Sociedade Brasileira de Dermatolodia Surgical & Cosmetic Dermatology

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ISSN-e 1984-8773

Volume 2 Número 4


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Como eu faço ?

Enxertia de tecido palpebral na reconstrução de tumores cutâneos

Palpebral tissue grafting in the reconstruction of cutaneous tumors


Emerson Vasconcelos de Andrade Lima1

Coordenador do Ambulatório de Cirurgia
dermatológica e Cosmiatria da Santa Casa
de Misericórdia do Recife, Doutor em
Dermatologia pela USP1

Data de recebimento: 18/11/2010
Data de aprovação: 05/12/2010

Trabalho realizado na Santa Casa de
Misericórdia do Recife - Centro de estudos
dermatológicos do Recife (CEDER) - Recife
(PE), Brasil.

Suporte financeiro: Nenhum
Conflito de interesse: Nenhum

Correspondência:
Dr. Emerson Vasconcelos de Andrade Lima
Praça Profº. Fleming, 35/1201 - Jaqueira
52050-180 – Recife – PE
e-mail: emersonderma@terra.com.br

 

Resumo

A reconstrução de defeitos resultante da remoção de tumores na face é sempre um desafio, já que a integridade funcional da área tratada e o risco de retrações e cicatrizes inestéticas devem ser criteriosamente avaliados. O enxerto muitas vezes é a opção mais adequada à reconstrução, exigindo uma área doadora que apresente similaridades teciduais com a área receptora. Esse estudo propõe o tecido da pálpebra superior como boa opção em 12 pacientes portadores de carcinoma basocelular (CBC) na face e sobra de tecido nas pálpebras superiores.

INTRODUÇÃO

Áreas nobres da face são frequentemente atingidas por tumores cutâneos. A remoção seguida de reconstrução dos defeitos gerados por essas lesões deve ser criteriosamente avaliada. 1

O fechamento direto é a opção inicial, porém em muitos casos a utilização de retalhos e enxertos torna-se mandatória. Sítios periorificiais, como as regiões periorbital, perioral, periau- ricular e o dorso nasal devem ser tratados com maior atenção devido aos riscos de retração tecidual nas bordas livres e comprometimento funcional resultantes de reconstruções inadequadamente planejadas. 2

A mobilidade tecidual limitada e a presença de áreas cancerizadas nas adjacências de tumores cutâneos circunstancialmente direcionam sua reconstrução para enxertos com pele removida de regiões cujo tecido saudável é redundante. 3, 4

A pega adequada do enxerto e a qualidade de sua revascularização são fundamentais quando se opta por essa forma de reconstrução. A utilização de tecido doador delgado, que contemple epiderme e derme após descarte do tecido celular subcutâneo, facilita a nutrição e aumenta as chances de sucesso cirúrgico. 5

A região retroauricular é uma das escolhas mais frequentes como área doadora para a reconstrução de tumores removidos da face. 6 A identificação de outras áreas que apresentem sobra de pele com o processo do envelhecimento, entretanto, faz pensar que a pálpebra superior seria região a ser cogitada como área doadora para enxertos. O tecido palpebral reconhecidamente apresenta a menor espessura de derme e epiderme da face, sendo viável seu uso como enxerto, com garantia de nutrição. 7-9

A blefaroplastia superior é cirurgia de fácil execução por profissional habilitado, passível de realização ambulatorial sob anestesia local e oferece segurança ao paciente.

Neste trabalho descreve-se a utilização do enxerto de pele de pálpebra superior na reconstrução de tumores cutâneos na face.

MÉTODOS

A técnica descrita foi empregada em 15 tumores de oito pacientes do sexo feminino e quatro do sexo masculino, com idade entre 52 e 64 anos, portadoras de CBCs primários inferiores a 3cm , diagnosticados clinicamente e sitiados na ponta do nariz (quatro) pálpebras inferiores (sete) e dorso nasal (três), pálpebra superior (um). Os tumores foram removidos de forma circular, obedecendo a margens variáveis de três a 4mm. Os 12 pacientes apresentavam sobra de pele na pálpebra superior. Utilizaram-se como critérios de exclusão hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus e uso de anticoagulantes ou similares.Os pacientes eram provenientes do Ambulatório de Cirurgia Dermatológica da Santa Casa de Misericórdia do Recife e da clínica privada do investigador.

A sobra de pele da pálpebra superior foi escolhida como área doadora para a reconstrução dos defeitos criados com a remoção dos carcinomas. Para tal, procedeu-se à blefaroplastia superior bilateral conforme a seguinte técnica (Figura 1):

    1. Marcação cirúrgica: a linha inferior foi posicionada sobre o sulco palpebral superior, e o pinçamento da sobra de pele ofereceu a medida para a marcação da linha superior, de tal maneira que o encontro das extremidades das duas linhas correspondesse ao desenho de uma elipse.
    2. Anestesia com 2, 5ml lidocaína 2% com vasoconstrictor para cada pálpebra.
    3. O tecido foi removido após excisão com lâmina de bisturi n. 15, e divulsão com auxílio de tesoura Íris curva.
    4. Após a hemostasia, procedeu-se à aproximação das bordas cirúrgicas com fio de náilon 6.0.
    5. O tecido palpebral foi fixado na área receptora por pontos separados com fio de náilon 5.0.
    6. Curativos utilizando apenas esparadrapo microporado finalizaram o procedimento, tanto na área doadora como na receptora.
    Em todos os casos, administrou-se Clonazepan 0,25mg por via SL, 30 minutos antes do procedimento.
    Como os pacientes, em sua maioria residiam em área rural e apresentavam dificuldade de transporte, orientou-se retorno após oito dias, quando foram removidos os pontos das áreas receptora e doadora.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os tumores retirados dos 12 pacientes foram submetidos à avaliação histológica, com diagnóstico de CBC e demonstração de margens laterais e profundas livres de lesão. Onze pacientes referiram melhora da capacidade visual com a remoção da sobra de pele das pálpebras, e 10 manifestaram receio de sofrer mutilação pela remoção do tumor.Todos informaram estar satisfeitos com o ganho estético que obtiveram tanto pela melhoria das pálpebras, como pela reconstrução do tumor. Os 12 pacientes consideraram de discretas a imperceptíveis as cicatrizes que resultaram da intervenção (Figuras 2-5).Todos os pacientes consideraram pouco doloroso o procedimento e afirmaram que preferiram o método utilizado à realização do procedimento em hospital sob sedação.

Apesar de o autor priorizar a cura do tumor pela remoção cirúrgica total, é relevante o ganho estético que se oferece a esses pacientes com reconstrução menos mutilante.

A possibilidade de reconstruir o defeito gerado pela remoção de um tumor com um enxerto delicado, aderente e de fácil pega, desencadeando com sua remoção um ganho cosmético na área doadora, tem estimulado o autor a optar frequentemente por esse método.

Ele assinala como vantagens dessa opção terapêutica a satisfação do paciente e a segurança do procedimento, apresentando-a como mais uma possibilidade passível de ser utilizada pelo cirurgião dermatológico.

CONCLUSÃO

E sugere o tecido da pálpebra superior como boa opção para área doadora de enxerto na reconstrução de tumores da face.

Referências

1 . Mada V, Lea JT , Szeimie KM, Non-melanoma skin cancer. Lancet. 2010; 9715(75): 673-85.

2 . Koh KS, Choi JW.Minimal paring of skin flaps for primary repair of incomplete unilateral cleft lip. 2008;121(4): 1382-5.

3 . Mauriello JA .Perspective-Cosmetic eyelid surgery from the pacient`s perspective.Ophthalmic Plast Reconst Surg. 2003;19(4):320-2.

4 . ODonnell BA. The cutaneomarginal eyelidgraft. Clin Exp Ophthalmol. 2002; 30(2):136-9.

5 . Wild T, Kelener M, Rahbarnia A, Sobotka L, Eberlein J. Basics in nutrition and wound healing.Nutrition. 2010 ;26(9) ;862-6.

6 . Dessy L A, Figus A, Fioramonti P,Mazzocchi , Scuderi N.Reconstruction of anterior auricular conchal defect after malignancy excision: Revolving- door flap versus full-thickness skin graft. J Plast Reconstr Aesthet Surg. 2010; 63(5):746-52.

7 . Ruiz ARM, Suarez FR, Campos DM, Valazquez TD, Lazaro OP. Use of glabellar skin graft for repair of nasal lip and alar defects.Dermatol Surg. 2010;36(4): 527-31.

8 . Rieger KL, Linos E, Egbert BM, Swetter SM. Recurrence rates associated with incompletely excised low-risk non melanoma skin cancer. J Cutan Pathol. 2010; 37(1): 59-67.

9 . Tschoi M,Hoy EA,Granick MS. Skin flaps . Surg Clin North Am. 2009;89(3): 643

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