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Artigo Original

Segurança e eficácia da terapia com luz intensa pulsada combinada com laser

Indira Saraswati Sanjaya1; Kelvin Kohar1; Chastine Harlim1; Lili Legiawati2; Nandita Melati Putri3

DOI: https://doi.org/10.5935/scd1984-8773.2026180513

Fonte de financiamento: Os autores não receberam nenhum apoio financeiro para a pesquisa, a autoria, e/ou publicação deste artigo.

Data de submissão: 01/09/2025
Decisão final: 17/12/2025
Como citar este artigo: Sanjaya IS, Kohar K, Harlim C, Legiawati L, Putri MN. Segurança e eficácia da terapia com luz intensa pulsada combinada com laser fracionado para o tratamento de cicatrizes: uma revisão sistemática. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260513.


Abstract

INTRODUÇÃO: A cicatrização é um processo complexo cuja interrupção pode resultar em cicatrizes patológicas. Os tratamentos convencionais muitas vezes apresentam eficácia limitada e altas taxas de recorrência. A combinação de luz intensa pulsada (LIP) com laser fracionado (FLT) surge como alternativa minimamente invasiva com resultados promissores. Este estudo avaliou a segurança e a eficácia do uso combinado de LIP e FLT no tratamento de cicatrizes patológicas.
MÉTODOS: Esta revisão foi conduzida conforme as diretrizes PRISMA. Realizou-se uma busca sistemática nas bases PubMed, ProQuest, Scopus e Cochrane Library até dezembro de 2025, incluindo estudos com pacientes com cicatrizes patológicas tratados com a terapia combinada LIP + FLT.
RESULTADOS: Cinco estudos preencheram os critérios de inclusão (3 ensaios clínicos randomizados, 1 estudo de coorte retrospectivo e 1 série de casos), totalizando 288 pacientes. Em todos os estudos, a terapia combinada resultou em redução significativa dos escores POSAS, MSS e VSS para cicatrizes hipertróficas e pós-operatórias. Um estudo observou taxas de satisfação significativamente mais altas entre os pacientes tratados com a combinação (p < 0,05). Os efeitos adversos foram mínimos, principalmente eritema leve e transitório.
CONCLUSÃO: A terapia combinada com LIP e FLT melhora a aparência das cicatrizes de forma segura e com baixa taxa de efeitos adversos, configurando uma opção eficaz e minimamente invasiva.


Keywords: Queloide; Cicatriz Hipertrófica; Terapia a Laser; Terapia de Luz Intensa Pulsada


INTRODUÇÃO

Cicatrizes patológicas, particularmente cicatrizes hipertróficas e queloides, resultam de um processo anormal de cicatrização de feridas e são caracterizadas por deposição excessiva de colágeno e atividade persistente de fibroblastos. Essas cicatrizes podem causar dor, prurido, contraturas e desfiguração estética, levando a comprometimento funcional e a um ônus psicossocial grave para os pacientes afetados. Como sua patogênese é multifatorial e crônica, alcançar uma melhora duradoura e satisfatória das cicatrizes permanece um desafio clínico.1–3

Tratamentos convencionais não baseados em laser, incluindo excisão cirúrgica, malhas compressivas, placas de silicone, corticoides intralesionais ou outros agentes farmacológicos, crioterapia e radioterapia, têm demonstrado eficácia variável e muitas vezes limitada.3,4 As taxas de recorrência, especialmente após a excisão de queloides e cicatrizes hipertróficas, permanecem elevadas, e muitas dessas modalidades estão associadas a desconforto, tempo de recuperação prolongado ou efeitos adversos que podem comprometer ainda mais os resultados estéticos. Essas limitações têm impulsionado a busca por abordagens alternativas, minimamente invasivas, capazes de atuar simultaneamente em múltiplos componentes da fisiopatologia das cicatrizes.5,6

As terapias baseadas em laser e luz surgem como opções importantes no manejo de cicatrizes. A terapia a laser fracionado (FLT) fornece energia em um padrão pixelado para gerar zonas microtérmicas na derme, o que promove a remodelação do colágeno, suaviza a textura da cicatriz e melhora a espessura, a flexibilidade e a pigmentação.7,8 A luz intensa pulsada (LIP), uma fonte de luz policromática não coerente, atua por meio da fototermólise seletiva da hemoglobina e da melanina para reduzir o eritema e as discromias ao mesmo tempo em que exerce efeitos modestos na remodelação dérmica.9 Dados os mecanismos complementares dessas duas modalidades (atuação vascular e pigmentar pela LIP e remodelação estrutural profunda pela FLT), sua combinação tem sido proposta como uma estratégia racional para abordar a natureza multifacetada das cicatrizes patológicas. Estudos clínicos iniciais sugerem que a combinação LIP-FLT pode melhorar o aspecto global das cicatrizes e a satisfação do paciente, sem aumento substancial nas taxas de eventos adversos.10,11

Com o interesse crescente no manejo de cicatrizes e no número de estudos sobre o uso combinado de LIP e FLT, torna-se necessária a síntese de evidências de alta qualidade. Assim, conduzimos uma revisão sistemática sobre a segurança e a eficácia da terapia combinada LIP-FLT no manejo de cicatrizes. O objetivo foi fornecer aos clínicos insights sobre uma modalidade terapêutica alternativa para o manejo de cicatrizes.

 

MÉTODOS

Esta revisão sistemática foi conduzida de acordo com as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analyses (PRISMA). O protocolo foi registrado no International Prospective Register of Systematic Reviews (PROSPERO), registro CRD420251012803.

Estratégia de busca e seleção dos estudos

Foi realizada uma busca sistemática em quatro grandes bases de dados científicas e médicas (PubMed, ProQuest, Scopus e Cochrane) para identificar todos os estudos relevantes publicados até dezembro de 2025. Além disso, as listas de referências de todos os artigos elegíveis foram analisadas em busca de estudos adicionais. Os critérios de inclusão foram estudos nos quais os pacientes apresentavam cicatrizes patológicas (queloides ou cicatrizes hipertróficas) e foram tratados com a combinação de FLT e LIP. Os desfechos primários foram avaliados por meio de instrumentos padronizados de avaliação de cicatrizes, como a Patient and Observer Scar Assessment Scale (POSAS), a Manchester Scar Scale (MSS), a Vancouver Scar Scale (VSS) e outros instrumentos validados. Foram excluídos estudos incompletos, sem disponibilidade de texto completo, publicados em idiomas que não o inglês e publicados mais de 15 anos antes do período de busca.

Extração e análise dos dados

A extração de dados foi realizada de acordo com o Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions. Três revisores independentes realizaram a triagem e a extração dos dados utilizando Google Sheets e Microsoft Excel para a organização e análise sistemáticas. As divergências decorrentes do processo de extração foram resolvidas por meio de debate e consenso. Os dados extraídos incluíram as características dos estudos (autores, ano de publicação, nível de evidência, país, duração do estudo, desenho do estudo e período de seguimento) e dos pacientes (tamanho da amostra, distribuição por sexo, faixa etária, fototipo de pele de Fitzpatrick, tipo de cicatriz patológica, sítio anatômico e etiologia). Também foram documentados os detalhes das intervenções, incluindo tipo de laser fracionado, parâmetros da LIP, número de sessões de tratamento, níveis de energia, duração do pulso e quaisquer protocolos terapêuticos adjuvantes. Os desfechos foram mensurados por meio de escalas padronizadas de avaliação de cicatrizes, como POSAS, MSS e VSS. Complicações e eventos adversos relatados tanto por médicos quanto por pacientes também foram registrados. O nível de evidência de cada estudo foi avaliado de acordo com os critérios do Oxford Centre for Evidence-Based Medicine.

Avaliação da qualidade

Os estudos foram avaliados sistematicamente por meio de instrumentos apropriados a cada desenho. Três revisores independentes avaliaram a qualidade dos estudos utilizando a ferramenta Cochrane Risk of Bias 2 (RoB 2) para ensaios clínicos randomizados (ECRs) e a checklist do Joanna Briggs Institute (JBI) para séries de casos e estudos de coorte. As discordâncias foram resolvidas por meio de debate até a obtenção de consenso.

 

RESULTADOS

Resultados da busca

A busca na literatura foi limitada a publicações em língua inglesa e a um período de 15 anos. Os descritores específicos de cada base de dados, juntamente com o número de registros recuperados correspondentes, estão apresentados na Tabela 1. O processo de seleção dos estudos está ilustrado na Figura 1.

Estudos incluídos

A busca inicial identificou 523 registros. Após a remoção de registros duplicados, 496 estudos foram submetidos à triagem por título e resumo. Seis estudos foram avaliados quanto à elegibilidade em texto completo. Dois foram excluídos por ausência de dados relevantes de desfecho e população, resultando em 4 estudos provenientes da busca nas bases de dados para inclusão. Um estudo retrospectivo comparativo adicional elegível foi identificado por busca manual, totalizando 5 estudos incluídos. Os estudos incluídos consistiram em 3 ECRs, 1 estudo de coorte retrospectivo e 1 série de casos. Devido à heterogeneidade nos desenhos dos estudos e nas medidas de desfecho, não foi realizada meta-análise; em vez disso, foi conduzida uma síntese qualitativa.

Participantes

Foi incluído um total de 288 pacientes de todos os estudos, conduzidos nos Estados Unidos, China, Coreia do Sul e Austrália. A idade dos participantes variou de 16 a 65 anos, e os períodos de seguimento variaram de 6 semanas a 12 meses. Os estudos incluíram predominantemente cicatrizes patológicas (cicatrizes hipertróficas e pós-operatórias). Um estudo avaliou feridas faciais pós-traumáticas precoces após sutura estética, com foco na prevenção de cicatrizes hipertróficas. Os fototipos de Fitzpatrick I–IV foram os mais prevalentes, e poucos estudos envolveram indivíduos com pele mais escura (III–IV). As localizações das cicatrizes foram variadas, incluindo face, pescoço, tronco, extremidades e membros. As etiologias incluíram queimaduras (chama, escaldadura, óleo quente, contato, flash burn), procedimentos cirúrgicos e trauma. Uma descrição mais detalhada das características dos participantes se encontra na Tabela 2.

Desfechos: Avaliação das cicatrizes e resultado estético

Os desfechos relacionados às cicatrizes foram avaliados por meio de instrumentos padronizados, como POSAS, MSS e VSS. Em todos os estudos, a terapia combinada com LIP e FLT apresentou desempenho consistentemente superior à monoterapia. No estudo de Dahm et al.,11 uma única aplicação combinada de LIP e laser de CO2 promoveu melhoria significativa nos escores POSAS, com redução média de 1,93 no escore total (p < 0,0001), além de melhorias significativas em cor (–1,97), espessura (–2,10) e rigidez (–2,47), entre outros parâmetros. Daoud et al.12 observaram uma melhoria maior estatisticamente significativa (p < 0,001) na cor (–2,21) e na textura (–1,97) das cicatrizes no grupo de terapia combinada em comparação com o laser de CO2 isolado.

Kim et al.10 relataram que a intervenção precoce com LIP e laser Er:YAG reduziu significativamente os escores POSAS na semana 8 (p = 0,001) e na semana 20 (p = 0,012), em comparação com a monoterapia com Er:YAG. Em um estudo de coorte retrospectivo, Dai et al.13 demonstraram que o tratamento preventivo precoce com LIP combinado com laser fracionado de érbio resultou em escores VSS significativamente menores para cor, espessura, vascularização, flexibilidade e escore total aos 12 meses, em comparação com a terapia convencional (p < 0,05). Por fim, Zhang et al.4 relataram resultados significativamente melhores em cor, prurido, espessura e irregularidade no grupo CO2+LIP (p < 0,01), além de 100% de satisfação do paciente, em comparação com 84% no grupo tratado apenas com LIP. A Tabela 3 apresenta informações adicionais sobre as intervenções e os desfechos.

Desfechos: Efeitos adversos

Os eventos adversos foram, em geral, leves e autolimitados. Os mais comuns foram eritema transitório, edema e desconforto, com resolução em poucos dias. Dahm et al.11 relataram 2 casos de infecção leve que necessitaram de antibioticoterapia oral, enquanto Daoud et al.12 não observaram eventos adversos. Kim et al.10 não relataram complicações, e Zhang et al.4 não encontraram diferença significativa nas taxas de eventos adversos entre os grupos de terapia combinada e monoterapia. Dai et al.13 relataram 3 complicações no grupo combinado: 2 casos de bolhas transitórias e 1 caso de pigmentação temporária, todos resolvidos sem sequelas de longo prazo. De modo geral, a terapia combinada foi bem tolerada e apresentou um perfil de segurança favorável.

Risco de viés

A qualidade dos estudos foi avaliada por meio de instrumentos de avaliação crítica apropriados a cada desenho. Três ECRs foram avaliados utilizando o instrumento Cochrane RoB 2. Todos os ECRs (Daoud et al.,12 Kim et al.10 e Zhang et al.4) apresentaram baixo risco de viés na maioria dos domínios, especialmente nos processos de randomização, condução da intervenção e medição dos desfechos. Entretanto, todos os estudos levantaram preocupações quanto ao relato seletivo, devido à ausência de planos de análise pré-especificados ou de registro dos ensaios, o que pode introduzir viés de reporte (Tabela 4). Ainda assim, as avaliações dos desfechos foram, em sua maioria, cegadas e utilizaram escalas validadas de avaliação de cicatrizes, o que sustenta a confiabilidade dos achados.

A série de casos de Dahm et al.11 foi avaliada utilizando a checklist do JBI e atendeu à maioria dos critérios, incluindo critérios de inclusão claros, medidas de desfecho padronizadas, identificação da condição válida e análise estatística apropriada. No entanto, não ficou claro se os participantes foram ou não incluídos de forma consecutiva, o que pode introduzir viés de seleção (Tabela 5).

O estudo de coorte retrospectivo de Dai et al.13 foi avaliado utilizando a Critical Appraisal Checklist for Cohort Studies do JBI. O risco de viés do estudo foi considerado moderado, principalmente devido à alocação não randomizada, ao relato limitado de fatores de confusão em potencial e à ausência de ajuste multivariado. Por outro lado, a avaliação dos desfechos utilizou escalas padronizadas de cicatrizes, com um período de seguimento adequado de 12 meses (Tabela 6). De modo geral, os estudos incluídos apresentaram qualidade de moderada a alta, sustentando a validade dos achados sintetizados.

 

DISCUSSÃO

A cicatrização de feridas é um processo biológico dinâmico que progride por fases sobrepostas: inflamação, proliferação e remodelação. A cicatrização eficaz envolve sinalização pró- e anti-inflamatória rigorosamente regulada, proliferação de fibroblastos e remodelação da matriz extracelular (MEC). A desregulação em qualquer fase, mas de forma mais crítica na fase de remodelação, pode levar à cicatrização patológica, caracterizada por deposição anormal de colágeno e atividade persistente de fibroblastos.14,15

Cicatrizes hipertróficas e queloides são cicatrizes patológicas caracterizadas por crescimento excessivo de tecido fibrótico, embora apresentem diferenças quanto à extensão e às características histológicas. As cicatrizes hipertróficas permanecem confinadas ao local da lesão inicial e podem regredir espontaneamente, enquanto os queloides se estendem além dos limites da ferida e tendem a ser permanentes e sintomáticos. Globalmente, estima-se que mais de 100 milhões de novas cicatrizes sejam formadas anualmente, sendo aproximadamente 11 milhões delas queloides. Sua etiologia é multifatorial, incluindo inflamação crônica, desregulação da sinalização do fator de crescimento transformador beta (TGF-β), tensão mecânica, hipóxia e predisposição genética.14–16

As estratégias de manejo atuais incluem excisão cirúrgica, injeções intralesionais de corticoides, terapia com silicone, malhas compressivas, crioterapia e terapia a laser. Entretanto, os tratamentos tradicionais muitas vezes resultam em respostas incompletas e apresentam altas taxas de recorrência, particularmente nos queloides, nos quais a recorrência pós-excisão pode chegar a 70%. Essas limitações têm impulsionado a investigação de terapias combinadas que atuem em múltiplas vias envolvidas na formação de cicatrizes.14,17,18 Uma abordagem promissora é o uso da LIP em combinação com a FLT. A LIP atua sobre componentes vasculares e pigmentares por meio da fototermólise seletiva, enquanto a FLT promove remodelação dérmica e estimula a neocolagênese por meio de microlesões térmicas. Esse mecanismo sinérgico está alinhado à natureza multifatorial da formação de cicatrizes patológicas, oferecendo uma abordagem terapêutica mais abrangente, minimamente invasiva e bem tolerada.4,9,19

A LIP é uma tecnologia não laser que emite luz policromática de alta intensidade em uma ampla faixa de comprimentos de onda (normalmente 500–1200 nm). Seu mecanismo de ação se baseia na fototermólise seletiva, na qual determinados cromóforos no organismo, principalmente hemoglobina e melanina, absorvem comprimentos de onda específicos, gerando dano térmico controlado. Nas cicatrizes, a LIP atua seletivamente sobre a hemoglobina para induzir coagulação na neovasculatura, reduzindo a vascularização e o eritema em cicatrizes hipertróficas. Ademais, os efeitos térmicos podem limitar a disponibilidade de oxigênio para fibroblastos hiperproliferativos, reduzindo indiretamente a síntese de colágeno e promovendo a remodelação.9,12

Além dos efeitos vasculares, a LIP influencia as discromias ao atuar sobre a melanina, o que reduz a hiperpigmentação observada com frequência em cicatrizes hipertróficas. A LIP também pode induzir discretamente a remodelação dérmica por meio de dano térmico de baixa intensidade, promovendo a expressão de metaloproteinases da matriz (MMPs) e inibindo o TGF-β1, uma importante citocina profibrótica. Clinicamente, a LIP tem demonstrado reduzir a espessura, o eritema e a rigidez das cicatrizes, com baixo tempo de recuperação e bom perfil de segurança.4,9,12

A FLT, particularmente os lasers fracionados ablativos de CO2, transmite energia em padrão pixelado, criando zonas microtérmicas (MTZs) que penetram a epiderme e a derme. Essa lesão controlada estimula uma resposta de cicatrização exacerbada que inclui a suprarregulação de MMPs (por exemplo, MMP-1 e MMP-9), dissolução de colágeno desorganizado e deposição de colágeno novo e organizado.20,21

A abordagem fracionada permite a reepitelização rápida, preservando o tecido adjacente não tratado e proporcionando melhor equilíbrio entre segurança e eficácia. Do ponto de vista histológico, a FLT reduz a fibrose dérmica; normaliza a arquitetura distorcida da cicatriz hipertrófica, promovendo o seu achatamento; e melhora flexibilidade, vascularização e pigmentação por meio da remodelação da MEC e da modulação do fenótipo dos fibroblastos. A FLT também pode modular citocinas inflamatórias e suprimir a sinalização do TGF-β1, limitando a superprodução de colágeno na patogênese das cicatrizes. Clinicamente, diversos estudos e meta-análises confirmam melhorias importantes nos escores VSS e POSAS pós-FLT, especialmente nos parâmetros de espessura, flexibilidade e pigmentação.19–21

A LIP e a FLT são eficazes como monoterapias, mas sua combinação oferece benefícios sinérgicos ao abordar diferentes aspectos fisiopatológicos da formação de cicatrizes. A LIP atua principalmente sobre a vascularização e a pigmentação, contribuindo para a modulação precoce da resposta inflamatória e para a redução do eritema e da hiperpigmentação. Enquanto isso, a FLT promove a remodelação dérmica profunda, atuando sobre a espessura da cicatriz, a desorganização do colágeno e as irregularidades texturais.4,10,12,19

O uso complementar de LIP e FLT tem demonstrado maior eficácia no manejo de cicatrizes ao atuar sobre múltiplas características patológicas. No estudo de Dahm et al., a terapia combinada com CO2 e LIP melhorou significativamente os parâmetros da cicatriz, incluindo dor, prurido, cor, rigidez e espessura, com melhoria relevante em todos os domínios do POSAS após uma única sessão. É importante destacar que o tratamento foi bem tolerado, sem eventos adversos graves relatados e apenas 2 casos de infecções leves e autolimitadas.11 De forma semelhante, Daoud et al. observaram que a combinação de LIP com laser fracionado de CO2 resultou em melhoria superior na textura e cor da cicatriz em comparação com o laser de CO2 isolado, sem relato de eventos adversos durante o estudo, reforçando a segurança da modalidade combinada.12 Em um ensaio com divisão da ferida (split wound), Kim et al. demonstraram que o tratamento precoce combinado com LIP e laser Er:YAG proporcionou prevenção significativamente melhor de cicatrizes em comparação ao Er:YAG isolado ou ao controle e foi bem tolerado ao longo do seguimento, sem eventos adversos graves.10 Zhang et al. relataram que a combinação de laser fracionado de CO2 com LIP de banda estreita promoveu melhoria significativa do prurido, cor, rigidez e irregularidade em comparação à LIP isolada, com 100% de satisfação do paciente no grupo combinado e sem relatos de complicações graves, indicando um perfil de segurança favorável.4 De forma consistente com esses ensaios de intervenção, Dai et al. demonstraram que o tratamento preventivo precoce com LIP combinada com laser fracionado de érbio resultou em escores VSS significativamente menores para cor, espessura, vascularização, flexibilidade e escore total aos 12 meses, em comparação à terapia convencional isolada, sugerindo que os benefícios da terapia combinada se estendem além de cicatrizes estabelecidas para a prevenção da formação de cicatrizes hipertróficas.13 Coletivamente, esses achados sugerem que a combinação de LIP e lasers fracionados oferece benefícios sinérgicos na melhoria das cicatrizes, ao mesmo tempo em que mantém um perfil de segurança aceitável, configurando uma estratégia terapêutica segura e abrangente para o manejo de cicatrizes patológicas. Essa abordagem multimodal está alinhada com conceitos atuais de algoritmos para manejo de cicatrizes, nos quais tratamentos direcionados a componentes vasculares, como a LIP, são iniciados precocemente, seguidos pela remodelação estrutural com FLT. Essas estratégias integradas permitem planos terapêuticos individualizados e abrangentes, com desfechos estéticos e funcionais superiores.

Pontos fortes e limitações

Esta revisão sistemática apresenta diversos pontos fortes. Em primeiro lugar, ela foi conduzida de acordo com as diretrizes PRISMA e previamente registrada na base PROSPERO, o que reforça o rigor metodológico e a transparência do relato. Os estudos incluídos abrangem múltiplos países e diversos tipos de cicatrizes patológicas, como cicatrizes pós-operatórias e hipertróficas, aumentando a generalização dos resultados. Diversos estudos utilizaram instrumentos padronizados de avaliação dos desfechos, como POSAS, MSS e VSS, permitindo a mensuração da eficácia terapêutica de forma consistente e objetiva. A terapia combinada com LIP e FLT demonstrou redução estatisticamente significativa da proeminência das cicatrizes em todos os estudos em relação à cor, espessura e rigidez, ao mesmo tempo que manteve um perfil de segurança favorável. Eventos adversos leves e autolimitados, como eritema transitório e leve ardor, foram relatados, assim como altos níveis de satisfação do paciente. Além disso, a inclusão de uma coorte preventiva precoce para avaliar a combinação de LIP e laser fracionado em contexto pós-traumático sugere que os benefícios dessa abordagem podem se estender além do tratamento de cicatrizes patológicas estabelecidas, alcançando também a prevenção da formação de cicatrizes hipertróficas, o que amplia sua aplicabilidade clínica ao longo de todo o espectro das cicatrizes.

Apesar desses pontos fortes, algumas limitações devem ser consideradas. Apenas 5 estudos foram incluídos, totalizando 288 pacientes, a maioria com tamanhos amostrais reduzidos e períodos de seguimento curtos (≤6 meses na maioria dos estudos, com apenas um apresentando dados de 12 meses), o que limita a avaliação de desfechos em longo prazo. Observou-se também heterogeneidade nos parâmetros de tratamento, incluindo níveis de energia, número de sessões e tipos de dispositivos, o que limita a reprodutibilidade e a comparabilidade entre os estudos. Foram incluídos 3 ensaios clínicos randomizados, porém nenhum apresentou protocolo previamente registrado ou implementou cegamento plenamente, o que pode constituir uma fonte de viés. Além disso, faltam comparações diretas entre a terapia combinada LIP–FLT e terapias não laser padrão, como corticoides intralesionais, malhas compressivas e placas de silicone. Por fim, nenhum dos estudos incluídos avaliou sistematicamente a relação custo-benefício, a utilização de recursos ou a integração ao fluxo de trabalho, aspectos críticos para a ampla adoção da terapia combinada LIP–FLT. Estudos futuros devem incorporar avaliações econômicas, incluir pacientes com maior diversidade de fototipos e utilizar protocolos terapêuticos e medidas de desfecho padronizados para fortalecer a base de evidências.

 

CONCLUSÕES

A combinação de LIP e FLT representa uma abordagem promissora no manejo de cicatrizes. Ao atuar simultaneamente sobre componentes vasculares e estruturais, essa terapia de dupla modalidade proporciona benefícios em termos de textura, cor e espessura da cicatriz e de satisfação do paciente. As evidências disponíveis sugerem que a terapia combinada apresenta perfil de segurança favorável, com eventos adversos mínimos. Com base nesses achados, a combinação de LIP com FLT pode representar uma opção terapêutica segura, eficaz e minimamente invasiva para o manejo de cicatrizes patológicas. Estudos adicionais, de maior escala e de longo prazo, são necessários para padronizar protocolos de tratamento e confirmar a eficácia clínica.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:

Indira Saraswati Sanjaya
ORCID:
0009-0000-6616-1657
Análise estatística, Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Kelvin Kohar
ORCID:
0000-0002-4789-0747
Análise estatística, Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica do manuscrito.
Chastine Harlim
ORCID:
0009-0007-1979-249X
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Revisão crítica do manuscrito.
Lili Legiawati
ORCID:
0000-0002-5793-2525
Aprovação da versão final do manuscrito. Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica do manuscrito.
Nandita Melati Putri
ORCID:
0000-0003-0839-7877
Aprovação da versão final do manuscrito. Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica do manuscrito.

 

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