Sociedade Brasileira de Dermatolodia Surgical & Cosmetic Dermatology

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ISSN-e 1984-8773

Volume 3 Número 2


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Diagnóstico por Imagem

Queratose seborreica simuladora de melanoma

Seborrheic keratosis that resemble melanoma


Alessandra Yoradjian1, Natalia Cymrot Cymbalista1, Francisco Macedo Paschoal1

Colaboradora do ambulatório de
dermatoscopia do Serviço de
Dermatologia da Faculdade de Medicina
do ABC (FMABC) – Santo André – (SP),
Brasil.1, Mestre em dermatologia pelo
Departamento de Dermatologia do
Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo
(USP) – São Paulo (SP), Brasil.2, Doutor em ciências da saúde pela
Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo (USP) – São Paulo (SP) e
professor-assistente da disciplina de
dermatologia da Faculdade de Medicina
do ABC (FMABC) – Santo André – (SP),
Brasil3

Recebido em: 14/06/2011
Aprovado em: 18/06/2011

Trabalho realizado na Faculdade de Medicina
do ABC (FMABC) – Santo André – (SP), Brasil.

Conflitos de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

Correspondência:
Dra. Alessandra Yoradijan
R. Sampaio Viana, 580 – Paraíso
04004-002 – São Paulo – SP
E-mail: alessandraderma@terra.com.br

 

Resumo

Queratoses seborreicas são tumores epiteliais benignos de diagnóstico usualmente fácil pelo exame clínico e dermatoscópico. Em algumas situações podem simular lesões malignas, em especial o melanoma. O presente artigo tem como objetivo ilustrar dois desses casos e enfatizar a observação dermatoscópica cuidadosa na busca de aspectos menos comuns dessas lesões que podem ser determinantes para o aumento da acurácia diagnóstica.

Palavras-chave: CERATOSE SEBORRÉICA, MELANOMA, DERMOSCOPIA

Queratose, ceratose ou verruga seborreica é tumor epitelial benigno que se forma pela proliferação epidérmica à custa de células basaloides, que podem ser pigmentadas, sendo mais comuns a partir dos 50 anos e nos caucasianos. 1

De etiologia desconhecida, existem associação familiar e possibilidade de participação de fatores de crescimento em sua gênese. 1

Clinicamente apresenta-se como pápula ou placa querato- graxenta, normalmente acastanhada, bem delimitada, que pode acometer qualquer área do tegumento, principalmente áreas fotoexpostas, excluída a região palmoplantar.

Na dermatoscopia é caracterizada principalmente por pseudocistos córneos, que são formações intraepidérmicas arre- dondadas e amareladas preenchidas por queratina, e pseudoaber- turas foliculares, que são invaginações preenchidas por querati- na, de coloração castanho-enegrecida, de bordas bem demarca- das. 2,3 São aspectos que podem ser observados em nevos mela- nocíticos papilomatosos, porém muito comuns nas queratoses seborreicas. Outros aspectos verificáveis são as bordas em roído de traça ou em geleia, nas lesões mais planas, e o aspecto cere- briforme nas mais papulosas.

Normalmente seu diagnóstico não apresenta dificuldades, porém em algumas situações pode simular melanoma tanto no exame clínico como no dermatoscópico, 2 sendo o estudo ana- tomopatológico fundamental para confirmar o diagnóstico nes- ses casos.

O presente artigo tem por objetivo mostrar alguns exem- plos que caracterizam queratoses seborreicas simuladoras de melanoma.

Caso 1: Paciente do sexo feminino, amarela, 69 anos, apresenta- va lesão pigmentada irregular na região lombar,não sabendo espe- cificar há quanto tempo, sem outras semelhantes na pele. Negava antecedentes para melanoma. No exame dermatoscópico a lesão se mostrou assimétrica, com pigmentação que variava do mar- rom-claro ao escuro, formada por área amorfa, rede pigmentar delicada na maior parte da lesão, e área de hiperpigmentação excêntrica, com rede pigmentar de trama mais espessa e blotches. Devido à possibilidade de melanoma, optou-se pela biópsia exci- sional, e o resultado do exame anatomopatológico mostrou tra- tar-se de queratose seborreica pigmentada (Figuras 1 e 2).

Caso 2: Paciente do sexo feminino, branca, 63 anos, com lesão enegrecida, irregular no dorso notada há três meses, referia ante- cedente familiar para câncer de pele, mas não sabia especificar qual o tipo.No exame dermatoscópico era nítida a assimetria da lesão não só no formato,mas também pela variabilidade de cores (marrom-claro, marrom-escuro, preto, acinzentado e branco-azulado). Pontos irregulares, blotch e véu azul-esbranquiçado podiam ser notados. Devido à forte suspeita de melanoma, optou-se pela biópsia excisional da lesão, e o diagnóstico histo- lógico foi de queratose seborreica (Figura 3 e 4).

COMENTÁRIOS

A dermatoscopia ou microscopia de epiluminescência, exame não invasivo e prático, surgiu há poucas décadas como importante ferramenta no auxílio diagnóstico das lesões pig- mentadas, ajudando a diferenciar lesões não melanocíticas e melanocíticas (primeiro nível de análise) e, em seguida, poden- do prever o potencial maligno destas últimas (segundo nível de análise). Pode aumentar a acurácia diagnóstica em percentual que varia de cinco a 30%2 em comparação com o exame clíni- co apenas. Em certas situações especiais, entretanto, ocorrem dificuldades nessa interpretação, devido a características que se mesclam e à questão subjetiva da análise, podendo gerar resulta- dos falso-positivos ou falso-negativos para malignidade, especial- mente no caso do melanoma. 4

É intuito deste artigo ilustrar algumas dessas situações, exemplificando casos de queratose seborreica que se assemelham a melanoma tanto clínica quanto dermatoscopicamente.

Para identificar queratose seborreica o primeiro nível de análise é o mais importante; e, se for equivocadamente conside- rada lesão melanocítica, o potencial para erro de interpretação do segundo nível é alto,muitas vezes sendo classificada erronea- mente como maligna. 2

As principais características dermatoscópicas observadas nas queratoses seborreicas são os pseudocistos córneos e as pseudoa- berturas foliculares (algoritmo inicial proposto por Stolz et al.), com bordas bem demarcadas, em roído de traça ou em geleia. Porém já foram identificadas outras como vasos em grampo, estrutura rede pigmentar-símile (geralmente mais proeminente, espessa e heterogênea do que a rede pigmentar clássica das lesões melanocíticas), blotches, pontos, crostas, fissuras (aspecto cerebri- forme), aspecto em impressão digital, véu esbranquiçado, além da possível variabilidade de cores (amarelo, preto,marrom-escu- ro,marrom-claro, cinza-azulado). 3,5 A observação desses aspectos adicionais pode diminuir consideravelmente os erros diagnósti- cos, melhorando ainda mais a acurácia desse valioso recurso na propedêutica dermatológica. 2

Referências

1 . Siqueira CRS,Miot HA. Inflamação de queratoses seborreicas múltiplas induzida por quimioterapia com gencitabina. An Bras Dermatol. 2009;84(4):410-3.

2 . Braun RP, Rabinovitz HS, Krischer J, Kreusch J, Oliviero M, Naldi L, Kopf AW, Saurat JH. Dermoscopy of pigmented seborrheic keratosis. A morphological study. Arch Dermatol. 2002;138(12):1556-60.

3 . Cabo H. Queratosis seborreica VS melanoma: la dermatoscopia es útil em el diagnóstico deferencial? Arch Dermatol. 2002;52(1):11-5.

4 . Carrera C, Segura S, Palou J, Puig S, Segura J,Marti RM, et al. Seborrheic keratosislike melanoma with folliculotropism. Arch Dermatol. 2007;143(3):373-6

5 . Kopf AW, Rabinovitz H,Marghoob A, Braun RP,Wang S,Oliviero M, et al. "Fat fingers": a clue in the dermoscopic diagnosis of seborrheic keratosis. 2006;55(6):1089-91.

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