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Relato de caso

Tumor de células gigantes tenossinovial localizado no dedo indicador esquerdo – relato de caso

Sunil Kumar Gupta

DOI: https://doi.org/10.5935/scd1984-8773.2025170440

Fonte de financiamento: Nenhuma
Conflito de interesse: Nenhum
Data de submissão: 15/02/2025
Decisão final: 04/05/2025
Como citar este artigo: Gupta SK. Tumor de células gigantes tenossinovial localizado no dedo indicador esquerdo – relato de caso. Surg Cosmet Dermatol. 2025;17:e20250440.


Abstract

Tumores de células gigantes tenossinoviais (TCGTs) são neoplasias raras e benignas das bainhas tendíneas que normalmente acometem as mãos. Neste relato de caso, uma paciente de 52 anos apresentava uma massa indolor e de crescimento progressivo no dedo indicador esquerdo. O exame histopatológico revelou uma lesão nodular com histiócitos espumosos, células gigantes multinucleadas e linfócitos. A excisão cirúrgica resultou em recuperação completa, sem recorrência. Este caso enfatiza a importância de considerar os TCGTs no diagnóstico diferencial de massas digitais e destaca a excisão cirúrgica como um tratamento eficaz.


Keywords: Neoplasias de Tecidos Moles; Tumores de Células Gigantes; Mãos; Procedimentos Cirúrgicos


INTRODUÇÃO

Os tumores de células gigantes tenossinoviais (TCGTs) são neoplasias raras, localmente agressivas, porém tipicamente benignas, que acometem articulações, bursas e bainhas tendíneas.1,2 Os TCGTs podem afetar indivíduos de todas as faixas etárias, mas são mais comuns em indivíduos mais jovens e do sexo feminino. Apresentam-se principalmente com dor, edema e rigidez. De acordo com a reclassificação da Organização Mundial da Saúde de 2013, o termo “TCGT localizado” inclui o tumor de células gigantes da bainha tendínea e a tenossinovite nodular, enquanto o “TCGT difuso” engloba o tumor de células gigantes de tipo difuso e a sinovite vilonodular pigmentada.1,2

 

RELATO DE CASO

Uma mulher de 52 anos apresentou-se ao ambulatório de Dermatologia com desconforto no dedo indicador esquerdo e uma massa de crescimento progressivo havia 3 anos. Ao exame físico, observou-se um nódulo doloroso de 2 × 2 cm na face volar do dedo indicador esquerdo, envolvendo a falange distal (Figura 1). O nódulo apresentava limites pouco definidos em relação aos tecidos adjacentes e não estava associado com parestesia. Havia leve restrição de movimento da articulação interfalângica distal. A paciente não tinha histórico de tabagismo ou etilismo. O histórico familiar também não era relevante. Radiografias evidenciaram uma massa de tecidos moles sem erosão óssea (Figura 2).

Após conversar com a paciente sobre as opções terapêuticas, indicou-se a excisão cirúrgica. Foi realizada uma incisão linear sobre a massa sob infiltração de lidocaína a 2%. O tumor foi claramente exposto na face volar do dedo indicador esquerdo até a falange distal e completamente excisado (Figura 3). O fechamento primário da ferida operatória foi realizado. O exame histopatológico do tumor excisado revelou uma lesão nodular composta por uma mistura de histiócitos espumosos, células mononucleares ovoides, células gigantes multinucleadas e linfócitos em um estroma fibrótico. Numerosos vasos de calibres variados estavam presentes. Observou-se deposição dispersa de hemossiderina. A atividade mitótica era evidente (Figura 4).

O seguimento pós-operatório foi realizado um mês após o procedimento. A paciente teve recuperação completa, sem restrição de movimento ou edema considerável (Figura 5). A flexão da articulação interfalângica distal do dedo indicador esquerdo estava normal. Nenhum sinal clínico ou radiológico de recidiva foi observado no seguimento 3 meses após a excisão.

 

DISCUSSÃO

Os TCGTs são o segundo tumor de tecidos moles mais comum da mão, depois dos cistos gangliônicos, com incidência de 1,8 por milhão de indivíduos ao ano e prevalência de 8% a 19% nas articulações da mão.3 Os TCGTs acometem principalmente indivíduos entre 30 e 50 anos e são mais frequentes em mulheres (M:F = 1:1,5).1,4

A classificação da OMS divide os TCGTs em TCGT localizado (TCGT-l) e TCGT difuso (TCGT-d). O TCGT-l é caracterizado como uma lesão nodular bem delimitada, que acomete mais frequentemente as pequenas articulações. Os TCGTs-d apresentam um padrão infiltrativo e agressivo, associado a uma alta taxa de recidiva e destruição articular.4

Os TCGTs são causados por uma translocação do gene CSF1 no cromossomo 1p13, levando à superexpressão do fator estimulador de colônias 1 (CSF1), o que promove proliferação neoplásica e recrutamento de monócitos inflamatórios por meio da ativação do receptor CSF1R.5 Esse processo resulta no acúmulo de células semelhantes a histiócitos, células gigantes, macrófagos carregados de hemossiderina e fibrose sinovial.5 Estudos genômicos identificaram mutações adicionais que contribuem para a patogênese dos TCGTs, incluindo o gene de fusão CSF1-COL6A3, implicado na progressão tumoral, e alterações em STAT6, que podem modular o crescimento tumoral e a evasão imune.6,7

A ressonância magnética (RM) continua a ser o padrão-ouro para o diagnóstico de TCGT. O TCGT-l se apresenta como uma massa bem definida e lobulada, enquanto o TCGT-d manifesta crescimento infiltrativo e difuso com deposição de hemossiderina, resultando em artefatos de “blooming” nas sequências com eco de gradiente.8 Técnicas de imagem emergentes para diagnóstico e acompanhamento dos TCGTs incluem a ressonância magnética de difusão (DWI-MRI), que avalia a celularidade tumoral e a resposta a terapias sistêmicas, e o PET-CT com 18F-FDG, capaz de diferenciar doença ativa de fibrose em casos recorrentes de TCGT.

Histologicamente, os TCGTs são compostos por células mononucleares semelhantes a histiócitos que expressam CSF1, CD163 e CD68; células gigantes multinucleadas; macrófagos carregados com hemossiderina; e macrófagos espumosos, além de infiltrado inflamatório crônico.2,3 Alta atividade mitótica e necrose focal são observadas em casos agressivos ou recorrentes.

Avanços recentes em pesquisas de biomarcadores sugerem que os níveis plasmáticos de CSF1 solúvel podem atuar como marcadores diagnósticos e prognósticos, correlacionando-se com a carga tumoral e com a resposta a inibidores de CSF1R.9

A excisão cirúrgica continua a ser o tratamento de primeira linha para TCGT-l, com taxa de recidiva de 9%, enquanto o TCGT-d apresenta recorrência de até 23% devido à ressecção incompleta e ao crescimento infiltrativo.10

Estudos recentes apoiam a sinovectomia artroscópica para TCGT-l intra-articular, pois o procedimento reduz o risco de recorrência. A ressecção aberta para TCGT-d com frequência requer múltiplas intervenções.

Diante da alta taxa de recorrência e da morbidade cirúrgica associada ao TCGT-d, avanços terapêuticos recentes têm se concentrado no bloqueio da via CSF1/CSF1R. O pexidartinibe (PLX3397), um inibidor de tirosina-quinase (ITQ) que inibe seletivamente o CSF1R, foi aprovado pela FDA em 2019 para TCGT irressecável.11 O emactuzumabe, um anticorpo monoclonal anti-CSF1R, demonstrou resultados promissores e menos efeitos adversos hepáticos em comparação com o pexidartinibe.10 O vimseltinibe, um inibidor de CSF1R de nova geração atualmente em ensaios clínicos de Fase 2, apresentou maior eficácia e um perfil de segurança mais favorável.12

 

CONCLUSÃO

Este caso reforça a importância do diagnóstico precoce e da excisão cirúrgica completa nos TCGTs-l, ao mesmo tempo em que reconhece os desafios terapêuticos relacionados aos TCGTs-d devido à sua natureza infiltrativa e às altas taxas de recorrência. O surgimento de inibidores de CSF1R, imunoterapia de bloqueio de checkpoint e terapia gênica oferece novas esperanças para o manejo de TCGTs avançados, evidenciando a necessidade de uma abordagem multidisciplinar que integre cirurgia, tratamentos direcionados e estratégias personalizadas.

 

CONTRIBUIÇÃO DO AUTOR:

Sunil Kumar Gupta
ORCID:
0000-0001-9033-4394
Análise estatística; Aprovação da versão final do manuscrito; Concepção e planejamento do estudo; Elaboração e redação do manuscrito; Obtenção, análise e interpretação dos dados; Participação efetiva na orientação da pesquisa; Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; Revisão crítica da literatura; Revisão crítica do manuscrito.

 

REFERÊNCIAS:

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3. Mastboom MJL, Verspoor FGM, Verschoor AJ, Uittenbogaard D, Nemeth B, Mastboom WJB, et al. Higher incidence rates than previously known in tenosynovial giant cell tumors. Acta Orthop. 2017;88(6):688-94.

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6. Tap WD, Gelderblom H, Palmerini E, Desai J, Bauer S, Blay JY, et al. Pexidartinib versus placebo for advanced tenosynovial giant cell tumour (ENLIVEN): a randomised phase 3 trial. The Lancet. 2019;394(10197):478-87.

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