Sociedade Brasileira de Dermatolodia Surgical & Cosmetic Dermatology

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ISSN-e 1984-8773

Volume 5 Número 1


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Relatos de casos

Tratamento dos grânulos de Fordyce com laser de CO2 - Relato de dois casos

Treatment of Fordyce granules with a CO2 laser: report of two cases


Márcia Almeida Galvão Teixeira1, Silvana Maria de Morais Cavalcanti1, Angela Rapela de Medeiros1, Emmanuel Rodrigues de França1

Doutora em medicina tropical; professora
adjunta de dermatologia do Hospital
Universitário Oswaldo Cruz da
Universidade de Pernambuco (UPE) –
Recife (PE), Brasil.1, Doutora em medicina tropical; professora
adjunta de dermatologia do Hospital
Universitário Oswaldo Cruz da
Universidade de Pernambuco (UPE) –
Recife (PE), Brasil.1, Doutora em medicina clínica; professora
adjunta de dermatologia do Hospital
Universitário Oswaldo Cruz da
Universidade de Pernambuco (UPE) –
Recife (PE), Brasil.3, Doutor e livre-docente em dermatologia;
chefe do Serviço de Dermatologia do
Hospital Universitário Oswaldo Cruz da
Universidade de Pernambuco (UPE) –
Recife (PE), Brasil.4

Data de recebimento: 27/06/2012
Data de aprovação em: 05/03/2013
Trabalho realizado na Universidade de
Pernambuco (UPE) – Recife (PE), Brasil.
Suporte Financeiro: Nenhum
Conflito de Interesses: Nenhum

Correspondência:
Correspondência para:
Dra. Márcia Almeida Galvão Teixeira
Rua Dr. Vicente Meira 171/ sala 101 - Graças
52020-130 – Recife – PE
E-mail: marciateixeira@folha.rec.br

 

Resumo

Os grânulos de Fordyce são referidos como glândulas sebáceas ectópicas benignas caracterizadas por múltiplas pápulas amareladas, principalmente em lábio superior e observadas na maioria dos casos em homens adultos. Descrevem-se dois casos de pacientes com grânulos de Fordyce que foram submetidos ao tratamento com laser de CO2 obtendo bom resultado cosmético.

Palavras-chave: MUCOSA BUCAL, TERAPIA A LASER, DIÓXIDO DE CARBONO

INTRODUÇÃO

Os grânulos de Fordyce são glândulas sebáceas assintomáticas comumente encontradas na mucosa oral, no lábio superior e região retromolar.1 Caracterizam-se por múltiplas pápulas amareladas ou esbranquiçadas de 0,1 a 1mm de diâmetro que ocasionalmente podem coalescer e formar placas,1 sendo normalmente distribuídas de forma simétrica. Mansur e cols. descreveram um caso de localização unilateral em mucosa jugal associado a quadro de paralisia facial ipsilateral.2 Somente as glândulas sebáceas visíveis através do epitélio devem ser consideradas grânulos de Fordyce.3 Sua frequência aumenta com a idade, principalmente após o estímulo hormonal da puberdade, embora estejam presentes histologicamente em crianças.3 A prevalência em adultos varia de 70 a 85% com discreta predominância no sexo masculino,2 fato também observado por Guleç e cols.4 ao estudar lesões em mucosa oral de pacientes renais transplantados.

Histopatologicamente, as lesões são indistinguíveis das glândulas sebáceas, porém não estão associadas ao folículo piloso, e seu ducto se abre diretamente na superfície.5

É entidade de fácil diagnóstico clínico, e geralmente não são necessários exames complementares. O quadro deve ser diferenciado de outras lesões da cavidade oral: candidíase, diminutos lipomas, manchas de Koplik, verrugas virais, lesões papulosas mucosas da síndrome de Cowden, líquen plano e leucoplasia.6

Apesar do caráter assintomático e de serem considerados variantes da normalidade, alguns pacientes procuram tratamento por razões estéticas. Existem relatos de casos em que foram utilizados o ácido bicloroacético, laser de CO2, terapia fotodinâmica com ácido 5-aminolevulínico, isotretinína oral e curetagem com eletrocoagulação.1,7-10

RELATO DOS CASOS

Primeiro paciente: homem de 35 anos, apresentando desde adolescência múltiplas pápulas amareladas, assintomáticas, localizadas bilateralmente no lábio superior, típicas de grânulos de Fordyce (Figura 1).

Segundo paciente: homem de 32 anos com múltiplas pápulas no lábio superior sugestivas de grânulos de Fordyce em evolução desde a adolescência (Figura 2).

MÉTODO

Para ambos os pacientes optou-se pelo uso do laser de CO2 da LuxarTM superpulsado, com prévios bloqueio regional e infiltração local com xilocaína a 2% e epinefrina 1:100.000. Utilizouse a potência de 5W, spot size de 2mm e duas passadas, removendo- se o tecido necrótico com gaze umedecida (Figura 3). Após o procedimento os pacientes foram orientados a fazer uso de pomada com fibrinolisina, desoxirribonuclease e cloranfenicol (FibraseTM) três vezes ao dia durante dez dias.

RESULTADO

Em torno de dez dias houve reepitelização local nos dois pacientes. Após um ano não havia recorrência na área tratada com resposta estética satisfatória (Figuras 4 e 5).

DISCUSSÃO/CONCLUSÂO

Os grânulos de Fordyce têm sido pouco estudados na literatura dermatológica. Considerados variação normal das glândulas sebáceas e de interesse pelo aspecto estético que aflige alguns pacientes, algumas alternativas são utilizadas para sua resolução.1,7-10 Um relato de tratamento com terapia fotodinâmica com 5-ALA mostrou pobres resultados com significativos efeitos colaterais como dor, eritema, edema, vesiculação e hiperpigmentação pós-inflamatória.8 Monk tratou um paciente com isotretinoína oral para acne cística, havendo regressão dos grânulos de Fordyce e recorrência após nove semanas.9 Outro relato cita o uso do ácido bicloroacético no lábio superior de um paciente que regrediu por pelo menos três meses.1 O uso da eletrodissecação e curetagem foi opção terapêutica em outro caso.10

O laser de CO2 apresenta comprimento de onda de 10600nm localizado na região distante do infravermelho. É utilizado há mais de 30 anos na dermatologia cirúrgica por sua eficiência em vaporizar, cortar tecidos e produzir hemostasia intraoperatória efetiva.7 Ocampo-Candiani et al. utilizaram o laser de CO2 em dois pacientes e obtiveram resultado consistente semelhante aos obtidos com os pacientes deste estudo.7

Os sistemas ultrapulsados atuais, como o utilizado em nossos casos, permitem controle do aquecimento tissular e ablação precisa.7 Esse laser é aplicado com boa resposta no tratamento de várias lesões cutâneas benignas.7

Considerando a facilidade de seu uso e a precisão com que as lesões são retiradas, acreditamos ser o laser de CO2 boa alternativa para o tratamento dos grânulos de Fordyce.

Referências

1 . Plotner AN, Brodell RT. Treatment of Fordyce spots with bichloracetic acid. Dermatol Surg. 2008;34(3): 397-9

2 . Mansur AT, Aydingoz IE. Unilateral Buccal Fordyce Spots with Ipsilateral Facial Paralysis: A Sign of Neuro-sebaceous Connection? Acta Derm Venereol. 2012;92(2):177-8

3 . Dreher A, Grevers G. Fordyce spots. A little regarded finding in the area of lip pigmentation and mouth mucosa. Laryngorhinootologie. 1995;74(6):390-2

4 . Güleç AT, Haberal M. Lip and oral mucosal lesions in 100 renal transplant recipients. J Am Acad Dermatol. 2010;62(1):96-101

5 . Daley TD. Pathology of intraoral sebaceous glands: a review. J Oral Pathol Med. 1993;22(6):241-5

6 . Sengupta P, Haldar B. Fordyce disease resembling leukoplasia. Report of a case. Indian J Dermatol. 1982;27(4):149-52

7 . Ocampo-Candiani J, Villarreal-Rodriguez A, Quinones-Fernandez AG, Herz-Ruelas ME, Ruiz-Esparza J. Treatment of Fordyce spots with CO2 laser. Dermatol Surg. 2003; 29(8): 869-71

8 . Kim YJ, Kang HY, Lee ES, Kim YC. Treatment of Fordyce spots with 5-aminolaevulinic acid-photodynamic therapy. Br J Dermatol. 2007; 156(2):399-400

9 . Monk BE. Fordyce spots responding to isotretinoin therapy. Br J Dermatol.1993;129(3):355

10 . Chern PL, Arpey CJ. Fordyce spots of the lip responding to electrodesiccation and curettage. Dermatol Surg.2008;34(7):960-2

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