Sarah de Oliveira Mendes; Thamires Alcântara Bezerra de Assis; Ana Beatriz Araújo Leite; Conceição Virgínia Costa Batista
Fonte de financiamento: Nenhuma
Conflito de interesses: Nenhum
Data de submissão: 16/07/2025
Decisão final: 26/08/2025
How to cite this article: Mendes SO, Assis TAB, Leite ABA, Batista CVC. Facial rosacea outside the nasal region: Case report and surgical approach. Surg Cosmet Dermatol. 2025;17:e20250495.
A rosácea é uma doença cutânea inflamatória crônica que pode se manifestar com alterações fimatosas isoladas. Este relato de caso descreve um paciente com apresentação clínica rara e exuberante, tratado com sucesso por meio de uma abordagem cirúrgica convencional.
Keywords: Rosácea; Procedimentos Cirúrgicos Ambulatórios; Dermatologia
A rosácea é uma dermatose inflamatória crônica que afeta cerca de 2 a 22% da população mundial.1 Sua etiologia envolve alterações neurovasculares e imunológicas, além de gatilhos ambientais individuais.2 As lesões cutâneas ocorrem predominantemente na região centrofacial e são caracterizadas por episódios recorrentes de rubor, eritema persistente, pápulas, pústulas e telangiectasias.3,4 As alterações fimatosas correspondem ao espessamento da pele por fibrose e/ou hiperplasia das glândulas sebáceas, que acometem com mais frequência a região nasal,3,5 mas o acometimento de regiões como fronte, mento e orelha também é possível.4
Os critérios diagnósticos, definidos por consenso, evoluíram de uma classificação morfológica para um sistema baseado em fenótipos (Tabela 1). Contudo, a rosácea permanece uma doença de diagnóstico clínico em que as alterações fimatosas são consideradas patognomônicas.3,2
A forma fimatosa é uma manifestação rara, sendo escassos os relatos de acometimento facial com preservação da região nasal.6 O presente estudo tem como objetivo apresentar um caso exuberante e incomum de rosácea fimatosa, bem como os resultados da abordagem cirúrgica.
Um paciente do sexo masculino, 67 anos, residente na região metropolitana de Recife, apresentava lesões progressivas e aditivas em face e orelhas havia aproximadamente 40 anos. Relatava histórico de procedimentos cirúrgicos prévios em algumas lesões, sem recidiva, porém sem informações sobre as técnicas utilizadas.
O exame dermatológico revelou placas eritematosas e infiltrativas localizadas nas regiões malar, glabelar e nos lóbulos auriculares; cicatrizes de ressecções prévias em fronte e ângulo mandibular, além de cicatrizes atróficas em mento, residuais de acne (Figura 1).
O exame histopatológico da região malar esquerda evidenciou perifoliculite crônica associada a fibrose cicatricial, achado compatível com rosácea. Com base na avaliação clínica e histopatológica, estabeleceu-se o diagnóstico de rosácea fimatosa de apresentação incomum, caracterizada pela exuberância das lesões e pelo acometimento facial com preservação da região nasal.
Optou-se por uma abordagem cirúrgica por meio de shaving com bisturi frio e lâmina nº 15, seguido de refinamento com bisturi elétrico disponível no centro cirúrgico (20 watts). Utilizou-se a ponteira em faca reta para ajustes de irregularidades e coagulação suave dos pontos de sangramento. Na região da glabela, havia sido programado um retalho de avanço; contudo, a flacidez local permitiu a aproximação dos bordos e o fechamento primário da área, tornando o retalho desnecessário. Na região malar, adotou-se cicatrização por segunda intenção. O paciente evoluiu sem intercorrências e apresentou resolução completa do eritema pós-inflamatório no seguimento realizado em 2025.
O desfecho estético do primeiro procedimento foi considerado excelente, com redução considerável das tumorações faciais e das irregularidades da superfície da pele (Figura 2). Houve regressão do eritema pós-cirúrgico 3 anos após a intervenção, sem recidiva das lesões e com manutenção da satisfação do paciente, que relatou melhora da qualidade de vida (Figura 3). Dessa forma, não foram necessárias novas abordagens terapêuticas.
Embora seja uma patologia benigna, a rosácea fimatosa pode causar problemas funcionais e estéticos, tornando necessária uma abordagem terapêutica.1,2 O tratamento clínico descrito inclui o uso de isotretinoína e tetraciclinas como possibilidades terapêuticas nas formas inflamatórias. Para as lesões fibróticas, contudo, o tratamento ideal envolve a remoção da lesão sem prejuízo às estruturas adjacentes e anexos cutâneos.1,2
Diversos métodos têm sido descritos e utilizados o tratamento das formas fibróticas, com relatos de cirurgias excisionais que remontam ao século XVII. Apesar disso, ainda não existe um método de tratamento universalmente aceito para a condição, predominando na literatura abordagens cirúrgicas excisionais e lasers ablativos. Os métodos relatados com mais frequência incluem cirurgia convencional, eletrocirurgia, criocirurgia e radiofrequência. Entre as técnicas ablativas, destacam-se os lasers de CO2 (10,640 nm) e Er:YAG (Erbium-doped Yttrium‐Aluminum‐Garnet) (2,940 nm).1,2
Não há estudos que demonstrem a superioridade de uma técnica em relação às demais e, devido à variedade das opções terapêuticas disponíveis, cada paciente deve ser avaliado individualmente para a escolha do método apropriado, levando em consideração fatores como acessibilidade, disponibilidade e características do paciente a fim de determinar a melhor relação risco-benefício.2
O paciente neste relato apresentou melhora estética e funcional, sem intercorrências pós-operatórias, demonstrando que a abordagem cirúrgica convencional pode ser eficaz mesmo em apresentações incomuns de rosácea fimatosa.
Sarah de Oliveira Mendes
ORCID: 0009-0006-0319-1860
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura.
Thamires Alcântara Bezerra de Assis
ORCID: 0000-0002-8017-9906
Aprovação da versão final do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados.
Ana Beatriz Araújo Leite
ORCID: 0000-0003-0027-6720
Aprovação da versão final do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados.
Conceição Virgínia Costa Batista
ORCID: 0000-0002-3724-8742
Aprovação da versão final do manuscrito, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
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