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Manejo não cirúrgico de ectrópio pela aplicação de ácido hialurônico com cânula

Ana Paula Dornelles Manzoni; Fabiane Kumagai Lorenzini; Taisa de Boni Gauer; Bruna Bonamigo Thomé; Renan Rangel Bonamigo

DOI: https://doi.org/10.5935/scd1984-8773.2025170470

Fonte de financiamento: Nenhuma
Conflito de interesse: Nenhum
Data de submissão: 12/05/2025
Decisão final: 26/08/2025
Como citar este artigo: Manzoni APD, Lorenzini FK, Gauer TB, Thomé BB, Bonamigo RR. Manejo não cirúrgico de ectrópio pela aplicação de ácido hialurônico com cânula. Surg Cosmet Dermatol. 2025;17:e20250470.


Abstract

O tratamento do ectrópio palpebral continua a ser um desafio. As abordagens cirúrgicas ainda são mais utilizadas, mas as técnicas com ácido hialurônico têm se mostrado cada vez mais promissoras. Este artigo descreve uma técnica inédita de injeção de ácido hialurônico através de uma cânula para correção de ectrópio cicatricial severo secundário à ictiose lamelar. Apesar de necessitar mais estudos, o procedimento mostrou-se seguro e facilmente reprodutível.


Keywords: Ectrópio; Ácido Hialurônico; Cânula


INTRODUÇÃO

O ectrópio é o mau posicionamento da pálpebra, com exposição da superfície do olho. Afeta principalmente a pálpebra inferior e pode levar a diversas complicações oculares.1 No ectrópio cicatricial (EC), a contratura da pele e do tecido subcutâneo encurta a lamela anterior, resultando em eversão da pálpebra.2,3 Quando não tratado, o ectrópio pode causar danos permanentes à córnea e levar à cegueira.4,5 Atualmente, além da correção cirúrgica, há uma tendência na adoção de condutas menos invasivas, como o preenchimento com ácido hialurônico (AH).

O presente caso descreve uma paciente com ictiose lamelar e ectrópio bilateral, com um dos olhos já acometido por úlcera corneana secundária e amaurose.6 Na tentativa de melhorar o ectrópio e impedir a evolução para cegueira completa, foi realizada a injeção de AH por meio de cânula. A descrição dessa técnica é inédita na literatura.

 

APRESENTAÇÃO DO CASO CLÍNICO

A paciente, uma mulher de 67 anos, apresentou ictiose lamelar, ectrópio bilateral, prótese ocular à esquerda e comprometimento grave da visão à direita secundária a exposição conjuntival e corneana.

O objetivo foi usar AH para expansão tecidual de modo a elevar a borda tarsal inferior e facilitar a oclusão palpebral, minimizando, assim, as sequelas oculares. Por questões de segurança e para garantir uma distribuição mais homogênea do ácido, optou-se pelo uso de cânula em vez de agulha.

O procedimento consistiu na introdução de uma cânula rígida de calibre 22G no plano entre a pele e o músculo orbicular, seguida de injeção retrógrada de 1 mL de preenchedor de AH de G prime médio (20 mg/mL) na lamela anterior ao longo da pálpebra inferior (Figura 1). A cânula deslizou facilmente no plano supramuscular, provocando desconforto mínimo, sem evidência de sangramento ou equimose. Observou-se expansão imediata da pálpebra inferior, caracterizada por sobrecorreção com coloração azulada decorrente do efeito Tyndall, uma resposta esperada e desejada para a obtenção da expansão tecidual (Figura 2).

O objetivo principal do procedimento não é apenas a melhora estética, mas impedir a progressão de úlceras corneanas secundárias ao ectrópio. Dessa forma, a sobrecorreção intencional faz parte da estratégia terapêutica. A paciente vem sendo submetida a aplicações anuais de AH com cânula há 5 anos, sem recorrência de úlceras corneanas durante o seguimento.

 

DISCUSSÃO

A correção cirúrgica continua a ser o tratamento mais comum para o EC; entretanto, as técnicas de injeção de AH têm se mostrado uma alternativa viável, capaz de promover expansão da lâmina anterior, estimular a neocolagênese e melhorar a aposição das pálpebras.1 Além disso, a injeção de AH é minimamente invasiva e apresenta baixo risco de complicações.2 A satisfação dos pacientes em relação aos desfechos estéticos é semelhante à obtida com a correção cirúrgica.2,3

As possíveis complicações da injeção de AH incluem hematoma, edema, distribuição irregular do preenchedor, sobrecorreção e oclusão vascular.4 O uso de cânulas de 22G reduz o risco de isquemia arterial e venosa, o que é particularmente relevante devido à anatomia vascular da pálpebra inferior, uma região com maior risco de complicações isquêmicas.4 As cânulas requerem um único ponto de entrada, o que diminui a probabilidade de hematoma, equimose e desconforto.

O uso de cânulas para correção do EC com injeções de AH tem se demonstrado uma técnica segura, simples e eficaz. No entanto, são necessários estudos prospectivos e comparativos adicionais para validar sua aplicação em larga escala.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:

Ana Paula Dornelles Manzoni
ORCID: 0000-0001-6184-4440
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Fabiane Kumagai Lorenzini
ORCID: 0000-0001-6365-8705
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Taisa de Boni Gauer
ORCID: 0000-0002-7815-6107
Concepção e planejamento do estudo.
Bruna Bonamigo Thomé
ORCID: 0000-0002-3445-9480
Concepção e planejamento do estudo.
Renan Rangel Bonamigo
ORCID: 0000-0003-4792-8466
Concepção e planejamento do estudo.

 

REFERÊNCIAS:

1. Mitchell DA, Lyons AB, Moy RL. Correction of cicatricial and involutional lower eyelid ectropion with hyaluronic acid. JAAD Case Rep. 2018;4:628-30.

2. Worley B, Huang JW, Macdonald J. Approach to treatment of cicatricial ectropion: a systematic review and meta-analysis comparing surgical and minimally invasive options. Arch Dermatol Res. 2020;312:165-72.

3. Enghelberg M, Michaelos L, Lonescu C, Stingu T, Georgescu D. Volumizing hyaluronic acid filler as a temporary tissue expander in lower eyelid cicatricial ectropion. Pan-Am J Ophthalmol. 2017;16:52–4.

4. Bravo BSF, Totti J, Gelpi BEA, Bianco de Souza S, Bravo LG. Use of hyaluronic acid fillers to correct scleral show: a review of technique. J Clin Aesthet Dermatol. 2018;11:38-40.

5. Veloso LK, Ferreira G, Marques JP, Meneghim RLF, Galindo AF, Padovani CR, Schellini SA. Short-term qualitative and quantitative analyses of preseptal injection of hyaluronic acid on the treatment of acquired lower eyelid cicatricial ectropion. Arq Bras Oftalmol. 2023;87(5):e20220245.

6. Byrd LB, Gurnani B, Martin N. Corneal Ulcer. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025.


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