Malu de Aquino Almeida Garcia; Louise Santos Abdulmassih; Maria Amelia Lopes dos Santos; Renata Mie Oyama Okajima; Josie Eiras Bisi dos Santos
Fonte de financiamento: Não
Conflito de interesses: Não
Data de submissão: 02/02/2026
Data de decisão: 19/03/2026
Como citar este artigo: Garcia MAA, Abdulmassih LS, Santos MAL, Okajima RMO, Santos JEB. Uso da Crioterapia no Tratamento do Angioqueratoma Circunscrito: Relato de Caso. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(2):e20260554.
O angioqueratoma circunscrito é uma malformação vascular rara, caracterizada por ectasia de capilares dérmicos associada a alterações epidérmicas hiperqueratóticas. Relata-se o caso de um paciente do sexo masculino, de 10 anos, com lesões violáceas verrucosas no antebraço direito desde o nascimento, com episódios recorrentes de sangramento. O diagnóstico foi estabelecido por achados clínicos, dermatoscópicos e histopatológicos. Optou-se por tratamento com crioterapia, utilizando ciclos de congelamento com nitrogênio líquido. Observou-se redução significativa dos sangramentos e melhora funcional e psicossocial. A crioterapia mostrou-se alternativa eficaz, segura e minimamente invasiva para o manejo do angioqueratoma circunscrito.
Keywords: Malformações vasculares; Angioceratoma; Crioterapia
Angioqueratomas são malformações vasculares raras, definidas como um conjunto de distúrbios caracterizados histologicamente por ectasias dos vasos sanguíneos na derme, associadas a alterações epidérmicas como hiperqueratose, papilomatose e acantose.1,3 Tratam-se de telangiectasias de vasos preexistentes, não sendo, portanto, classificáveis como angiomas.1,2 Cinco subtipos de angioqueratomas foram descritos: angioqueratomas solitários ou múltiplos, angioqueratoma de Mibelli, angioqueratoma de Fordyce, angioqueratoma corporis diffusum e angioqueratoma circunscrito.1,3
O angioqueratoma circunscrito corresponde ao subtipo mais raro, representando aproximadamente 13% dos casos, acometendo predominantemente o sexo feminino e geralmente presente ao nascimento.1,3,5 Clinicamente, apresenta-se inicialmente como máculas avermelhadas, que evoluem para placas verrucosas e/ou hiperqueratóticas de coloração violácea, com distribuição linear ou zosteriforme, tipicamente unilateral em membros inferiores, podendo também ocorrer no tronco.1,4,5
A etiologia do angioqueratoma circunscrito permanece desconhecida.1,3,5 As alterações epidérmicas são progressivas, acompanhando a ectasia vascular.1 Trata-se de uma condição benigna, sem manifestações sistêmicas, e em casos raros pode estar associada às síndromes de Klippel-Trenaunay e de Cobb.1,2,5
Histopatologicamente, a lesão é caracterizada por capilares dérmicos papilares dilatados, parcialmente envolvidos pela epiderme, que apresenta acantose e hiperqueratose com cristas papilares alongadas.1,3,5 Ao contrário do hemangioma verrucoso, que acomete a derme profunda e o tecido subcutâneo, as alterações vasculares do angioqueratoma circunscrito se limitam à derme superficial, sendo este o principal diagnóstico diferencial.1,3,5 As principais indicações para tratamento incluem preocupações estéticas e sangramentos recorrentes.1,3,7 Lesões pequenas podem ser manejadas com diatermia, curetagem com eletrocauterização, criocirurgia ou excisão cirúrgica.1,7,8,9 Placas maiores são mais adequadamente tratadas com ablação a laser, uma vez que a excisão cirúrgica pode resultar em desfiguração substancial.1,5,8
O presente estudo relata um caso raro de angioqueratoma circunscrito, com características epidemiológicas atípicas, tratado com crioterapia, destacando a eficácia desse método como opção terapêutica minimamente invasiva.
Um paciente do sexo masculino, 10 anos, natural e procedente de Abaetetuba, Pará, foi admitido no Serviço de Dermatologia da Universidade Estadual do Pará, com manchas vermelho–violáceas no antebraço direito, presentes desde o nascimento. As lesões evoluíram com espessamento progressivo, com formação de bolhas de sangue e episódios de sangramento aos mínimos traumas, repercutindo negativamente na qualidade de vida do paciente, especialmente em aspectos relacionados à saúde mental.
Ao exame dermatológico, observaram-se placas violáceas com superfície verrucosa, contornos irregulares, coalescentes, com tendência a confluência, distribuição linear, sendo a maior com 8 × 2 cm, na face lateral do antebraço direito (Figura 1). À dermatoscopia, evidenciou-se discreto véu esbranquiçado, lagos vasculares vinhosos, pequena crosta hemática e eritema periférico (Figura 2).
Foi realizada biópsia da lesão, a qual revelou epiderme com área de hiperceratose e papilomatose, acompanhada de vasos capilares pronunciadamente ectásicos na derme, revestidos por endotélio plano e congestos por hemácias (Figura 3 e 4).
Diante dos achados clínicos e histopatológicos, estabeleceu-se o diagnóstico de angioqueratoma circunscrito, sendo então indicada abordagem terapêutica inicial com crioterapia.
Para a realização da crioterapia, foi realizada infiltração anestésica local com lidocaína a 2% diluída em solução fisiológica a 0,9%. O procedimento consistiu na aplicação de dois ciclos de congelamento de 30 segundos cada, intercalados por períodos de descongelamento espontâneo de aproximadamente 2 minutos, abrangendo o terço inferior da lesão maior. Após a cicatrização, observou-se a formação de área cicatricial residual de aspecto fibroso e discretamente eritematoso (Figura 5), associada a relato de boa satisfação por parte do paciente e de seu responsável legal.
Considerando a resposta terapêutica favorável, foram programadas sessões subsequentes, nas quais pequenas áreas da lesão passaram a ser tratadas de forma gradual, com o objetivo de minimizar a dor durante o procedimento. O tratamento resultou em redução importante dos episódios de sangramento recorrente, proporcionando maior liberdade para a realização das atividades diárias do paciente.
O angioqueratoma é uma malformação vascular rara, de etiologia ainda não completamente esclarecida, com prevalência estimada de aproximadamente 0,16% na população geral.1,2 Na literatura, o subtipo circunscrito corresponde a cerca de 13% dos casos, apresentando predomínio no sexo feminino e acometendo, preferencialmente, os segmentos distais dos membros inferiores.1,3,5 Em contraste, o presente relato descreve um paciente jovem, do sexo masculino, com acometimento de membro superior, configurando uma apresentação clínica atípica.4-6
A forma circunscrita caracteriza-se clinicamente por placas eritemato-violáceas, verrucosas e hiperqueratóticas, geralmente assintomáticas, podem ocorrer episódios de sangramento após trauma em aproximadamente 25% dos casos.1,2,5 Embora a maioria dos casos seja observada desde o nascimento, há relatos de desenvolvimento tardio durante a infância ou adolescência.2,4,6
O diagnóstico é predominantemente clínico, auxiliado pela dermatoscopia e confirmado pelo exame histopatológico.1,2,5 O principal diagnóstico diferencial é o angioma verrucoso, que se distingue do angioqueratoma por apresentar ectasia vascular envolvendo não apenas a epiderme, mas também a derme e a hipoderme.1,3,5 Outros diagnósticos diferenciais incluem melanoma maligno, nevo de Spitz, micoses profundas e verrugas virais.1,2,5
As principais indicações para o tratamento do angioqueratoma circunscrito são o sangramento recorrente e o desconforto estético.1,3,7 As opções terapêuticas incluem crioterapia, excisão cirúrgica e curetagem associada à eletrocauterização para lesões de menor extensão.1,7,8 Em lesões mais extensas, a ablação por laser é preferida, a fim de reduzir o risco de desfiguração substancial.1,5,8
A criocirurgia consiste na aplicação de nitrogênio líquido, por meio de spray ou aplicador com ponta de algodão, promovendo destruição celular por congelamento.8,9 O nitrogênio líquido apresenta temperatura aproximada de −195 °C, resultando em temperaturas teciduais entre −50 °C e −60 °C, consideradas ideais para a destruição celular.9 Trata-se de uma técnica rápida, simples, de baixo custo e amplamente disponível.8,9
No presente caso, diante dos episódios frequentes de sangramento após traumas mínimos, optou-se pela intervenção terapêutica.1,3 A crioterapia foi escolhida em função do tamanho da lesão, da disponibilidade do método no serviço e da boa cooperação do paciente,7-9 proporcionando resultados progressivamente satisfatórios ao longo das sessões. Embora não tenha sido observada remissão completa da lesão, houve redução substancial da frequência de sangramentos, com consequente melhora da qualidade de vida do paciente
O angioqueratoma circunscrito é uma malformação vascular rara, com apresentações clínicas variadas. Este relato descreve um caso com características atípicas, no qual a crioterapia mostrou-se uma alternativa terapêutica eficaz e segura, promovendo controle dos sangramentos e melhora funcional, com impacto positivo na qualidade de vida do paciente. Assim, a crioterapia pode ser considerada uma opção viável e minimamente invasiva no manejo de casos selecionados de angioqueratoma circunscrito.
Malu de Aquino Almeida Garcia
ORCID: 0009-0003-7107-2888
Approval of the final version of the manuscript, Critical review of the literature, Acquisition, analysis and interpretation of data, Intellectual participation in the propaedeutic and/or therapeutic approach to the cases studied, Critical revision of the manuscript, Preparation and writing of the manuscript, Statistical analysis, Conception and design of the study
Louise Santos Abdulmassih
ORCID: 0009-0006-3221-913X
Approval of the final version of the manuscript, Critical review of the literature, Acquisition, analysis and interpretation of data, Intellectual participation in the propaedeutic and/or therapeutic approach to the cases studied, Critical revision of the manuscript, Statistical analysis, Conception and design of the study
Maria Amelia Lopes dos Santos
ORCID: 0000-0001-8606-6948
Critical review of the literature, Effective participation in the conduct of the study, Intellectual participation in the propaedeutic and/or therapeutic approach to the cases studied, Critical revision of the manuscript, Statistical analysis, Conception and design of the study - Universidade do Estado do Pará (UEPA), Dermatology Service, Belém (PA), Brazil
Renata Mie Oyama Okajima
ORCID: 0000-0003-2168-5515
Approval of the final version of the manuscript, Critical review of the literature, Intellectual participation in the propaedeutic and/or therapeutic approach to the cases studied, Critical revision of the manuscript, Statistical analysis, Conception and design of the study
Josie Eiras Bisi dos Santos
ORCID: 0000-0001-8512-3920
Acquisition, analysis and interpretation of data, Intellectual participation in the propaedeutic and/or therapeutic approach to the cases studied, Critical revision of the manuscript, Preparation and writing of the manuscript, Statistical analysis
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