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Perspectiva cirúrgica - Um comentário sobre: “Alopecia triangular temporal bilateral simulando alopecia androgenética de padrão masculino em mulher adulta: relato de caso e revisão da literatura”

Hudson Dutra Rezende; Renata Almeida Chaebub Rodrigues; Ana Lígia Scotti Alérico; Ingrid Palloma Vieira de Melo; Sandra Lopes Mattos e Dinato

DOI: https://doi.org/10.5935/scd1984-8773.2025170502

Fonte de financiamento: Nenhuma
Conflito de interesse: Nenhum
Data de submissão: 28/07/2025
Decisão final: 03/09/2025
Como citar este artigo: Rezende HD, Rodrigues RAC, Alérico ALS, Melo IPV, Dinato SLM. Perspectiva cirúrgica - Um comentário sobre: “Alopecia triangular temporal bilateral simulando alopecia androgenética de padrão masculino em mulher adulta: relato de caso e revisão da literatura”. Surg Cosmet Dermatol. 2025;17:e20250502.


Abstract

A alopecia triangular temporal (ATT) é uma condição rara, frequentemente confundida com alopecia androgenética ou outros distúrbios capilares. Comentamos o recente relato de caso de Lucca et al., destacando a importância da confirmação histopatológica nos casos suspeitos para evitar diagnósticos equivocados e tratamentos desnecessários. Embora seja uma ferramenta útil, a tricoscopia pode não diferenciar de forma confiável a ATT de condições como alopecia areata, tricotilomania ou alopecia frontal fibrosante em estágios avançados. A correção cirúrgica permanece o tratamento de escolha para ATT confirmada, mas o transplante capilar deve ser indicado com cautela em outras formas de alopecia para garantir a segurança e resultados adequados.


Keywords: Alopecia; Transplante; Patologia Clínica; Cirurgia Plástica


Ao Editor:

Lemos com grande interesse o relato de caso de Lucca et al. descrevendo alopecia triangular temporal (ATT) bilateral em uma mulher adulta, uma condição rara que é frequentemente confundida com alopecia androgenética ou outras causas de perda de cabelo. O relato destaca os desafios diagnósticos representados por essa entidade e ressalta a importância de uma avaliação criteriosa.

Para ampliar a discussão, gostaríamos de enfatizar a necessidade de confirmação histopatológica nos casos suspeitos e a consideração cuidadosa do papel do transplante capilar na ATT verdadeira em comparação com seus diagnósticos diferenciais. Embora a tricoscopia seja, sem dúvida, uma ferramenta diagnóstica valiosa, suas limitações devem ser reconhecidas. Ela depende da experiência do médico, e diversas formas de alopecia, particularmente em estágios crônicos ou avançados, podem apresentar achados tricoscópicos pouco evidentes ou muito sutis.1 Isso pode dificultar a distinção entre ATT e outras condições, como alopecia areata unifocal em fase tardia e tricotilomania, que têm abordagens terapêuticas e prognósticos distintos. Nesses casos, o atraso na confirmação histológica pode levar a intervenções desnecessárias ou até mesmo prejudiciais.

O caso relatado pelos autores ilustra as possíveis consequências dessas armadilhas diagnósticas. Um paciente com alopecia areata acometendo a linha frontal do couro cabeludo provavelmente seria submetido a infiltrações intralesionais de corticosteroides em uma área altamente inervada, dolorosa e cosmeticamente delicada, o que torna o risco inerente de atrofia cutânea particularmente preocupante. Pacientes com alopecia fibrosante frontal (AFF) em padrão em placas provavelmente seriam submetidos a terapias sistêmicas, como hidroxicloroquina ou doxiciclina, que têm seus próprios efeitos adversos. Um diagnóstico incorreto de tricotilomania pode expor os pacientes a intervenções psicoterapêuticas ou farmacológicas injustificadas, incluindo o uso de antipsicóticos. Mesmo um diagnóstico equivocado de alopecia androgenética provavelmente exporia o paciente ao uso crônico de minoxidil tópico e/ou oral e de inibidores da 5-α-redutase, como poderia ter ocorrido no caso relatado por Lucca et al.2

Embora a correção cirúrgica permaneça o tratamento de escolha para a ATT confirmada,3 o papel do transplante capilar em outras formas de alopecia deve ser abordado com cautela. A realização do transplante sem certeza diagnóstica pode comprometer tanto os desfechos clínicos quanto a segurança do paciente.

Na alopecia areata, por exemplo, abordagens cirúrgicas em lesões crônicas, mesmo após períodos prolongados de estabilidade da doença, se mostraram arriscadas. Civas et al. relataram o caso de um homem de 24 anos submetido a transplante de pelos na sobrancelha para alopecia areata refratária ao tratamento, que evoluiu com reativação da doença e perda completa dos enxertos após 5 anos.4 Da mesma forma, conforme enfatiza Robert True em suas recomendações sobre critérios de elegibilidade cirúrgica, pacientes com tricotilomania ativa não são candidatos adequados a procedimentos de restauração capilar, uma vez que o comportamento compulsivo de arrancar os cabelos pode destruir tanto os folículos nativos quanto os transplantados, resultando em desfechos insatisfatórios e custos desnecessários.5 Por fim, embora o tratamento cirúrgico tenha sido tentado na AFF, essa abordagem permanece cautelosa, uma vez que as taxas de sobrevivência dos enxertos geralmente são inferiores àquelas observadas em indivíduos sem a doença e os resultados tendem a ser mais limitados.5

Além do risco de intervenções clínicas desnecessárias e de seus efeitos adversos em potencial, deve-se enfatizar que, embora o tratamento mais eficaz para a alopecia triangular congênita o transplante capilar, a confirmação diagnóstica por meio de histopatologia permanece essencial. O diagnóstico equivocado envolvendo outras condições diferenciais expõe os pacientes a tratamentos ineficazes ou arriscados e pode também resultar em prejuízos estéticos e psicológicos irreversíveis. Ao reforçar o valor diagnóstico da biópsia e esclarecer o papel das intervenções cirúrgicas, buscamos promover um manejo mais seguro e eficaz de pacientes com ATT e outras formas incomuns de alopecia.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:

Hudson Dutra Rezende
ORCID: 0000-0002-7039-790X
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Renata Almeida Chaebub Rodrigues
ORCID: 0009-0009-9084-2036
Elaboração e redação do manuscrito, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Ana Lígia Scotti Alérico
ORCID: 0000-0002-8709-8607
Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Revisão crítica da literatura.
Ingrid Palloma Vieira de Melo
ORCID: 0009-0003-4693-567X
Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Revisão crítica da literatura.
Sandra Lopes Mattos e Dinato
ORCID: 0000-0002-8025-1517
Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Revisão crítica da literatura.

 

REFERÊNCIAS:

1. Katoulis AC, Liakou AI, Bozi E, Alevizou A, Rigopoulos D. Temporal triangular alopecia: clinical, trichoscopic, and histopathological features. Skin App Dis. 2019;5(4):230–5.

2. Lucca MB, Ferreira LO, Boff AL, Vettorato R. Alopecia triangular temporal bilateral simulando alopecia androgenética de padrão masculino em mulher adulta: relato de caso e revisão da literatura. Surg Cosmet Dermatol. 2025;17:e20250380.

3. Bang CY, Byun JW, Kang MJ, Yang BH, Song HJ, Shin J, et al. Successful treatment of temporal triangular alopecia with topical minoxidil. Ann Dermatol. 2013;25(3):387–8.

4. Civas E, Aksoy B, Ozer F, Eski M. Long-term result of hair transplantation for therapy- resistant alopecia areata of eyebrows. Indian J Dermatol Venereol Leprol. 2017;83(5):618–9.

5. True RH. Is every patient of hair loss a candidate for hair transplant? Deciding surgical candidacy in pattern hair loss. Indian J Plast Surg. 2021;54(4):435–40.


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