Sociedade Brasileira de Dermatolodia Surgical & Cosmetic Dermatology

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ISSN-e 1984-8773

Volume 3 Número 3


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Relatos de casos

Bleomicina para queloide rebelde e gigante - nova opção de tratamento

Bleomycin in refractory giant keloids: a new treatment alternative


Glaysson Tassara Tavares1, Felipe Osta de Oliveira1, Rafael de Abreu Moraes1, Thaís Sanai Batista1

Preceptor de residência médica do Serviço
de Dermatologia do Hospital das Clínicas
da Universidade Federal de Minas Gerais
(HC-UFMG) – Belo Horizonte (MG), Brasil.1, Residente do Serviço de Dermatologia do
Hospital das Clínicas da Universidade
Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ) –
Belo Horizonte (MG), Brasil.2, Residente do Serviço de Dermatologia do
Hospital das Clínicas da Universidade
Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ) –
Belo Horizonte (MG), Brasil.2, Residente do Serviço de Dermatologia do
Hospital das Clínicas da Universidade
Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ) –
Belo Horizonte (MG), Brasil.2

Recebido em: 19/05/2011
Aprovado em: 15/09/2011

Trabalho realizado no Hospital das Clínicas
da Universidade Federal de Minas Gerais
(HC-UFMG) – Belo Horizonte (MG), Brasil.

Conflitos de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

Correspondência:
Glaysson Tassara Tavares
Alameda Alvaro Celso 55. Santa Efigênia
30150 260 – Belo Horizonte - MG
E-mail: gtassara@terra.com.br

 

Resumo

Queloide é afecção descrita há alguns séculos, porém ainda hoje seu manejo e terapia apresentam resultados muitas vezes insuficientes. Há, atualmente, diversos tratamentos, como corticoterapia intralesional e terapia compressiva, entre outras. Relata-se o caso de paciente com histórico de queloides nos lóbulos das orelhas há cinco anos, com evolução recidivante após as terapêuticas empregadas. Utilizando injeções intralesionais de bleomicina após redução cirúrgica, houve regressão completa das lesões por dois anos. A bleo- micina tem-se tornado opção terapêutica para queloides refratários aos tratamentos convencionais com poucos efeitos colaterais e resposta duradoura.

Palavras-chave: BLEOMICINA, CICATRIZ HIPERTRÓFICA, QUELÓIDE

INTRODUÇÃO

A cicatrização é processo complexo que resulta na forma- ção de novo tecido para reparo de uma solução de continuida- de. A evolução normal das fases de cicatrização em indivíduos hígidos geralmente determina cicatriz final de bom aspecto estético e funcional. 1 Qualquer interferência nesse processo pode levar à formação de cicatrizes de má qualidade, alargadas e pigmentadas. Dentre as afecções cicatriciais, destacam-se a cica- triz hipertrófica e o queloide, que ocorrem a partir da hiperpro- liferação de fibroblastos, com conseqüente acúmulo de matriz extracelular e, especialmente, pela excessiva formação de coláge- no. 1-3 O queloide consiste em lesão elevada, brilhante, prurigi- nosa ou dolorosa, de localização dérmica. Sinais que o diferen- ciam da cicatriz hipertrófica são a localização além dos limites da ferida original, com invasão da pele normal adjacente, cresci- mento ao longo do tempo, com ausência de regressão espontâ- nea, evolução com recorrência após excisão, e história pessoal ou familiar. 4 Apresenta-se, a seguir, caso de paciente com lesões gigantes, rebeldes à terapêutica convencional, tais como injeções intralesionais de corticosteroides e radioterapia.

RELATO DE CASO

Paciente do sexo feminino, 24 anos, branca, apresentava, há cinco anos, queloides extensos acometendo os lóbulos das ore- lhas D e E e o ângulo da mandíbula direita (Figuras 1, 2 e 3), originados em orifícios para colocação de brincos. As lesões eram inestéticas, apresentando ulcerações e odor forte, causando grande desconforto à paciente.

A paciente já fora submetida a três tratamentos, sendo os dois primeiros constituídos por exérese das lesões, seguida de infiltração de corticosteroide, com intervalo mensal. O terceiro tratamento consistiu de exérese das lesões, seguida de cinco ses- sões de radioterapia e de utilização de malha compressiva.

Houve piora, e as lesões tiveram suas dimensões aumentadas em aproximadamente três vezes.

O tratamento proposto foi a redução cirúrgica dos queloi- des e infiltrações com bleomicina. Para a redução cirúrgica, empregaram-se técnicas diferentes nos lados D e E. Nos queloi- des do lóbulo da orelha D e do ângulo da mandíbula realizou- se a incisão dentro das margens do queloide, com exérese da massa tumoral, seguida de sutura. Na lesão da orelha E foi reali- zada exérese tangencial (shaving) subtotal do queloide, que cica- trizou por segunda intenção.

Foram realizadas dez infiltrações de bleomicina (15u diluí- das em 5ml de SF 0,9%) com média de 0,04ml por sessão, sendo seis infiltrações com intervalo mensal, duas com intervalo tri- mestral, e as duas últimas semestrais. O início do tratamento foi em janeiro de 2007, e o final em janeiro de 2009. Houve exce- lente resposta, com ótimo resultado estético (Figuras 4, 5 e 6). Contudo, no queloide em que foram realizadas exérese e sutu- ra, a cicatriz ficou levemente infiltrada, e no que foi empregado o shaving a cicatriz ficou mais discreta e com consistência amolecida, sugerindo que essa seria a técnica ideal para redução de queloide. Após acompanhamento de 30 meses as cicatrizes man- têm-se estáveis, sem sinais de recorrência.

DISCUSSÃO

A bleomicina é droga amplamente usada em oncologia. Trata-se de mistura de polipeptídeos citotóxicos com proprie- dades antibacteriana, antiviral e antitumoral. Foi isolada de um fungo de solo, Streptomyces verticillus, no início dos anos 60. 3 O mecanismo de ação na pele permanece incerto, porém há evi- dências de que ela aumenta o fator de necrose tumoral local. 2 Os efeitos colaterais são mínimos, sendo descritas em alguns pacien- tes hiperpigmentação e atrofia. 1,4 Devido a sua alta seletividade para células epiteliais, há relatos do uso da bleomicina intralesio- nal para o tratamento de certas doenças da pele, como verrugas, sarcoma de Kaposi, leucoplasia, hemangiomas e linfangiomas. 1,5 Os resultados mostraram-se satisfatórios e promissores para todas essas lesões, mas, devido ao pequeno número de pacientes estu- dados, não pode ser dado como método de rotina antes que sur- jam novos elementos. Com relação a seu uso para o tratamento de queloides, a literatura tem mostrado bons resultados, consti- tuindo opção interessante, entre outras. Contudo, faz-se neces- sária, também, a realização de estudos mais amplos e bem con- trolados.

Referências

1 . Saray, Y. and Güleç, A. T. Treatment of keloids and hypertrophic scars with dermojet injections of bleomycin: a preliminary study. Int J Dermatol. 2005; 44(9): 777-84.

2 . Naeini FF, Najafian, J, Ahmadpour K. Bleomycin Tattooing as a Promising Therapeutic Modality in Large Keloids and Hypertrophic Scars Dermatol Surg 2006; 32(8): 1023-30.

3 . Shridharani SM, Magarakis M, Manson PN, Singh NK, Basdag B, Rosson GD. The Emerging Role of Antineoplastic Agents in the Treatment of Keloids and Hypertrophic Scars: a Review. Ann Plast Surg. 2010; 64(3): 355-61.

4 . Heller R, Jaroszeski M, Reintgen D, Puleo C, DeConti R, Gilbert R, et al. Treatment of cutaneous and subcutaneous tumors with electroche motherapy using intralesional bleomycin. Cancer. 1998; 83(1): 148-57.

5 . Espana A, Solano T, Quintanilla E. Bleomycin in the treatment of keloids and hypertrophic scars by multiple needle punctures. Dermatol Surg. 2001; 27(1): 23-7.

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