Mariana Sofia Monteiro Silva1; Luiz Fernando Eller Riscaroli1; Eduardo Garbin Rosset2; Ricardo Barbosa Lima1; Luciana Ferreira de Araújo1
Fonte de financiamento: Não
Conflito de interesses: Não
Data de submissão: 10/12/2025
Decisão final: 16/02/2026
Como citar este artigo: Silva MSM, Riscaroli LFE, Rosset EG, Lima RB, Araújo LF, Gomes Neto R. Carcinoma basocelular periocular com invasão orbitária: relato de caso. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(2):e20260542.
O carcinoma basocelular é a neoplasia periocular mais frequente. Embora a mortalidade seja baixa, a invasão orbitária representa uma complicação grave associada a alta morbidade. Relata-se o caso de um paciente do sexo masculino, 49 anos, tabagista, com lesão periocular de evolução agressiva, culminando em amaurose. O tratamento incluiu exenteração orbitária e reconstrução complexa com retalhos locais e regionais, complicada por necrose parcial e exposição óssea, exigindo múltiplos debridamentos. A histopatologia evidenciou padrão esclerodermiforme e diferenciação escamosa. O caso destaca as consequências devastadoras do carcinoma basocelular localmente avançado e a importância do diagnóstico precoce e da abordagem multidisciplinar para evitar deformidades e perda funcional.
Keywords: Carcinoma Basocelular; Exenteração Orbitária; Neoplasias Cutâneas
O carcinoma basocelular (CBC) representa a neoplasia maligna mais comum da região periocular, correspondendo a cerca de 80 a 96% dos tumores nessa localização. Apesar de frequentemente considerado um tumor de comportamento indolente e baixo potencial metastático, o CBC periocular pode apresentar comportamento localmente agressivo. A invasão orbitária é um evento incomum, com incidência estimada entre 0,8 e 5,5% em países desenvolvidos, podendo alcançar taxas alarmantes de até 17% em países em desenvolvimento, muitas vezes devido ao atraso no diagnóstico e no tratamento.1
A evolução clínica pode ser silenciosa, exigindo vigilância constante para sinais de tumores de alto risco. Os principais fatores associados à invasão orbitária incluem: múltiplas recorrências, grandes dimensões tumorais, margens cirúrgicas comprometidas, localização na região cantal (medial ou lateral) e subtipos histológicos agressivos, como os morfeiformes/esclerodermiformes, infiltrativos e basoescamosos. A invasão perineural, embora presente em menos de 1% dos casos, é um marcador de pior prognóstico.2
Embora a taxa de mortalidade associada ao CBC periocular permaneça baixa, a morbidade é alta. A progressão tumoral pode resultar em desfiguramento facial grave e perda da visão, impactando drasticamente a qualidade de vida do paciente.3
O objetivo deste estudo é relatar um caso de CBC periocular com evolução agressiva, resultando em perda visual e necessidade de exenteração, evidenciando as graves repercussões do atraso no atendimento especializado e a importância do tratamento precoce.
Paciente do sexo masculino, 49 anos, tabagista, sem comorbidades, foi encaminhado ao serviço especializado com história de lesão na região periocular com início em 2021. O quadro iniciou-se como uma pequena pápula na pálpebra inferior, progredindo ao longo de dois anos com ulceração, dor intensa e crescimento expansivo, culminando em perda da acuidade visual ipsilateral (Figura 1).
Ao exame dermatológico, observou-se extensa ulceração na região orbitária esquerda, com bordas perláceas e ampla destruição tecidual. O exame oftalmológico evidenciou atrofia do globo ocular e ulceração corneana (Figura 2).
Foi realizada biópsia incisional, que confirmou o diagnóstico de CBC. Exames de imagem demonstraram comprometimento orbitário sem invasão intracraniana. Diante da extensão tumoral e da perda funcional, realizou-se exenteração orbitária com margens livres à congelação (Figura 3).
O exame histopatológico revelou CBC esclerodermiforme com diferenciação escamosa (Figuras 4 e 5). Não houve invasão do nervo óptico.
A reconstrução incluiu retalho médio-frontal associado ao retalho de avanço cérvico-facial (Figura 6). A evolução foi marcada por necrose parcial (Figura 7), exposição óssea orbitária, debridamentos seriados e posterior confecção de retalho do músculo temporal. Optou-se por manejo conservador, com cicatrização por segunda intenção (Figura 8). Após essas intervenções, o paciente evoluiu com perda de seguimento clínico, não sendo possível dar continuidade ao acompanhamento, apesar das tentativas de contato realizadas pela equipe médica.
O caso ilustra o conceito de CBC localmente avançado, uma condição desafiadora na qual a cirurgia convencional ou a radioterapia isoladas podem não ser curativas ou então resultar em deformidades relevantes. As diretrizes do Consenso Europeu de 2023 enfatizam que os CBCs não devem ser subestimados; tumores negligenciados ou recidivados podem invadir tecidos profundos, tornando o tratamento complexo.7
A classificação da Associação Europeia de Dermato-Oncologia (EADO) e as diretrizes da National Comprehensive Cancer Network (NCCN) (versão 2.2024) preconizam uma abordagem multidisciplinar para esses casos. O tratamento de primeira linha para o CBC localmente avançado permanece sendo a cirurgia (com controle estrito de margens) e/ou radioterapia.4
No presente caso, a cirurgia radical (exenteração) foi necessária devido à invasão orbitária e à perda visual já estabelecida. A histopatologia revelou subtipos agressivos (esclerodermiforme e com diferenciação escamosa), que corroboram a evolução rápida e destrutiva observada.5,6 O padrão esclerodermiforme é conhecido por suas margens mal definidas e alta taxa de recidiva, enquanto a diferenciação escamosa (padrão basoescamoso) confere um comportamento biológico mais agressivo, aproximando-se do carcinoma espinocelular.8
Quando a cirurgia e a radioterapia são contraindicadas ou falham, as diretrizes atuais recomendam a terapia sistêmica. Os inibidores da via Hedgehog (como o vismodegibe e sonidegibe) e a imunoterapia com inibidores de checkpoint anti-PD1 (como o cemiplimabe) surgem como opções valiosas.4,7 Para CBCs perioculares localmente avançados e doença metastática orbital, o uso de vismodegibe (150 mg/dia) tem demonstrado eficácia, podendo ser utilizado inclusive como terapia neoadjuvante para reduzir a massa tumoral e, potencialmente, a taxa de exenteração orbitária.5
Em relação ao prognóstico, o CBC periocular com margens cirúrgicas negativas apresenta taxas de recorrência entre 1,5 e 5,6%, variando conforme a localização anatômica. O canto medial é o local mais propenso à recidiva e à invasão profunda, devido aos planos de clivagem embriológica que facilitam a disseminação tumoral.4 A literatura documenta que as taxas de recorrência são significativamente maiores para malignidades periorbitárias em comparação com os CBCs de outras localizações cutâneas.9
Este relato destaca a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento regular de lesões perioculares. O CBC, embora frequentemente curável, pode evoluir para formas localmente avançadas com invasão orbitária, resultando em cegueira e mutilação, incluindo a necessidade de exenteração orbitária. A abordagem multidisciplinar, envolvendo dermatologistas, oftalmologistas, cirurgiões de cabeça e pescoço e cirurgiões plásticos, é fundamental para o manejo adequado, visando à cura oncológica e à minimização das sequelas funcionais e estéticas.
Mariana Sofia Monteiro Silva
ORCID: 0009-0007-9928-7337
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Luiz Fernando Eller Riscaroli
ORCID: 0009-0006-6665-0710
Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados.
Eduardo Garbin Rosset
ORCID: 0009-0002-5743-8743
Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados.
Ricardo Barbosa Lima
ORCID: 0000-0002-4297-3236
Aprovação da versão final do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Luciana Ferreira de Araújo
ORCID: 0000-0001-6323-4961
Obtenção, análise e interpretação dos dados, Revisão crítica do manuscrito.
Ruy Gomes Neto
ORCID: 0009-0006-6676-2173
Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados.
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