Sociedade Brasileira de Dermatolodia Surgical & Cosmetic Dermatology

GO TO

ISSN-e 1984-8773

Volume 2 Número 2


Voltar ao sumário

 

Relatos de casos

Tratamento de carcinoma basocelular com associação de terapia fotodinâmica e cirurgia micrográfica de Mohs

Treatment of basocellular carcinoma with the association of photodynamic therapy and Mohs micrographic surgery


Rodrigo Negri Pereira1, Erica Ligório Fialho1, Gabriel Gontijo1

Médico dermatologista voluntário do
Serviço de Dermatologia da Universidade
Federal de Minas Gerais – (UFMG) - Belo
Horizonte (MG), Brasil1, Médica dermatologista voluntária do
Serviço de Dermatologia da Universidade
Federal de Minas Gerais – (UFMG) - Belo
Horizonte (MG), Brasil2, Professor e mestre em dermatologia pela
Universidade Federal de Minas Gerais –
(UFMG) - Belo Horizonte (MG), Brasil3

Recebido em: 18/11/2009
Aprovado em: 01/03/2010
Trabalho desenvolvido no Serviço de
Dermatologia do Hospital das Clínicas –
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG.
Conflito de interesse: Gabriel Gontijo –
Consultor para Terapia Fotodinâmica do
Laboratório Galderma
Suporte financeiro: Recursos próprios do
serviço

Correspondência:
Endereço para correspondência:
Rodrigo Negri Pereira.
Rua Icaraí 755 apt 304 – Caiçara
30770-160 - Belo Horizonte - MG
Tel: (31)25516740 e (31)88556740
E-mail: negripereira@ig.com.br

 

Resumo

tratamento de carcinomas basocelulares mal delimitados, recidivados, extensos, localizados em áreas de risco, em pacientes com várias comorbidades representa sempre um desafio para o cirurgião dermatológico.A cirurgia micrográfica de Mohs, geralmente utilizada nesses casos, apresenta riscos inerentes a uma cirurgia extensa, além da dificuldade no fechamento da ferida operatória, que muitas vezes se estende além dos limites clínicos da lesão. Demonstra-se, em paciente com 90 anos, diabética e hipertensa, a utilização da terapia fotodinâmica anterior à cirurgia micrográfica de Mohs, visando à diminuição e melhor delimitação da lesão para posterior exérese.

Palavras-chave: CIRURGIA DE MOHS, FOTOQUIMIOTERAPIA, CARCINOMA BASOCELULAR, RETALHOS CIRÚRGICOS

INTRODUÇÃO

A associação de terapia fotodinâmica (TFD) e cirurgia micrográfica de Mohs (CMM) tem se mostrado de grande valia em alguns estudos, no tratamento de casos selecionados de câncer de pele não melanoma1,2 quando grandes cirurgias representam risco significativo.

Essas situações incluem: tumores extensos mal delimitados, localização em área de risco, pacientes com idade avançada e comorbidades associadas.

O uso da TFD tem como finalidade diminuir a área tumoral a ser retirada cirurgicamente, facilitando esse procedimento. Dessa forma ocorrerão menor tempo operatório e menos morbidade para os pacientes.

MÉTODOS

O procedimento combinado foi adotado em uma paciente de 90 anos portadora de diabetes melitus e hipertensão arterial sistêmica, apresentando duas lesões mal delimitadas com evolução de 10 anos: uma de aproximadamente 40x30mm em região malar direita invadindo o canto interno do olho e outra no dorso nasal medindo por volta de 30x20mm.(Figura 1) A histologia confirmou carcinoma basocelular (CBC) sólido e superficial na primeira lesão e CBC sólido na lesão nasal.A primeira lesão já havia sido excisada anteriormente, e a segunda submetida a 3 sessões de criotrerapia sem sucesso.

Inicialmente a paciente foi submetida a duas sessões de TFD com metilaminolevulinato com intervalo de uma semana. Foi utilizada luz vermelha de 635nm, com dose de 37J/cm2 e potência de 70 a 100Mw/cm2 por 8 minutos nas duas sessões. Houve redução tumoral significativa(Figura 2). Após 3 meses, procedeu-se a CMM nas duas lesões, ambas com 3 estágios. A ferida operatória do canto do olho direito foi fechada com retalho de transposição e a do nariz com fechamento primário. (Figura 3) Tres anos após a cirurgia, a paciente evolui sem sinais de recidiva.(Figura 4)

DISCUSSÃO

O tratamento do CBC extenso e mal delimitado em pacientes idosos com saúde fragilizada representa desafio constante para o cirurgião dermatológico.

A CMM mostra excelente taxa de cura, porém tem limitações. Pacientes apresentando alto risco cirúrgico com necessidade de exéreses de grandes áreas levam o cirurgião a buscar novas alternativas para o procedimento.

O uso da TFD anterior à CMM visa à melhor delimitação e à diminuição da extensão tumoral, tornando a exérese menos complexa, com menor tempo operatório. Dessa forma, a recuperação do paciente será mais rápida, e o número de complicações intra e pós operatórias serão menores.

Em revisão de literatura não foram encontrados artigos citando a utilização da TFD anterior à CMM como tratamento adjuvante. Existem estudos usando apenas o diagnóstico fotodinâmico anterior à CMM.3,4 São citados cinco casos de pacientes que fizeram uso da TFD pós CMM.1,2 Em quatro os pacientes tinham lesões de CBC dos mais variados subtipos, retiradas por CMM e sendo a TFD utilizada para tratar as lesões de CBC superficial residual. O quinto caso descreve o tratamento com CMM em carcinoma de células escamosas no pênis, em área de eritroplasia de Queyrat. Esta última foi tratada posteriormente com TFD. Na opinião dos autores, a utilização prévia da TFD nesses casos também seria boa opção de tratamento, pois, além de tratar essas lesões superficiais, traria ainda, os benefícios citados no parágrafo anterior.

Embora a TFD seja tradicionalmente indicada para lesões superficiais como CBC superficial, doença de Bowen e ceratose actínica devido a oferecer maiores possibilidades de cura, o caso descrito a utilizou também em CBC de subtipo sólido, porque 1) a TFD nesse caso visou mais à diminuição e delimitação tumoral do que à cura completa, considerando-se que o tumor ainda seria submetido à CMM; 2) estudos sobre a histologia dos CBCs apontam que 35% deles são do subtipo histológico misto e que o resultado de uma biópisia incisional representa apenas parte do tumor.5 Isso poderia justificar a diminuição da lesão no dorso nasal, que era de subtipo sólido; 3) na experiência de Kuijpers et al., muitos casos de pacientes com múltiplos CBCs na face com subtipo sólido ou agressivo apresentam o subtipo superficial nas bordas.2

Considera-se relevante a descrição dessa associação de procedimentos no tratamento de alguns casos selecionados de CBC devido a seu benefício para o paciente. É importante que mais estudos sejam desenvolvidos e mais casos descritos para melhor avaliação dos resultados e aprimoramento da técnica. Os achados encontrados no caso relatado foram animadores.

Referências

1 . Lee MR,Ryman W. Erythroplasia of Queyrat treated with topical methyl aminolevulinate photodynamic therapy. Australas J Dermatol. 2005;46(3): 196-8.

2 . Kuijpers DIM,Smeets NWJ,Krekels GAM,Thissen MRTM.Photodynamic therapy as adjuvant treatment of entensive basal cell carcinoma trea ted with Mohs micrographic surgery.Dermatol Surg. 2004; 30(5): 794-8.

3 . Rogalski C, Kauer F, Simon JC, Paasch U. Meta-analysis of published data on incompletely excised basal cell carcinoma of the ear and nose with introduction of an innovative tretment strategy. J Dtsch Dermatol Ges. 2007; 5(2): 118-26.

4 . Szeimies RM, Landthaler M. Photodynamic therapy and fluorescence diagnosis of skin cancers. Recent Results Cancer Res. 2002; 160: 240-5.

5 . Sexton M, Jones DB, Maloney ME. Histologic pattern analysis of basal cell carcinoma: study of a series of 1039 consecutive neoplasms. J Am Acad Dermatol. 1990; 23(6 pt1): 1118-26.

© 2017 Sociedade Brasileira de Dermatologia - Todos os direitos reservados

GN1 - Sistemas e Publicações