minutos. A antissepsia é feita com chlorexidinea 4%.

Preenchedores de AH mais viscosos são ideais para essa região a fim de evitar oclusões e embolias vasculares, e para maior firmeza do tecido.

A técnica mais aceita e também usada pelos autores é aplicada com o uso de cânulas (25 a 27G).4,14 A entrada preferencialmente é feita pela região lateral, na cauda da sobrancelha. Eleva-se o supercílio com a mão não dominante, afastando-o do rebordo orbitário. O pinçamento é mantido durante a entrada da cânula, facilitando a criação de um túnel em que o preenchedor será colocado. O plano de injeção é abaixo da parte orbital do músculo orbicular dos olhos, na gordura retro-orbicular (Roof). O preenchedor (Belotero Intense, Juvederm Ultra ou Ultra Plus, Restylane Perlane, Vollift, Volbella, Princess Volume, Emervel Deep ou Perfectha Deep) deve ser depositado aos poucos, de forma anterógrada e retrógrada, sempre acima do rebordo orbitário. A técnica push-ahead (anterógrada) permite que o material injetado eleve a região antes da ponta da agulha, diminuindo o risco de equimoses. Posteriormente a cânula é retirada e reinserida mais adiante para completar o preenchimento (Figura 10).

Pode também ser direcionada para cima no ponto do pico da sobrancelha para destacá-lo. Para saber onde deve ser posicionado, deve-se imaginar linha oblíqua que ligue a asa nasal ao limbo lateral. A continuação superior dessa linha, cruza o supercílio no ápice. Outra maneira de achá-lo é medir a distância entre os olhos (intercantal) e usar essa medida, em linha horizontal, na sobrancelha, a partir do canto interno do olho.10,14 Correções pontuais, em locais específicos, podem ser feitas com agulha 27G, para acabamento final, caso necessário. Modelamento manual do preenchedor é feito posteriormente para promover simetria, homogeneidade e projeção anterior. Edema nos dois primeiros dias e sensibilidade local são efeitos esperados. Deve-se evitar super-correção para não provocar resultado artificial.

Para correção da deformidade em “A”, já descrita, o preenchedor (Belotero Balance ou Soft, Volift, Restylane, Princess Filler, Perfectha Derm ou Emervel Touch) deve ser depositado logo abaixo do início da sobrancelha. A cânula é posicionada horizontalmente abaixo do supercílio, usando entrada lateral, e o depósito é feito na gordura retro-orbicular, mas acima do periósteo, onde os feixes vasculares importantes emergem do osso. Pequenas quantidades (0,1ml-0,2ml por lado) costumam ser suficientes para obter resultados naturais.

No mesmo plano de injeção, alguns experientes autores preferem realizar o procedimento com agulhas finas e curtas (30G,1/2). Lambros prefere injetar em três direções em cada punctura, distribuindo o preenchedor através de cinco entradas para cada sobrancelha. O volume médio de injeção é de 0,5ml por lado.6 Já Liew, que também usa agulhas finas, sugere a técnica de microgotas em injeção supraperiosteal retrógrada e lenta, utilizando para isso em média três orifícios de entrada. Os dois autores complementam o procedimento com massagem e moldagem do preenchedor no local desejado.21

A permanência do produto possui maior duração nessa área (dois a quatro anos) devido à pouca mobilidade do músculo adjacente e à aplicação supraperiosteal. Estudos anatômicos em cadáveres confirmaram os achados clínicos, mostrando que o preenchedor de AH injetado sob as sobrancelhas tende a permanecer no local aplicado, retido por septos fibrosos densos existentes dentro da gordura retro-orbicular (Roof).23

É importante ressaltar que o tratamento completo de rejuvenescimento da periórbita inclui a abordagem da glabela, que projeta e posiciona o início das sobrancelhas, e das têmporas, que faz o mesmo com a cauda. As duas técnicas foram abordadas na parte I e II deste artigo.1

3. COMPLICAÇÕES

Frequentemente podem ocorrer edema, congestão venosa, sangramento e equimose no local da aplicação, geralmente autolimitados, especialmente nos casos em que a injeção é feita muito superficialmente. Alguns pacientes apresentam sensibilidade no local da aplicação, que normalmente dura apenas um dia, podendo persistir por mais tempo durante a mastigação, especialmente após aplicação intra ou submuscular.5

Outro tipo de efeito adverso é a presença de nódulos locais quando um produto de mais viscosidade é aplicado em plano muito superficial.

Complicações mais sérias e raras encontradas na literatura são: infecções (biofilme), reações granulomatosas de corpo estranho, necrose cutânea e cegueira.3,17

Na região temporal, embolização ou compressão de artéria temporal superficial pode provocar danos cutâneos no território por ela irrigado: fronte, sobrancelhas, porção lateral superior de pálpebras e parte lateral do couro cabeludo. Já a lesão do ramo temporal do nervo facial provocará incapacidade de enrugar a fronte e levantar a sobrancelha.

Em revisão recente da literatura, Beleznay e colaboradores encontraram cinco casos confirmados de cegueira após preenchimento nas têmporas, apenas um com AH, três com gordura e um com silicone.24

Existem várias anastomoses entre as artérias temporais superficiais (ramos da carótida externa) e artérias supraorbitais e supratrocleares (ramos da carótida interna). O mecanismo proposto para a ocorrência de cegueira seria injeção intravascular e embolização retrógrada do preenchedor. Se os vasos envolvidos forem de pequeno calibre, mesmo pouca quantidade de AH, se injetada rapidamente, pode suplantar a pressão arterial e encontrar menos resistência proximal, migrando de forma retrógrada. Quando o aplicador cessa a pressão da injeção, a pressão arterial impele o material para artérias retinianas distais, causando oclusão e possibilidade de cegueira.24

O maior risco, porém, encontra-se na veia médio-temporal, que se conecta com o seio cavernoso através das veias periorbitais. Por ser mais calibrosa do que artérias no mesmo plano, se for ocluída de forma inadvertida, essa veia pode levar à embolização do seio cavernoso e, por fluxo retrógrado, à oclusão da artéria central da retina.3,11,24

Caso se perceba oclusão vascular, pela presença de livedo reticular, branqueamento local ou queixa de dor aguda, o procedimento deve ser interrompido imediatamente. O local e a área vizinha devem ser inundados com hialuronidase,25,26 (de preferência injetada com cânula) e massageados. Em casos de vasos retinianos, após 90 minutos de oclusão, os danos se tornam irreversíveis. Outras medidas que podem ser tentadas são calor local, massagem, anticoagulantes orais e câmara hiperbárica.

 

CONCLUSÃO

A aparência da fossa temporal e da periórbita exercem impacto importante no envelhecimento da face. O uso de preenchedores de ácido hialurônico, permite recuperação do volume e da projeção locais, proporcionando aspecto mais jovial e harmônico, de forma natural, segura e ambulatorial. Os pacientes devem ser tratados conforme o estágio de envelhecimento local, e é essencial o conhecimento da anatomia, das técnicas de aplicação e dos produtos utilizados para obter bons resultados com o mínimo de complicações.

 

DECLARAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO:

Ada Regina Trindade de Almeida:

Orientação dos coautores
Revisão de todos os assuntos do texto

Gabriel Ângelo de Araújo Sampaio:

Elaboração e revisão bibliográfica da parte supraorbitária (sobrancelha e pálpebra superior)

Natássia Pinheiro de Lavor Queiroz:

Pesquisa bibliográfica
Revisão bibliográfica da região temporal.

 

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Trabalho realizado na Clínica Dermatológica do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.


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