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Relato de caso

Frontoplastia e transplante capilar pela técnica FUE em um mesmo tempo cirúrgico

Rafael Reinert1,2; André Felipe Kroenke1,2; Emanoelle Machado1; Marcos Felippe Takano de Saidneuy1,4; Lauren Menna Marcondes1,4,5;Murilo Gamba Beduschi1,3

DOI: https://doi.org/10.5935/scd1984-8773.2026180539

Fonte de financiamento: Não
Conflito de interesses: Não
Data de Submissão: 11/11/2025
Decisão final: 10/03/2026
Como citar este artigo: Reinert R, Kroenke AF, Machado E, Saidneuy MFT, Marcondes LM, Beduschi MG. Frontoplastia e transplante capilar pela técnica FUE em um mesmo tempo cirúrgico. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260539.


Abstract

A alopecia frontal fibrosante (AFF) é uma condição caracterizada por alopecia cicatricial que acomete a linha capilar frontal e ocasiona repercussões estéticas e psicossociais. O presente relato descreve uma paciente de 47 anos, sem comorbidades, com AFF estabilizada. Após 2 anos de tratamento clínico, foi submetida a frontoplastia associada a transplante capilar pela técnica Follicular Unit Extraction (FUE), com implantação de 2.100 unidades foliculares. A associação das técnicas cirúrgicas em um único tempo cirúrgico mostrou-se segura e eficaz e obteve bons resultados estéticos após 15 meses. A estabilização da doença e a atuação multidisciplinar foram fundamentais. A abordagem combinada de tratamento medicamentoso e cirúrgico é viável e potencializa os resultados em casos selecionados.


Keywords: Alopecia; Cabelo; Atrofia; Líquen Plano


INTRODUÇÃO

As técnicas de frontoplastia e transplante capilar emergiram na década de 1990.1,2 Ambos os procedimentos visam a melhoria da qualidade de vida e o restabelecimento da autoestima por meio do tratamento de condições dermatológicas e morfológicas.3

A alopecia frontal fibrosante (AFF) é uma das condições clássicas dentre as alopecias cicatriciais. A patologia exige um tratamento medicamentoso prolongado por causar dano cicatricial progressivo à pele, o que impede a viabilidade dos anexos cutâneos locais.1,3 Concomitantemente ao tratamento medicamentoso, uma abordagem invasiva pode ser uma opção para restabelecer o crescimento pleno de pelos e cabelos em áreas acometidas pela doença.1,3

 

OBJETIVO

Demonstrar a viabilidade da realização de frontoplastia e transplante capilar com a técnica Follicular Unit Extraction (FUE) em único tempo cirúrgico.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo observacional e descritivo, do tipo relato de caso, abordando o tratamento da AFF.

 

Relato de caso

Uma paciente do sexo feminino, 47 anos, sem comorbidades, com histórico de AFF havia 8 anos, foi submetida a tratamento clínico durante 2 anos com sulfato de hidroxicloroquina 400 mg/dia, infiltrações intralesionais de triancinolona e xampu de clobetasol duas vezes por semana, apresentando remissão da atividade da doença.

Após 12 meses de estabilização da doença sob tratamento contínuo, optou-se pela realização de transplante capilar pela técnica FUE, associado à frontoplastia para rebaixamento da linha capilar anterior. A escolha da técnica shave FUE baseou-se no contexto tecnológico vigente à época, quando esta se apresentava como o método mais previsível, seguro e reprodutível para a extração de unidades foliculares, com baixa taxa de transecção, sendo, então, a melhor opção técnica disponível.

O procedimento foi realizado por uma equipe multidisciplinar composta por um dermatologista, um cirurgião plástico e um anestesista, em ambiente de centro cirúrgico e sob anestesia local com sedação. Como forma de gerar maior segurança e conforto para a paciente durante o procedimento, em conjunto, foram instituídas corticoterapia, analgesia e antibioticoterapia intraoperatórias.

Inicialmente, realizou-se o planejamento e a marcação cirúrgica da área doadora para definição do número de unidades foliculares (UFs) a serem extraídas (Figura 1). Foram então removidas 2.188 UFs da região occipital (Figura 2), utilizando dispositivo motorizado Trivellini® com punch de 0,9 mm, diâmetro descrito na literatura como capaz de minimizar o trauma folicular e preservar a integridade dos enxertos. Durante a preparação das unidades, foi realizado um retalho de escalpe em plano subgaleal, com incisões relaxadoras para ganho de amplitude e elasticidade (Figura 3).

Após mensuração do avanço obtido com o descolamento, foi realizada a ressecção de um fuso cutâneo na região frontal, com aproximadamente 4 cm de largura, correspondente ao avanço obtido, e 20 cm de comprimento (Figura 4). Concomitantemente, procedeu-se à biópsia do couro cabeludo para monitoramento da doença de base, cujo exame histopatológico evidenciou infiltrado inflamatório perivascular e perifolicular discreto, seguido de síntese em dois planos (Figura 5).

O posicionamento da nova linha capilar baseou-se nas proporções faciais, na anatomia e dinâmica do músculo frontal e em parâmetros estéticos individualizados, considerando o avanço esperado após a frontoplastia e a exérese do tecido cicatricial. A área receptora foi preparada por pré-incisões com lâmina de 0,8 mm, respeitando a angulação e a direção natural dos fios. A densidade de implantação foi ajustada conforme o tecido receptor, com 50 unidades foliculares/cm² em áreas cicatriciais bem vascularizadas e 40 unidades foliculares/cm² em regiões com fibrose ou atrofia, visando otimizar a sobrevivência dos enxertos.

As unidades foliculares foram implantadas com implanters rombos, técnica que permite maior controle da profundidade, reduz o trauma aos enxertos e minimiza os riscos (Figura 6). O desenho e a orientação dos enxertos seguiram critérios anatômicos e estéticos, respeitando o padrão natural de crescimento capilar frontal feminino, com especial atenção à transição entre a área cicatricial e o couro cabeludo não cicatricial. A Figura 7 documenta o resultado 30 dias após o procedimento. Após o procedimento, a paciente manteve o uso de xampu de clobetasol duas vezes por semana até o retorno com 15 meses de evolução pós-operatória (Figura 8), passando posteriormente a utilizá-lo uma vez por semana. Durante o acompanhamento longitudinal, adotou-se uma abordagem multidisciplinar, incluindo seguimento psicológico.

 

DISCUSSÃO

A AFF foi identificada e descrita por Kossarden em 1994, caracterizando-se como uma alopecia primária cicatricial linfocitária, cursando com destruição irreversível dos folículos pilosos. Clinicamente, o distúrbio envolve a linha capilar frontotemporal, com eritema perifolicular, hiperceratose folicular e cicatrização com recessão da linha capilar, características que auxiliam no diagnóstico clínico.4,5

A ausência de um protocolo definido para a alopecia limita o tratamento, mas estudos mostram que a associação de antimaláricos e corticoterapia intralesional tem resposta positiva em até 60% dos casos, enquanto a corticoterapia oral é ineficaz. Já o uso de inibidores da 5-alfa-redutase, respeitando a dose diária máxima do medicamento, leva à estabilização da doença.6,7

Após a estabilização da alopecia por tratamento medicamentoso por um período mínimo de 12 meses, é possível realizar cirurgia reparadora estética para a melhora da região acometida. Assim, o transplante capilar pode ser realizado de forma isolada na área acometida pela doença cicatricial.8,9

Um estudo multicêntrico com 52 pacientes mostrou que a satisfação dos pacientes foi superior a 80% quando o transplante capilar foi realizado em áreas com doença estabilizada após o tratamento medicamentoso.9 Outro estudo mostrou que a satisfação e a autoestima das mulheres despontaram após a cirurgia de redução da linha capilar frontal.10 Dessa maneira, em conjunto com a equipe e para obter melhor resultado estético, optou-se por realizar a extração do tecido cicatricial por meio de frontoplastia associada ao avanço da linha capilar com o transplante capilar fio a fio.11

A extração das UFs foi realizada por meio da técnica shave FUE, escolhida com o objetivo de minimizar a taxa de transecção, uma vez que a literatura descreve índices de dano inferiores a 4% com essa abordagem.12 O planejamento da densidade capilar foi definido de forma a preservar a naturalidade do resultado, respeitando os padrões estéticos e a média de unidades foliculares recomendadas para a etnia da paciente, sendo adotada densidade final em torno de 40 a 45 UFs/cm².13

O resultado estético final e a fixação real das unidades foliculares podem ser observados após 12 meses do procedimento. Contudo, não é possível descartar a possibilidade de queda das UFs implantadas no procedimento cirúrgico e recidiva de processo inflamatório na região.7,9,10 Por isso, é necessário continuar o tratamento farmacológico e o acompanhamento regular com dermatologista para ajuste e manutenção do tratamento com xampu de clobetasol.14

 

CONCLUSÃO

Este estudo demonstra que o tratamento medicamentoso é crucial para estabilizar e promover a regressão da AFF, permitindo o planejamento adequado para a correção estética da área afetada. O transplante capilar pode ser realizado sobre a área cicatricial, embora não garanta uma fixação completa das UFs. A combinação desse procedimento com a cirurgia de exérese da região afetada resulta em maior sucesso estético e funcional. Este relato de caso contribui para a literatura ao destacar a viabilidade de realizar ambos os procedimentos em um único tempo cirúrgico, promovendo melhores resultados estéticos e elevando a autoestima dos pacientes.

Essa versão do tratamento enfatiza a importância do tratamento medicamentoso inicial, seguido pelo potencial positivo da combinação de transplante capilar com exérese cirúrgica da área fibrosada, gerando benefício estético e psicológico para os pacientes.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:

Rafael Reinert
ORCID:
0009-0002-2357-435X
Aprovação da versão final do manuscrito.
André Felipe Kroenke
ORCID:
0009-0004-7581-9368
Participação efetiva na orientação da pesquisa.
Emanoelle Machado
ORCID:
0009-0008-7433-3517
Revisão crítica da literatura.
Marcos Felippe Takano de Saidneuy
ORCID:
0009-0009-3815-4439
Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito.
Lauren Menna Marcondes
ORCID:
0009-0009-5124-0470
Obtenção, análise e interpretação dos dados.
Murilo Gamba Beduschi
ORCID:
0000-0002-5218-9509
Revisão crítica do manuscrito.

 

REFERÊNCIAS:

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