Sociedade Brasileira de Dermatolodia Surgical & Cosmetic Dermatology

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ISSN-e 1984-8773

Volume 3 Número 1


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Novas Técnicas

Técnica do anel para correção de cicatrizes inestéticas periauriculares

Ring technique for the correction of unaesthetic periauricular scars


Marina Emiko Yagima Odo1, Lilian Mayumi Odo1, Luiz Carlos Cucé1

Dermatologista responsável pela
Cosmiatria Clínica e Cirúrgica do
Departamento de Dermatologia da
Faculdade de Medicina da Universidade de
Santo Amaro (Unisa) – São Paulo (SP),
Brasil.1, Dermatologista voluntária do
Departamento de Dermatologia da
Faculdade de Medicina da Universidade de
Santo Amaro (Unisa) – São Paulo (SP),
Brasil.2, Professor chefe do Departamento de
Dermatologia da Faculdade de Medicina
Universidade de São Paulo (USP) – São
Paulo (SP), Brasil.3

Recebido em: 10/08/2010
Aprovado em: 10/02/2011

Trabalho realizado no Departamento de
Dermatologia da Faculdade de Medicina
Universidade de São Paulo (Unisa) – São Paulo
(SP), Brasil.

Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

Correspondência:
Dra.Marina Emiko Yagima Odo
Av. Onze de Junho, 88
04041-000 – São Paulo – SP
E-mail: marinaodo@gmail.com

 

Resumo

As cicatrizes inestéticas alargadas ou hipertróficas periauriculares podem ser decorrentes da tensão sobre a sutura das incisões da ritidoplastia. Em estudo retrospectivo de cinco anos, 10 pacientes do sexo feminino portadoras de cicatrizes inestéticas foram tratadas com a técnica do anel periauricular. Utilizou-se o fio de politetrafluoretileno em seis casos e o de mononylon 2-0 duplo em quatro casos, introduzidos com agulha de fáscia lata sem bisel. Após a exerese da cicatriz, as bordas foram aproximadas, e o anel amarrado e fixado na fáscia do músculo temporal. O resultado foi satisfatório. Em dois casos os fios foram removidos sem alteração do resultado estético final das cicatrizes.

Palavras-chave: CICATRIZ, CICATRIZ HIPERTRÓFICA, RITIDOPLASTIA, ORELHA

INTRODUÇÃO

Frequentemente o dermatologista e o cirurgião plástico são procurados para corrigir ou melhorar o aspecto de cicatrizes de cirurgias anteriores, especialmente as que se mostram hipertróficas ou alargadas. Na região periauricular as cicatrizes inestéticas podem surgir após ritidoplastias sendo muitas vezes associadas à deformação do lóbulo da orelha.1 Várias técnicas foram descritas na literatura para corrigir tais defeitos.2-4 A exerese simples da cicatriz inestética muitas vezes resulta em recidiva da complicação, se não houver sustentação interna suficiente para suportar o peso do SMAS contra a força de gravidade. Com a finalidade de conter as forças de tração nas linhas de incisão e evitar o alargamento das cicatrizes após ritidoplastias, em 1999 foi descrita técnica com ancoragem dos tecidos na cartilagem auricular.2 Posteriormente, Stocchero, ao descrever técnica para a realização de facelifting minimamente invasivo,5,6 propôs a ancoragem com fio mononylon 2-0 na aponeurose e no músculo temporal. O fio contorna o pavilhão auricular, introduzido por uma agulha biselada circular. No presente relato utilizou-se a técnica da dermossustentação com agulha sem bisel de fáscia lata,7,8 com o objetivo de corrigir cicatrizes inestéticas periauriculares e deformações do lóbulo de orelha.

RELATO DOS CASOS

Entre 2003 e 2008, no ambulatório de Cosmiatria Universidade de Santo Amaro (Unisa), São Paulo, Brasil, foram realizadas cirurgias corretivas em 10 pacientes do sexo feminino portadoras das seguintes deformidades: cicatrizes alargadas periauriculares atróficas (2), hipertróficas (1) e mistas (atróficas e hipertróficas) (3) e deformidades do lóbulo auricular (4).A média da idade das pacientes foi 53,6 anos. O tempo médio decorrido após a ritidoplastia que resultou na deformidade foi de 3,9 anos. O acompanhamento ambulatorial pós-cirúrgico foi semanal durante três meses e em seguida mensal durante um ano.

DESCRIÇÃO DA TÉCNICA

As pacientes foram orientadas a lavar o couro cabeludo no dia da cirurgia com xampu abundante e secá-lo em seguida.A assepsia foi realizada com álcool iodado, com a paciente na posição sentada, seguindo-se a marcação do trajeto do fio e da incisão em posição ortostática (Figura 1). Utilizou-se anestesia infiltrativa com 10ml de lidocaína a 2%, 100ml de solução fisiológica, 0,3ml de adrenalina 1:1000 e 3ml de bicarbonato de sódio 8,4%. Em seis casos foram empregados fios de PTFE (Goretex® CV-0. Gore, Flagstaff, Arizona, EUA), e nos outros quatro, o fio duplo de mononáilon 2-0. Os fios foram passados no subcutâneo no nível do SMAS, com a agulha de fáscia lata sem bisel (Figura 2), perfazendo anel que contornou o pavilhão auricular à distância aproximada de 3cm da linha marcada para a incisão. O ponto de entrada foi por incisão vertical de 1cm situada 3cm acima da implantação superior do pavilhão auricular. A primeira saída do fio foi no ângulo da mandíbula, seguida por sua reintrodução no mesmo orifício.A segunda foi na região retroauricular, seguida também pela reintrodução da agulha e por seu avanço até o fechamento do círculo no ponto de entrada (Figura 3).A exerese da cicatriz inestética foi feita em seguida, antes do fechamento do anel. O SMAS foi descolado e fixado quando se mostrou redundante.A seguir aproximaram-se as bordas com sutura contínua e fio mononáilon 5-0. O anel foi amarrado e ancorado na fáscia do músculo temporal. Não foi necessária a remoção de cabelo para as incisões.

RESULTADOS

Em todos os 10 casos o processo de cicatrização não apresentou alargamento e houve melhora da morfologia da orelha (Figura 4). Especificamente no caso que apresentava cicatriz hipertrófica, foram realizadas quatro infiltrações preventivas semanais, em ambos os lados, a partir da terceira semana após a correção, com 2mg de metilprednisolona, sem recidiva da hipertrofia. Quanto às complicações, quatro pacientes relataram desconforto prolongado pós-cirúrgico por dor no local da ancoragem na região temporal com duração em média de 45 dias. Nesse grupo foi indicada a remoção dos fios em dois casos, sendo um de mononáilon devido à dor persistente unilateral por quatro meses e outro de PTFE pela formação de granuloma de corpo estranho três meses após a cirurgia corretiva. Nesses casos o resultado estético final das cicatrizes foi satisfatório.

DISCUSSÃO

O alargamento e hipertrofia das cicatrizes resultantes de liftings faciais são motivados pela tensão exercida sobre as linhas de sutura. Para a correção deste defeito, há necessidade de sustentação do SMAS e do platisma, antes da exerese da cicatriz. Durante a observação dos casos tratados, constatou-se que o mononáilon 2-0 tem menor resistência à tração do que o fio de PTFE (Goretex® CV-0). Em geral a remoção da pele redundante já foi feita durante a cirurgia que originou a cicatriz, e portanto, não existe necessidade de descolamentos amplos, mas apenas da retirada da cicatriz. A dificuldade da ancoragem do bloco de tecido facial na cartilagem auricular, estimulou a utilização da técnica de sustentação do SMAS, passando-se o fio ao redor da orelha, obtendo-se assim com a ancoragem na fáscia do músculo temporal. O uso da agulha de fáscia lata sem bisel evita a lesão de estruturas nobres. Por outro lado a agulha circular sem bisel não foi utilizada pela dificuldade de progressão no tecido desde que o vetor da força manual diminui muito na extremidade da agulha circular romba. Na técnica de dermossustentação a agulha de fáscia lata tem leve arqueamento e a força é transmitida integralmente para a sua extremidade, porém ela não consegue dar a volta de 180 graus em volta da orelha; assim foram necessários três pontos de saída e reintrodução da agulha com o fio preso no orifício de sua extremidade anterior.Após o fechamento do nó desse anel, pode ocorrer redundância da pele periauricular, que deve ser excisada para não produzir abaulamento inestético. Os fios de PTFE ou mononáilon podem ser removidos após três meses de evolução, se necessário, sem comprometer o resultado estético final da cicatriz.

CONCLUSÃO

A técnica do anel periauricular auxilia na correção de deformidades morfológicas do lóbulo da orelha após liftings faciais e previne as cicatrizes inestéticas.

Referências

1 . Face-lift stigmata. Ann Plast Surg.1985;15(5):379-85.

2 . Periauricular face lift incisions and the auricular anchor. Plast Reconstr Surg. 1999; 104(5):1508-20.

3 . The round-ear incision in full face-lifting. Aesthetic Plast Surg. 2008; 32(3):509-16.

4 . Face lifts with hidden scars:The vertical U incision. Plast Reconstr Surg. 2002; 109(7):2539-51.

5 . The round block SMAS treatment .Plast Reconst Surg. 2001; 107(7):1921-3.

6 . Shortscar face-lift with the roundblock SMAS Treatment: a younger face for all. Aesth Plast Surg. 2007; 31(3):275-8.

7 . Dermossustentação. Med Est e Cosm Siglo XX. 1996; 5(9):2-4

8 . Práticas em Cosmiatria e Medicina Estética. Procedimentos de pequeno porte. São Paulo:Tecnopress; 1999.

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