Sociedade Brasileira de Dermatolodia Surgical & Cosmetic Dermatology

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ISSN-e 1984-8773

Volume 5 Número 3


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Artigos Originais

Aumento da dose eritematosa mínima a partir da ingestão de um suplemento vitamínico contendo antioxidantes

Increase in the minimum erythema dose level based on the intake of a vitamin supplement containing antioxidants


Flávia Alvim Sant'Anna Addor1; Patrícia Camarano2; Christiane Agelune3

1. Médica dermatologista; diretora técnica no Medcin Instituto da Pele - Osaco (SP), Brasil
2. Gerente de pesquisa clínica no Medcin Instituto da Pele - Osasco (SP), Brasil
3. Gerente de pesquisa na área de fotoproteção no Medcin Instituto da Pele - Osasco (SP), Brasil

Data de recebimento: 20/07/2013
Data de aprovação: 01/09/2013
Suporte financeiro: Estudo patrocinado pela Farmoquímica S.A. - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
Conflitos de interesse: Estudo patrocinado pela Farmoquímica S.A. - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
Trabalho realizado no Medcin Instituto da Pele - São Paulo (SP), Brasil.

Correspondência:
Dra. Flávia Alvim Sant'Anna Addor
Rua Doutor Carlos de Moraes Barros, 304
06544-540 - Santana de Parnaíba - SP
E-mail: flavia@medcinonline.com.br

 

Resumo

Introdução: O fotodano induzido pela luz ultravioleta leva agudamente a eritema solar, que é o fenômeno medido para avaliar a proteção solar de um determinado produto. Objetivo: Investigar a capacidade de um suplemento alimentar contendo antioxidantes (carotenoides, oligoelementos, óleo de linhaça e vitaminas E e C) para prevenir fotodano, usando como parâmetro a dose eritematosa mínima. Método: Foi determinada a dose eritematosa mínima de 28 voluntários de fototipos 2 e 3 de Fistspatrick, com um simulador solar, antes e após 30 e 60 dias do uso do suplemento. Resultados: O uso diário do suplemento foi bem tolerado. Houve aumento significativo da dose eritematosa mínima no grupo avaliado (p = 0,017) Conclusão: A associação de antioxidantes estudada exibiu aumento estatisticamente significativo da dose eritematosa mínima, sugerindo a atividade fotoprotetora.

Palavras-chave: RAIOS ULTRAVIOLETA, ANTIOXIDANTES, CAROTENOIDES.

INTRODUÇÃO

A exposição à radiação solar em sua faixa ultravioleta induz eritema e pigmentação que variam de acordo com o fototipo.1

O eritema solar ocorre sobretudo nos indivíduos de pele clara, inicia-se de duas a quatro horas após a exposição solar, alcançando sua maior intensidade ao redor de 24 horas. Seu aparecimento decorre da vasodilatação e subsequente migração de leucócitos polimorfonucleares, caracterizando uma reação inflamatória aguda.A radiação Ultravioleta B é a principal determinante do aparecimento do eritema.2

Para a quantificação da susceptibilidade individual ao eritema, alguns recursos são utilizados e padronizados na literatura.

A dose eritematosa mínima (DEM) pode ser definida como a menor quantidade de energia eritematogênica efetiva, suficiente para produzir a primeira reação perceptível de eritema com bordas definidas. Para sua determinação, o indivíduo deve ser exposto a doses crescentes de radiação ultravioleta através de um equipamento denominado Simulador Solar, cujo espectro de radiação é semelhante ao do sol. Após 24 horas é feita a leitura do eritema e então determinada a DEM.3

Quanto maior a DEM, maior a resistência de um indivíduo à produção de eritema.

A determinação do ângulo tipológico individual (Individual Typological Angle - ITA), índice que se relaciona à cor da pele e é calculado através de medidas obtidas a partir de um colorímetro.4

A prevenção do eritema é desejada pelos indivíduos expostos agudamente ao sol, pelo seu evidente desconforto.Além dos protetores solares tópicos, alguns agentes de uso oral podem ter ação fotoprotetora, elevando a DEM, através de mecanismos antioxidantes ou anti-inflamatórios, já que a pigmentação é decorrente de um processo foto-oxidativo da melanina.

A associação de nutrientes com ação antioxidante e antiinflamatoria pode ter efeito benéfico na prevenção do eritema.5 Uma forma de avaliar esse efeito é através da determinação da DEM6 antes e depois do uso do suplemento.

O objetivo do presente estudo foi avaliar a eficácia de um suplemento vitamínico na redução do eritema, através do aumento da DEM, antes e depois de seu uso.

 

MÉTODOS

Trata-se de estudo prospectivo, controlado, cego, não comparativo, realizado entre abril e julho de 2013, em laboratório de pesquisa clínica privado, na cidade de Osasco - SP.

A população estudada foi de 33 pacientes adultos do sexo feminino, entre 18 e 60 anos, com fototipos II e III de Fitzpatrick. Pacientes em uso de drogas imunossupressoras ou anti-inflamatórios foram excluídos, assim como indivíduos com história de fotodermatoses, gestantes e lactantes.

Depois da assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, todos os voluntários foram avaliados clinicamente para checagem dos critérios de inclusão e exclusão, sendo então determinadas as medidas de colorimetria com o colorímetro (Konica Minolta CR400, Reino Unido, Grã-Bretanha) no dorso, área eleita para realização do teste para a determinação do ITA e posterior radiação ultravioleta B. Assim, a área dorsal foi dividida em seis sítios, sendo cada um irradiado com doses progressivas, emitidas por um simulador solar, pré-determinadas através do detector de irradiação UVB, sendo cada dose 12% superior à anterior, em progressão geométrica. Essa progressão de irradiação é a mesma preconizada na metodologia para determinação do fator de proteção solar.7

O simulador solar (Solar Light® Solar Light Co, Glenside, PA, USA) é equipamento capaz de emitir o espectro solar, sendo referência nos estudos para determinação do Fator de proteção Solar (FPS) e outros estudos em fotobiologia, estando de acordo com as exigências europeias e norte-americanas em suas monografias técnicas acerca de fotoproteção.

A dose mediana (4a porta) corresponde à DEM e por isso foi definida pelo valor obtido através do cálculo do ITA; as demais doses foram determinadas através da progressão geométrica conforme o quadro abaixo (Quadro 1).

Terminada a exposição, o voluntário aguardou ainda 15 minutos para observação de eventuais reações imediatas à radiação ultravioleta, tais como bronzeamento, eritema reflexo e erupção vesiculosa. Em seguida foi dispensado e orientado a retornar após 24 horas para leitura da área.

Após a leitura de 24 horas, em que foi determinada a DEM, através da leitura do eritema com luminosidade padronizada, o voluntário recebeu a amostra do suplemento vitamínico em cápsulas, e foi orientado a ingerir uma cápsula ao dia.

O quadro 2 mostra a composição da cápsula.

O suplemento foi ingerido nessa posologia durante oito semanas; novas determinações da DEM nos mesmos moldes foram realizadas em quatro e oito semanas, quando o estudo foi encerrado.

 

RESULTADOS

Dos 33 voluntários convidados e incluídos, 28 terminaram o estudo; quatro desistiram por motivos não relacionados ao protocolo, e um foi excluído por utilização de medicação não permitida durante o estudo.

Nenhum voluntário exibiu qualquer reação adversa relacionada ao uso do suplemento durante o período de estudo.

A avaliação estatística dos resultados foi realizada utilizando-se o Teste T de student, com nível de significância de 5% (p = 0,05)

Avaliação da dose eritematosa mínima

O gráfico 1 demonstra a evolução das médias da dose eritematosa mínima nos tempos experimentais T0,T30 e T60 dias.

A partir do gráfico 1, pode-se concluir que o uso diário do suplemento levou a aumento estatisticamente significativo (p = 0,017) nos valores da DEM, a partir de 60 dias. Um achado relevante deve ser assinalado: quatro voluntários não exibiram eritema em nenhuma das irradiações, sugerindo assim considerável aumento da DEM, mesmo com até 30% a mais de irradiação.

 

DISCUSSÃO

A associação de antioxidantes orais como agentes que reduzem o fotodano a partir de aumento da DEM já é conhecida, ademais o efeito fotoprotetor de antioxidantes sistêmicos ou mesmo tópicos já foi demonstrado em diversos estudos experimentais.8,9

Um estudo clínico empregando a associação de vitaminas E em doses de 500UI e C, em doses de 1g, duas vezes ao dia demonstrou aumento significativo da DEM, a partir de 90 dias.10

O uso concomitante tem resultados superiores, reduzindo até a formação de dímeros de timina, o que já foi demonstrado em modelo animal.11

O efeito sinérgico entre antioxidantes é possível, e pode levar a aumento qualitativo do efeito protetor não somente do fotodano imediato como também de fenômenos celulares típicos do fotodano.12

A associação de nutrientes também pode permitir o uso de doses menores, alimentares, prevenindo assim efeitos como a hipervitaminose.13

O suplemento oral aqui estudado reuniu antioxidantes de mecanismos variados, o que pode potencializar o efeito protetor, assim como torná-lo mais precoce, podendo esse fenômeno ser observado a partir de 60 dias.

Moléculas como a luteína e o licopeno, já consagradas como antioxidantes orais, com efeito fotoprotetor,14,15 podem atuar em concomitância, potencializando os efeitos antioxidantes; o licopeno, por exemplo, pode ser associado com outro carotenoide, não havendo competição na absorção e no aproveitamento, e não exibe atividade pró-vitamina A. Ambos não são sintetizados pelo organismo humano.16

As sementes de linhaça são ricas em ácidos graxos essenciais, fibras e compostos fenólicos, que exercem atividade antioxidante, sendo também fonte significativa de ácidos graxos essenciais ω-3 e ω-6, fundamentais à manutenção da barreira cutânea e modulação da atividade inflamatória.17

Minerais como o zinco e o selênio são fatores que constituem enzimas fundamentais ao mecanismo antioxidativo, como a superóxido dismutase e glutationa peroxidase, respectivamente.18,19

 

CONCLUSÃO

A associação de nutrientes de valor antioxidante exibe a capacidade de promover proteção contra o fotodano agudo, medida neste estudo pelo aumento da dose eritematosa mínima. As concentrações em doses alimentares possuem um adequado perfil de segurança, afastando o risco de toxicidade.

 

Referências

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