Giulia Zanata Rossi; Vitória Castelo Branco Rocha Ibiapina do Monte; Lorena Queiroz Furtado de Mendonça; Anna Carolina Miola
Fonte de financiamento: Não
Conflito de interesses: Não
Data de submissão: 20 de janeiro de 2026
Decisão final: 13 de agosto de 2026
Como citar este artigo: Rossi GZ, Monte VCBRI, Mendonça LQF, Miola AC. Técnica de exérese em gota para correção de lóbulo auricular fendido após uso de alargador. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(3):e20260550.
O lóbulo auricular é perfurado com frequência, podendo evoluir com defeitos significativos, especialmente após o uso de alargadores. A correção desses defeitos representa um desafio cirúrgico devido à maior perda tecidual e ao risco de deformidades. Relatamos o caso de um homem de 26 anos com defeito residual no lóbulo auricular esquerdo após uso de alargador, tratado por meio de uma nova técnica de exérese em formato de gota. A abordagem permitiu fechamento simples, preservação da curvatura inferior e excelente resultado estético, configurando uma alternativa viável para defeitos intermediários do lóbulo.
Keywords: Deformidades Adquiridas da Orelha; Piercing Corporal; Cirurgia Plástica
O lóbulo auricular é um local perfurado com frequência, seja com finalidade estética ou por hábitos culturais. No entanto, a prática traz possíveis complicações, como o lóbulo fendido. Nesse contexto, a lobuloplastia é um procedimento em demanda crescente, tanto por mulheres quanto por homens, insatisfeitos com os defeitos estéticos causados no lóbulo pelo uso de piercings, alargadores ou brincos.1 Existem diferentes abordagens para a correção desses defeitos, que vão da aplicação local de ácido tricloroacético a 90% a procedimentos cirúrgicos, como o fechamento primário de tecido desepitelizado ou o uso de retalhos ou enxertos.2 A escolha da técnica deve ser individualizada, com o objetivo de atingir o melhor resultado estético possível.
A maioria das descrições de técnicas cirúrgicas leva em consideração a existência de fendas ocasionadas por brincos comuns. Em contrapartida, o uso de alargadores se tornou bastante comum, e os defeitos ocasionados pelo seu uso costumam não ser equivalentes aos habituais lóbulos fendidos por brincos. Tais defeitos causam maior desconforto estético quando da desistência do uso do adorno, pois envolvem maior perda tecidual e flacidez, principalmente na porção inferior do lóbulo. Isso torna a correção desafiadora, podendo ocorrer deformidades inestéticas decorrentes do procedimento cirúrgico.3 Na literatura, há poucas descrições de técnicas cirúrgicas voltadas para a correção desses defeitos.
Relatamos aqui o caso de um paciente que apresentava defeito no lóbulo auricular esquerdo, causado por uso prévio de alargador, e corrigido com a técnica de exérese em gota. A técnica foi desenvolvida para este caso e obteve resultado estético satisfatório, com preservação da curvatura inferior. Adicionamos uma breve revisão sobre as técnicas cirúrgicas descritas na literatura para a correção de defeitos no lóbulo de tamanho médio a grande.
O paciente selecionado para o procedimento era do sexo masculino, de 26 anos, com histórico de uso de alargador havia três anos. Ao interromper o uso do alargador, o paciente notou a persistência de um orifício de 6 mm de diâmetro no lóbulo auricular esquerdo, com distorção e alongamento local (Figura 1), sendo então encaminhado para correção cirúrgica do defeito.
Durante o planejamento cirúrgico, observamos que a revitalização do furo com desepitelização clássica com fechamento primário, utilizada em cirurgias convencionais de correção de lóbulo fendido, não seria adequada, visto que o tamanho do orifício correspondia a mais de um terço do tamanho do lóbulo. Além disso, o uso de alargadores leva à flacidez do lóbulo e ao afinamento da porção mais inferior deste, o que pode dificultar a reconstrução com técnicas que envolvem a desepitelização da borda inferior do lóbulo.
Para evitar as complicações descritas anteriormente, foi desenvolvida a técnica de exérese em gota. A desepitelização do defeito é realizada no formato de uma gota d'água, de forma que a porção mais volumosa da gota contempla a área do defeito a ser corrigida, enquanto a "ponta" da gota é estrategicamente posicionada na porção mais lateral do lóbulo e paralelamente à sua porção inferior, com o objetivo de respeitar o formato da curvatura do lóbulo no momento do fechamento (Figura 2). No caso descrito, para que o fechamento ocorresse sem deformidades, uma pequena porção de pele na extremidade da ponta inferior foi excisada para evitar redundâncias no fechamento (Figura 3). A anestesia foi feita com lidocaína sem vasoconstritor, por meio de bloqueio do nervo auricular maior.
Após a exérese da área previamente marcada no planejamento pré-cirúrgico, realizou-se a sutura simples entre as duas bordas, respeitando a anatomia local, com fio de nylon 6.0. A técnica permitiu o fechamento com resultado estético satisfatório, com preservação da curvatura inferior e simetria lobular, e sem perda global de volume do lóbulo quando comparado ao lóbulo antes do procedimento, apesar do tamanho importante do defeito pré-operatório (Figura 3B). Após 3 meses de seguimento, o resultado estético manteve-se estável, sem retração cicatricial ou deformidade secundária.
O objetivo deste artigo é descrever uma nova técnica para a correção de defeitos intermediários de lóbulo, visando um bom resultado estético e a restauração do formato natural do lóbulo auricular, e revisar as técnicas descritas na literatura.
Poucas publicações enfocam a descrição dos lóbulos fendidos, especialmente após o uso de alargadores. Para defeitos pequenos, o fechamento primário precedido ou não da realização de punch, e para defeitos grandes, a excisão com retalhos de avanço e zetaplastias já são classicamente utilizados.4,5,6,7 No entanto, há poucos relatos para os defeitos médios, para os quais dois desafios devem a ser considerados: a deformação da curvatura natural da margem inferior, a qual exigirá cuidado técnico na restauração do contorno do lóbulo; e a maior perda tecidual local, visto que os alargadores possuem essa característica como consequência de seu uso.8
O fechamento primário clássico pode causar distorção, com estreitamento e elongação do lóbulo e, por consequência, um resultado estético insatisfatório. Diferentes técnicas para correção de defeitos médios envolvem retalhos de rotação ou transposição, com preservação da borda inferior, mantendo as dimensões do lóbulo.9 No entanto, para o caso relatado, tais abordagens não seriam esteticamente adequadas devido ao aumento das proporções do lóbulo, além de serem mais complexas e exigirem maior habilidade e treinamento do cirurgião.
A técnica de fechamento em gota dos lóbulos foi desenvolvida com o objetivo de respeitar o formato original do lóbulo, porém de mais fácil realização quando comparada com técnicas como a rotação ou o O-Z do lóbulo, que requerem maior refinamento.4 Além disso, lóbulos que foram submetidos ao uso de alargadores geralmente têm maior flacidez, o que dificulta seu fechamento e, muitas vezes, exige maior retirada de tecido desvitalizado, o que pode impossibilitar a execução de um retalho mais complexo.10-15 A Tabela 1 descreve as principais técnicas cirúrgicas de correção de lóbulo fendido, incluindo suas vantagens e desvantagens, e a Figura 4 mostra a representação de cada técnica cirúrgica.
É crucial que seja mantida a curvatura inferior do lóbulo em cirurgias de lobuloplastia, de modo que o cirurgião deve estar atento e ser cuidadoso no planejamento, principalmente em casos nos quais o defeito cause perda tecidual importante, como no uso de alargadores. Com o presente caso, descrevemos uma técnica cirúrgica tecnicamente simples e ainda não descrita, com resultados promissores na correção de lóbulos fendidos por alargadores.
A correção de defeitos decorrentes do uso de alargadores nos lóbulos é desafiadora, dado o risco de deformidades e a redução do volume global do lóbulo. A correção por exérese em gota permite a preservação do formato do lóbulo sem comprometer significativamente o volume global local, e apresenta baixo nível de dificuldade, o que a viabiliza na rotina do consultório. São necessários estudos comparativos com outras técnicas de modo a encontrar os melhores resultados estéticos e funcionais para defeitos no lóbulo auricular com maiores perdas teciduais.
Giulia Zanata Rossi
ORCID: 0000-0001-8501-2286
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Revisão crítica da literatura.
Vitória Castelo Branco Rocha Ibiapina do Monte
ORCID: 0000-0002-1361-5480
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Revisão crítica da literatura.
Lorena Queiroz Furtado de Mendonça
ORCID: 0009-5377-1945
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Revisão crítica da literatura.
Anna Carolina Miola
ORCID: 0000-0001-8926-734X
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
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