Nivin Mazen Said1; Denise Lima Sousa1; Airton Kenji Motizuki2; Emanuella Rosyane Duarte Cerqueira1; Franklin Sousa Rocha1
Fonte de financiamento: Nenhuma
Conflito de interesses: Nenhum
Data de submissão: 04/03/2025
Decisão final: 26/08/2025
Como citar este artigo:
Said NM, Sousa DL, Motizuki AK, Cerqueira ERD, Rocha FS. Lipoenxertia em paciente com síndrome de Parry-Romberg: do diagnóstico ao tratamento. Surg Cosmet Dermatol. 2025;17:e20250447.
A síndrome de Parry-Romberg é uma condição rara, caracterizada por atrofia progressiva unilateral da face, envolvendo pele, músculos, gordura e ossos. O tratamento visa restaurar a simetria facial, sendo a lipoenxertia autóloga uma opção eficaz. Relata-se o caso de uma mulher de 25 anos submetida a três sessões de lipoenxertia pela técnica de Coleman, utilizando enxerto autólogo de gordura abdominal. O procedimento melhorou a estética facial e a qualidade de vida, com alta satisfação do paciente. Apesar de ter ocorrido reabsorção parcial e imprevisível da gordura durante o seguimento, essa técnica continua a ser uma alternativa viável para a correção das deformidades faciais.
Keywords: Transplante autólogo; Hemiatrofia facial; Gordura abdominal
A síndrome de Parry-Romberg, também conhecida como Atrofia Hemifacial Progressiva, é uma condição dermatológica rara que cursa com atrofia progressiva e assimétrica da pele e tecidos subjacentes de um lado da face.1,2 Descrita pela primeira vez por Parry, em 1825, e posteriormente detalhada por Romberg, em 1846, a síndrome acomete principalmente crianças e adolescentes, sem predominância em relação ao sexo. Em geral, inicia na primeira ou segunda década de vida, evolui por um período de 2 a 20 anos e então se torna inativa.2,3
É caracterizada por uma atrofia craniofacial que pode afetar parte ou todas as estruturas da face, desde pele, músculo, gordura, tecido ósseo, nervo trigêmeo e até o parênquima cerebral. Muitas vezes, essas alterações resultam em assimetrias tridimensionais associadas com graves complicações funcionais e psicológicas.2
Em geral, o tratamento oferecido para a síndrome visa melhorar o aspecto estético. Existem diversas abordagens para correção dos defeitos da face, como enxertos de gordura autóloga, cirurgia ortognática, retalho local e implante de silicone sólido ou líquido. No Brasil, não há indicação nem autorização para o uso de implantes de silicone para essa síndrome, dada a disponibilidade de tratamentos mais eficazes, como a lipoenxertia.1,3 Além disso, há relatos na literatura sobre a eficácia limitada da utilização de preenchimentos heterólogos em pacientes com síndrome de Parry-Romberg devido ao maior risco de eventos adversos vasculares, infecciosos e inflamatórios. Seu uso é indicado apenas nos casos em que enxertos de gordura autóloga produzem resultados insatisfatórios e de curta duração.4 O tecido adiposo é o mais utilizado por ser totalmente biocompatível, estar presente em abundância no organismo, ter afinidade com os tecidos circunvizinhos e restaurar as estruturas faciais deformadas, devolvendo a aparência tridimensional.1
Este relato de caso descreve a utilização da técnica de lipoenxertia no tratamento de uma mulher de 25 anos diagnosticada com síndrome de Parry-Romberg. O relato é fundamentado em uma revisão de literatura nas bases de dados PubMed e Scientific Electronic Library Online (SciELO). Além disso, o estudo seguiu as orientações do checklist CARE para relatos e séries de casos.
O caso se baseou no prontuário médico e exames complementares que auxiliaram o seguimento clínico e terapêutico da paciente. A coleta de dados ocorreu em fevereiro de 2025, seguindo todos os preceitos éticos, e foi realizada após a obtenção do consentimento informado da paciente.
A paciente do gênero feminino, 25 anos, natural de Marabá (PA) e procedente de Belém, em acompanhamento no ambulatório de dermatologia desde setembro de 2018 devido ao diagnóstico de síndrome de Parry-Romberg, com atrofia de hemiface direita, apresentava queixa frequente de cefaleia e sensação de “afundamento” na região parietal direita.
Ao exame dermatológico, apresentava placa atrófica hipocrômica com áreas de depressão óssea na região parietal direita, atrofia da região mandibular e do mento à direita e placa acastanhada esclerótica na região cervical direita.
Uma ressonância nuclear magnética (RNM) de crânio em junho de 2021 revelou os seguintes achados: afilamento e irregularidade na pele e do tecido subcutâneo frontotemporal direito, com aparente afilamento da calota craniana na região frontal; parênquima cerebral dentro da normalidade, assim como sulcos e fissuras cerebrais e demais estruturas internas; fluxo normal nas grandes artérias do sistema vertebro-basilar e carotídeos e linha média centrada.
Em setembro de 2021, a paciente apresentava atividade da doença, de modo que foi iniciado o uso de metotrexato 10 mg/semana e ácido fólico 5 mg/semana, além de acompanhamento com oftalmologista, neurologista e odontologista. Evoluiu com estabilidade e inatividade do quadro em novembro de 2021 e melhora da cefaleia, quando foi encaminhada ao cirurgião plástico para avaliação de tratamento cirúrgico.
A paciente foi submetida à lipoenxertia pela técnica de Coleman, com coleta de gordura abdominal sob anestesia geral. Para o procedimento cirúrgico, utilizou-se uma cânula de 2-3 mm de diâmetro conectada a uma seringa de 10 mL com sucção manual (pressão negativa) para obter 30 mL de tecido adiposo do abdômen. O material biológico foi preparado por decantação da gordura e lavagem para a retirada de sangue e outros componentes. Após a preparação adequada do material a ser enxertado, a gordura foi transferida para seringas de 1 mL e injetada nas regiões faciais afetadas. Todo o material coletado foi aproveitado no preenchimento. Foram realizadas três intervenções cirúrgicas, com intervalo de aproximadamente um ano entre elas, sendo a mesma técnica empregada em todos os procedimentos e com a injeção de 30 mL de gordura por sessão (Figura 1).
O resultado cirúrgico foi avaliado pela comparação entre fotografias pré-operatórias e imagens registradas cinco meses após a terceira intervenção cirúrgica, além da autoavaliação da própria paciente, que relata satisfação com o resultado obtido (Figura 2).
A síndrome de Parry-Romberg tem etiologia desconhecida, embora se acredite que fatores genéticos, autoimunes e ambientais possam contribuir para o seu desenvolvimento. A gravidade da afecção é classificada de acordo com a extensão da atrofia na pele, tecido subcutâneo, tecido ósseo e acometimento dos ramos do nervo trigêmeo.3,2
Como a condição se manifesta com deformidades craniofaciais tridimensionais, a restauração completa da simetria facial muitas vezes é difícil.2 Em geral, o tratamento tem como objetivo melhorar a função e a estética facial.3 Nesse caso, uma vez observada inatividade clínica da doença, os tratamentos cirúrgicos reconstrutivos devem ser considerados.2
Há preferência por enxertos autólogos para a reposição do tecido perdido em função da atrofia devido ao menor risco de rejeição tecidual e, portanto, menor reação inflamatória local e sistêmica que possibilitaria a perda do enxerto. Em função do tecido gorduroso ser modelável, ter boa disponibilidade e ser de fácil acesso, a lipoenxertia é a técnica mais utilizada.1
A lipoenxertia estruturada na síndrome de Parry-Romberg cria um método simples, reprodutível e com resultados satisfatórios que contribuem para o sucesso do tratamento, com baixa morbidade e a possibilidade de novas intervenções para correções adicionais.5 Coleman6,7 e outros autores8,9,10 postulam que o transplante de gordura estrutural apresenta benefícios e desvantagens para a correção de defeitos de tecidos moles, como baixas taxas de sobrevivência do enxerto devido à reabsorção precoce, provavelmente devido à falta de um leito bem vascularizado. Além disso, foram propostos diversos métodos para aumentar a sobrevivência dos enxertos de gordura, mas não há protocolos de tratamento definitivos para a prática clínica, sendo necessário a manutenção a longo prazo dos enxertos devido à reabsorção imprevisível da gordura pelo organismo.9
Robby et al. descreveram sistematicamente a predominância do uso da técnica de Coleman na lipoenxertia e que o local doador mais frequente nos procedimentos cirúrgicos para a síndrome de Parry-Romberg é o abdômen. Os autores postulam que essa técnica, associada à escolha do abdômen como local doador, oferece uma abordagem minimamente invasiva capaz de alcançar resultados estéticos com menor risco e complicações reduzidas, além de oferecer mais vantagens ao paciente em comparação com a técnica de retalhos.11
Além disso, foi documentado que a principal complicação desse procedimento é a reabsorção precoce da gordura. Os benefícios estéticos incluem a melhora da qualidade da pele e a obtenção de contornos e expressões faciais mais naturais, o que corrobora os resultados pós-operatórios descritos neste relato de caso e a elevada satisfação da paciente.11
Nivin Mazen Said
ORCID: 0000-0002-0611-5672
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Denise Lima Sousa
ORCID: 0009-0004-8632-8230
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Airton Kenji Motizuki
ORCID: 0009-0002-7188-0984
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Emanuella Rosyane Duarte Cerqueira
ORCID: 0009-0004-9545-8125
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Franklin Sousa Rocha
ORCID: 0000-0002-7386-1616
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Conclui-se que o preenchimento de gordura autóloga pode atenuar prejuízos graves à anatomia de pacientes acometidos pela síndrome de Parry-Romberg, além de apresentar alto grau de eficácia e de satisfação estética, mensurados pela autoavaliação da paciente.
1. Alencar JCG, Andrade SHC, Pessoa SGP, Dias IS. Lipoenxertia autóloga no tratamento da atrofia hemifacial progressiva (síndrome de Parry-Romberg): relato de caso e revisão da literatura. An Bras Dermatol. 2011;86(4 suppl 1):85-8.
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