Rogerio Nabor Kondo; Amanda Alencar dos Anjos; Karoline Rodrigues Crevelim; Marcos Vinicius Borges Martins
Fonte de financiamento: Nenhum
Conflito de interesses: Nenhum
Data de submissão: 22/03/2025
Decisão final: 05/06/2025
Como citar este artigo: Kondo RN, Anjos AA, Crevelim KR, Martins MVB. Vermelhectomia: relato de dois casos comparando a excisão clássica com a W-plastia. Surg Cosmet Dermatol. 2025;17:e20250454.
A vermelhectomia é um procedimento cirúrgico para a remoção parcial ou total do vermelhão labial, utilizado principalmente no tratamento da queilite actínica. A W-plastia tem sido considerada superior à técnica clássica de excisão elíptica por evitar uma cicatriz linear e, logo, retrações do lábio. No entanto, a excisão elíptica clássica ainda é amplamente utilizada. Este artigo relata dois casos tratados com ambas as técnicas que obtiveram resultados estéticos satisfatórios semelhantes.
Keywords: Ceratose Actínica; Lábio; Cirurgia Bucal
A queilite actínica (QA) é uma lesão pré-maligna resultante da exposição solar crônica que afeta o vermelhão do lábio inferior, caracterizada por eritema, atrofia, hiperceratose e erosões.1 No tratamento, é essencial minimizar o risco de transformação maligna, mas ainda preservar a funcionalidade e a estética local.
As opções terapêuticas não-cirúrgicas da QA incluem o uso tópico de imiquimode, cauterização química com ácido tricloroacético (ATA), terapia fotodinâmica, diclofenaco tópico e laser, com eficácia variável.2
Se o tratamento clínico da QA falha, uma das opções cirúrgicas é a vermelhectomia, que consiste na remoção parcial ou total do vermelhão labial. Na forma clássica do procedimento, a excisão é elíptica ou fusiforme.3 Já na variante em W-plastia, a excisão tem contorno serrilhado.4
Alguns autores consideram a W-plastia melhor do que a técnica clássica por evitar uma cicatriz linear e, logo, retrações do lábio.4 No entanto, a excisão elíptica ou fusiforme clássica ainda é amplamente utilizada por ser de execução mais fácil.3
Este artigo relata dois casos que utilizam as duas técnicas (clássica e W-plastia), com resultados estéticos e funcionais satisfatórios e sem recidiva da QA após 4 anos de seguimento.
Dois pacientes com QA tratados com duas sessões de ATA a 70% não obtiveram melhora, de modo que se optou por realizar uma vermelhectomia. Foram utilizadas as duas técnicas, a clássica e a W-plastia. Os exames anatomopatológicos das biópsias incisionais e, posteriormente, excisionais evidenciaram QA.
Paciente 1: sexo masculino, 69 anos, branco, não tabagista, apresentando placa descamativa, com ceratose grave, eritema e atrofia, acometendo praticamente todo lábio inferior (Figura 1).
Paciente em decúbito dorsal horizontal;
Marcação com caneta cirúrgica em formato fusiforme (Figura 1A);
Antissepsia com polivinil-iodina 10% tópico;
Colocação de campos cirúrgicos;
Anestesia infiltrativa com lidocaína 2% com vasoconstritor;
Incisão com lâmina 15 conforme marcação prévia. Ressecção em bloco da lesão até o nível da musculatura;
Hemostasia;
Sutura com poliglactina 5-0, em pontos simples (Figura 2A);
Limpeza com soro fisiológico.
Paciente 2: sexo masculino, 73 anos, branco, não tabagista, apresentando placa descamativa, com ceratose, eritema, atrofia e áreas ulceradas, acometendo praticamente todo o lábio inferior (Figura 3).
Paciente em decúbito dorsal horizontal;
Marcação com caneta cirúrgica, em formato serrilhado, com “linhas quebradas” (Figura 3A);
Antissepsia com polivinil-iodina 10% tópico;
Colocação de campos cirúrgicos:
e) Anestesia infiltrativa com lidocaína 2% com vasoconstritor;
Incisão com lâmina 15 conforme marcação prévia. Ressecção em bloco da lesão até o nível da musculatura;
Hemostasia;
Sutura com poliglactina 5-0, em pontos simples (Figura 2A);
Limpeza com soro fisiológico.
Os pacientes evoluíram sem intercorrências nos primeiros dias de pós-operatório. Observou-se boa cicatrização, com resultados estéticos satisfatórios no pós-operatório tardio (Figuras 2B e 4C).
A resolução da QA é importante para evitar a transformação maligna, independentemente do método utilizado. Mas quando a vermelhectomia é a técnica cirúrgica escolhida, é fundamental evitar complicações, como retrações, desvios das comissuras, microstomias e hipocromias.1-4
Em 1956, Kwapis e Gibson descreveram a vermelhectomia como a excisão parcial ou total vermelhão labial, com avanço da mucosa e sutura à pele para fechamento do defeito.4 A excisão elíptica ou fusiforme passou a ser considerada o método clássico (Figura 1A). Nela, a cicatriz é linear, o que aumenta o risco de retração.3,4
Em 1989, Vozmediano descreveu a vermelhectomia com W-plastia.4 Nesse método, a excisão tem um formato serrilhado e a cicatriz resultante tem forma de linha quebrada, uma distribuição de forças que diminui a tensão das suturas e, logo, reduz a probabilidade de retração (Figuras 3A e 4B).
Rossoe et al., em 2011, compararam 32 pacientes tratados com os dois métodos de vermelhectomia (clássica vs. W-plastia, 15 e 17 pacientes, respectivamente). Nesse estudo, a W-plastia proporcionou resultados estéticos melhores.4
A vantagem da técnica clássica é a simplicidade de execução. O fechamento primário simples reduz o tempo do procedimento. Já a W-plastia envolve o encaixe da saliência pontiaguda na reentrância, o que exige mais ajustes e estende o tempo cirúrgico (Figura 5).3,4
Os resultados das técnicas podem estar relacionados a diversos fatores, como idade, comorbidades, tabagismo, cuidados pós-operatórios e experiência do cirurgião. É importante que o cirurgião dermatológico domine ambas as técnicas para que possa aplicá-las conforme as necessidades dos casos individuais.4
Nos dois casos apresentados neste relato, após 4 anos de pós-operatório, observou-se resultados semelhantes, sem retrações, discromias, desvios das comissuras rimas ou microstomias.
As duas técnicas de vermelhectomia, a clássica e a W-plastia, podem proporcionar resultados estéticos e funcionais semelhantes no tratamento da QA.
Rogerio Nabor Kondo
ORCID: 0000-0003-1848-3314
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Amanda Alencar dos Anjos
ORCID: 0000-0002-5819-7315
Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Karoline Rodrigues Crevelim
ORCID: 0009-0006-6141-2633
Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Marcos Vinicius Borges Martins
ORCID: 0009-0003-2433-5083
Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
1. Baltazar IL, Ferreira FR, Nascimento LFC, Mandelbaum SH. Tratamento da queilite actínica com terapia fotodinâmica com a luz do dia - avaliação clínica e histopatológica. Surg Cosmet Dermatol. 2019;11(4):295-8.
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