Sociedade Brasileira de Dermatolodia Surgical & Cosmetic Dermatology

GO TO

ISSN-e 1984-8773

Volume 11 Número 1


Voltar ao sumário

 

Cartas http://www.doi.org/10.5935/scd1984-8773.20191111258

O lado negro dos clareadores cutâneos

The dark side of skin lightening


Daniela Alves Pereira Antelo

Faculdade de Medicina, Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Data de recebimento: 22/09/2018

Data de aprovação: 22/12/2018


Suporte Financeiro: Nenhum

Conflito de interesse: Nenhum

Correspondência:

Rua Visconde de Pirajá, 547 sala 901 Ipanema

22410-000, Rio de Janeiro, RJ Brasil

Email: daniela@danielaantelo.com.br

 

Resumo

Esta carta traz uma reflexão surgida a partir da palestra da professora Fatimata Ly, da University Cheikh Diop de Dakar (África), no último Congresso da Academia Europeia de Dermatologia, em Paris. A professora F. Ly proferiu a palestra Depigmentation: when, where and how. O tom de pele uniforme é um dos critérios de beleza. Esta carta não diz respeito aos pacientes que chegam ao consultório médico e que são cuidadosamente acompanhados e monitorados por dermatologistas criteriosos. Ela quer chamar a atenção para os indivíduos que não chegam aos consultórios, que repetem prescrições de conhecidos ou que mantêm por tempo indefinido uma prescrição realizada por dermatologista numa consulta pontual. Recentemente, participei, de forma anônima, de fóruns de “discussão” na internet de pessoas leigas sobre melasma. A intensidade e a velocidade do compartilhamento em relação àquilo que eles aconselham são expressivas. A criatividade é enorme ao sugerirem usar produtos que podem causar algum dano. Entre os clareadores mais utilizados estão esteroides, hidroquinona, mercúrio e ácidos. Há que se realizar uma campanha de conscientização da população em relação aos perigos de se utilizarem despigmentantes cutâneos sem indicação precisa do médico dermatologista.

Palavras-chave: Hidroquinonas; Higiene da Pele; Hiperpigmentação; Melanose; Pigmentação da Pele

Escrevo à Equipe Editorial deste periódico para compartilhar uma reflexão surgida a partir da palestra apresentada pela professora Fatimata Ly, da Faculdade de Medicina University Cheikh Diop de Dakar (África), no último Congresso da Academia Europeia de Dermatologia, em Paris, no mês de setembro de 2018. A professora F. Ly proferiu a palestra Depigmentation: when, where and how.

Nós, como dermatologistas, prescrevemos com frequência o uso de despigmentantes para uniformizar o tom da pele, seja no tratamento do envelhecimento, seja no tratamento das mais variadas hipercromias causadas por melasma, hiperpigmentação pós-inflamatória etc. É inegável a importância desta categoria de agente em nosso arsenal terapêutico. O tom de pele uniforme é um dos critérios de beleza. Por outro lado, é esperado que o mercado dos cremes com ação clareadora movimente bilhões pelo mundo (em 2015, foram $10 bilhões de dólares havendo um interesse econômico da indústria bem evidente e que vai ao encontro da demanda pelo ideal de beleza da pele mais clara. Este mercado tem alta expectativa de crescimento até 2027, especialmente na região da Ásia. Uma meta-análise que reviu 68 estudos (67.655 participantes) mostrou uma prevalência de 27,7% de uso de clareadores cutâneos.1

Esta carta não diz respeito aos pacientes que chegam ao consultório médico e que são cuidadosamente acompanhados e monitorados por dermatologistas criteriosos. Ela quer chamar a atenção para os indivíduos que não chegam aos consultórios, que repetem prescrições de conhecidos ou que mantêm, por tempo indefinido, uma prescrição realizada por dermatologista em uma consulta pontual. A aplicação de glutationa intravenosa é uma realidade em alguns países do globo. A glutationa é um antioxidante encontrado naturalmente nas células humanas, que tem a capacidade de despigmentar a pele. Cada infusão de glutationa custa em torno de $150 a $400 de dólares. As clínicas de infusão, que é realizada uma ou duas vezes/semana (recomendam-se de 10 a 30 sessões), multiplicam-se na Ásia e na África. Na Ásia, a Philipinne food and drug agency condenou o uso da glutationa IV.

Recentemente, participei, de forma anônima, de fóruns de “discussão” na internet com milhares de pessoas leigas portadoras de melasma. A intensidade e a velocidade do compartilhamento daquilo que eles aconselham são diretamente proporcionais ao impacto negativo na qualidade de vida causada pelas discromias. A criatividade é enorme ao sugerirem produtos que podem causar algum dano.

Entre os clareadores mais utilizados por pessoas sem acesso ao médico estão esteroides, hidroquinona, mercúrio e ácidos. Um estudo mostrou que despigmentantes no mercado cosmético ilegal europeu continham hidroquinona e corticoides.2

O mercúrio, por sua vez, é encontrado em alguns sabonetes e cremes cosméticos. Ele é descartado por meio do enxágue na água, sendo tóxico aos peixes. Há descrição de ingestão de peixes contaminados por gestantes, causando déficit neurológico no feto.3,4,5

Embora seja rara, alguns estudos sugerem a ocorrência de carcinoma espinocelular na pele que sofreu despigmentação.

Dermatoses faciais podem ocorrer com o uso de despigmentantes: eczema de contato e reações de hipersensibilidade. Estes achados foram observados num estudo multicêntrico realizado em Dakar, Senegal, entre março e setembro de 2018, e que foi apresentado no Congresso da EADV 2018 pela Prof. Ly (dados não publicados). O surgimento de acne devido ao uso de corticosteroides também está descrito, além da ocronose exógena, causada pela hidroquinona, já conhecida por todos.

Há que se realizar uma campanha de conscientização da população em relação aos perigos de se utilizarem despigmentantes cutâneos sem indicação precisa do médico dermatologista, que possui todo o respaldo científico e legal para prescrever o despigmentante mais adequado e sua duração de uso, de acordo com cada caso.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:

Daniela Alves Pereira Antelo | ORCID 0000-0001-8203-1772
Concepção, revisão de literatura e redação do artigo.

 

REFERÊNCIAS

1. Sagoe D, Pallesen S, Dlova NC, Lartey M, Ezzedine K, Dadzie O. The global prevalence and correlates of skin bleaching: a meta-analysis and meta-regression analysis. Int J Dermatol. 2019;58(1):24-44.

2. Desmedt B, Courselle P, De Beer JO, Rogiers V, Grosber M, Deconinck E, et al. Overview of skin whitening agents with an insight into the illegal cosmetic market in Europe. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2016;30(6):943-50.

3. Ori MR, Larsen JB, Shirazi FM. Mercury Poisoning in a Toddler from Home Contamination due to Skin-Lightening Cream. J Pediatr. 2018;196:314-317.

4. Mohammed T, Mohammed E, Bascombe S. The evaluation of total mercury and arsenic in skin bleaching creams commonly used in Trinidad and Tobago and their potential risk to the people of the Caribbean. J Public Health Res. 2017;6(3):1097.

5. Ho YB, Abdullah NH, Hamsan H, Tan ESS. Mercury contamination in facial skin lightening creams and its health risks to user. Regul Toxicol Pharmacol. 2017;88:72-76.


Facebook Twitter Linkedin

© 2019 Sociedade Brasileira de Dermatologia - Todos os direitos reservados

GN1 - Sistemas e Publicações