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Relato de casos

Tricotemnomania na alopecia androgenética: relato de caso

Diana Coello Bonilla1; Giovanna Gelli Carrascoza1; Gabrielle Cassulo Franciscatti2; Maria Victória Quaresma1

DOI: https://doi.org/10.5935/scd1984-8773.2026180480

Funding: None
Conflict of interest: None
Submitted on: 02/25/2025
Final decision: 12/30/2025
How to cite this article: Bonilha DC, Carrascoza GG, Franciscatti GC, Quaresma MV. Trichotemnomania in androgenetic alopecia: a case report. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260443.


Abstract

A tricotemnomania é um transtorno obsessivo-compulsivo raro e pouco reconhecido, caracterizado pelo corte repetitivo dos cabelos. Sua apresentação clínica pode se assemelhar a outros distúrbios capilares, frequentemente resultando em diagnósticos equivocados e tratamentos desnecessários. Relatamos o caso de um homem de 25 anos com rarefação capilar. A tricoscopia evidenciou áreas com fios miniaturizados e hastes com diâmetros heterogêneos, compatíveis com alopecia androgenética, adjacentes a áreas irregulares com fios uniformemente curtos e de extremidades rombas, sugestivos de corte mecânico. A anamnese detalhada confirmou a coexistência de tricotemnomania, sustentada pelo relato do paciente de uso recorrente e deliberado de lâmina para cortar os cabelos.


Keywords: Alopecia; Doenças do Cabelo; Transtorno Obsessivo-Compulsivo


INTRODUÇÃO

A tricotemnomania é um comportamento do espectro obsessivo-compulsivo caracterizado pelo corte recorrente dos cabelos com tesoura ou lâmina.1 O termo deriva do grego thrix (cabelo), temnein (cortar) e mania (loucura). Trata-se de uma condição rara e frequentemente pouco reconhecida, que se manifesta como alopecia autoinduzida decorrente do corte ou raspagem habitual dos fios. Embora não seja totalmente voluntário, esse comportamento geralmente é motivado por um impulso de alívio do estresse, e os pacientes podem relutar em revelá-lo.2

Devido ao seu reconhecimento limitado na prática dermatológica, a tricotemnomania é frequentemente diagnosticada de forma equivocada como alopecia, especialmente alopecia areata ou tricotilomania.3 Pode ocorrer de forma isolada ou associada a outras doenças do cabelo.

Relatamos um caso de tricotemnomania associada à alopecia androgenética (AAG), destacando seus aspectos clínicos, tricoscópicos e histopatológicos, e enfatizando a importância de considerar essa entidade no diagnóstico diferencial das alopecias.

 

RELATO DE CASO

Homem, 25 anos, com diagnóstico prévio de leucemia linfocítica aguda tratada com transplante de medula óssea há 6 anos, apresentava histórico de queda capilar progressiva havia 2 anos, sem causas identificáveis ou sintomas associados.

Ao exame dermatológico, observaram-se áreas de alopecia não cicatricial com rarefação capilar nas regiões do vértice e frontal, associadas a placas irregulares, bem delimitadas, nas regiões biparietais e occipital. A superfície do couro cabeludo apresentava-se normal, e o teste de tração foi negativo (Figura 1a–c).

A tricoscopia evidenciou fios miniaturizados e hastes com diâmetros heterogêneos, compatíveis com AAG. Adicionalmente, observaram-se fios curtos de comprimento uniforme e com extremidades rombas, sugerindo a coexistência de um processo mecânico de corte. Não foram identificados fios quebrados, pontos pretos ou sinais de inflamação perifolicular (Figura 1d).

Exames laboratoriais, incluindo sorologias para HIV e sífilis, foram negativos. O exame histopatológico da biópsia do couro cabeludo na região occipital revelou arquitetura epidérmica preservada, com presença de folículos terminais e velos, sem evidência de inflamação, fibrose ou cicatrização (Figura 1e–f).

Em avaliações subsequentes, o paciente relatou o uso de produtos sintéticos para disfarçar áreas de alopecia e admitiu o hábito de raspar frequentemente os cabelos com lâmina, além do uso de produtos para coloração capilar. Os achados clínicos, histopatológicos e tricoscópicos sustentaram o diagnóstico de tricotemnomania sobreposta à AAG.

O paciente foi orientado a suspender a raspagem dos cabelos até reavaliação. Após 3 semanas, observou-se aumento da densidade capilar nas áreas previamente acometidas, corroborando o diagnóstico de tricotemnomania (Figura 2). O paciente não retornou para seguimento dermatológico posterior.

 

DISCUSSÃO

A tricotemnomania é um transtorno raro do espectro obsessivo-compulsivo, caracterizado pelo corte ou raspagem recorrente dos próprios cabelos, geralmente como mecanismo de enfrentamento de sofrimento psicológico.1 Embora o couro cabeludo seja o local mais frequentemente acometido, também há relatos de envolvimento de sobrancelhas, cílios, axilas e região pubiana.4 Devido ao caráter parcialmente involuntário ou não reconhecido do comportamento, os pacientes frequentemente negam ou desconhecem sua natureza autoinduzida, contribuindo para o subdiagnóstico.

A condição é frequentemente diagnosticada de forma equivocada como tricotilomania, alopecia areata ou tinea capitis.2 A Tabela 1 resume os principais diagnósticos diferenciais da tricotemnomania.

O diagnóstico baseia-se na integração de achados clínicos, tricoscópicos e histopatológicos. Clinicamente, a tricotemnomania se manifesta como placas bem delimitadas contendo fios curtos de comprimento uniforme e com extremidades rombas, cortadas uniformemente, enquanto a superfície do couro cabeludo apresenta-se normal, sem eritema, descamação ou dano folicular.1

A tricoscopia desempenha papel central na investigação da tricotemnomania. Evidencia hastes capilares com extremidades bem definidas e comprimento uniforme, compatíveis com corte mecânico, e não com destruição folicular. Esses achados contrastam com as fraturas irregulares da haste, tricosquise e tricoptilose observadas na tricotilomania, bem como com os fios em ponto de exclamação, pontos amarelos e pontos pretos típicos da alopecia areata.5

Do ponto de vista histopatológico, a biópsia do couro cabeludo na tricotemnomania demonstra arquitetura folicular preservada, com todos os infundíbulos preenchidos por hastes capilares e ausência de inflamação, fibrose ou cicatrização.1 Esse padrão difere do observado na tricotilomania, que pode apresentar folículos vazios, involução folicular (catágena) e alterações traumáticas,6 e na alopecia areata, que tipicamente exibe infiltrado linfocitário peribulbar.7

No presente caso, a tricotemnomania coexistia com AAG. Na AAG, ocorre miniaturização folicular mediada por andrógenos em folículos geneticamente suscetíveis, levando à transformação progressiva de folículos terminais (produtores de fios espessos e pigmentados) em folículos velos (produtores de fios finos e curtos). Isso resulta em heterogeneidade das hastes capilares em diferentes estágios de evolução da doença.8 A tricotemnomania não altera esse processo, mas sobrepõe fios uniformemente cortados a esse padrão, podendo dificultar o diagnóstico.

O manejo da tricotemnomania requer abordagem multidisciplinar envolvendo dermatologistas, psiquiatras e psicólogos, uma vez que o comportamento frequentemente está associado a estresse, ansiedade ou transtornos obsessivo-compulsivos. Educação do paciente, manejo do estresse e terapia comportamental são fundamentais para prevenir recorrências.

 

CONCLUSÃO

Devido ao seu frequente subdiagnóstico, a tricotemnomania deve ser considerada pelos dermatologistas no diagnóstico diferencial de pacientes com rarefação capilar em placas, aberturas foliculares preservadas e fios uniformemente cortados, especialmente quando os achados tricoscópicos e histopatológicos não são compatíveis com alopecia areata ou tricotilomania. Ressalta-se que a tricotemnomania pode coexistir com outras doenças capilares, tornando o quadro clínico mais complexo. O reconhecimento precoce é essencial para evitar intervenções desnecessárias e garantir suporte psicológico e seguimento oportunos.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:

Diana Coello Bonilla
ORCID:
0009-0005-6503-082X
Elaboração e redação do manuscrito, Revisão crítica da literatura.
Giovanna Gelli Carrascoza
ORCID:
0009-0002-6431-6090
Elaboração e redação do manuscrito, Revisão crítica da literatura.
Gabrielle Cassulo Franciscatti
ORCID:
0009-0007-7216-0045
Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Maria Victória Quaresma
ORCID:
0000-0003-2891-1650
Concepção e planejamento do estudo, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura.

 

REFERÊNCIAS:

1. Happle R. Trichotemnomania: obsessive-compulsive habit of cutting or shaving the hair. J Am Acad Dermatol. 2005;52(1):157-9.

2. Mutluer T, Ateş B, Nasıroğlu S, Eray Ş. Three adolescent cases of a very rare disorder: Trichotemnomania. Psychiatry Clin Psychopharmacol. 2019;29(3):212-5.

3. Gallouj S, Rabhi S, Baybay H, Soughi M, Meziane M, Rammouz I, et al. Trichotemnomanie associée à une trichotillomanie: intérêt diagnostique de la dermoscopie. Ann Dermatol Venereol. 2011;138(3):140-1.

4. Thadchanamoorthy V, Thirukumar M, Dayasiri K, Thamilvannan N, Jeyakumar J. Trichotemnomania in an adolescent girl: a case report of an Asian child and literature review. Case Rep Dermatol Med. 2020;2020:6615250.

5. Rudnicka L, Rakowska A, Kerzeja M, Olszewska M. Hair shafts in trichoscopy: clues for diagnosis of hair and scalp diseases. Dermatol Clin. 2013;31(4):695-708.

6. Bergfeld W, Mulinari-Brenner F, McCarron K, Embi C. The combined utilization of clinical and histological findings in the diagnosis of trichotillomania. J Cutan Pathol. 2002;29(4):207-14.

7. Al-Dhubaibi MS, Alsenaid A, Alhetheli G, Abd Elneam AI. Trichoscopy pattern in alopecia areata: a systematic review and meta-analysis. Skin Res Technol. 2023;29(6):e13378.

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