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Relato de caso

Armadilhas do melanoma: Quando o perigo está na familiaridade – série de cinco casos com mimetismo clínico de dermatoses comuns

Márcio Fellipe Menezes Viana; Renata Ferreira Magalhães; Andréa Fernandes Eloy da Costa França; Lucas de Teive Argollo; Thais Helena Buffo; Hamilton Ometto Stolf

DOI: https://doi.org/10.5935/scd1984-8773.2026180596

Fonte de financiamento: Não
Conflito de interesses: Não
Data de submissão: 17 de junho de 2026
Decisão final:16 de julho de 2026
Como citar este artigo: Viana MFM, Magalhães RF, França AFEC, Argollo LT, Buffo TH, Stolf HO. Armadilhas do melanoma: Quando o perigo está na familiaridade – série de cinco casos com mimetismo clínico de dermatoses comuns. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(3):e20260596.


Abstract

Relatamos cinco casos de melanoma com apresentação clínica inicial sugestiva de dermatoses comuns, incluindo queratose seborreica, carcinoma basocelular, doença de Bowen, queratose actínica e melanose solar. Em quatro casos, a dermatoscopia documentada revelou achados discordantes da hipótese inicial e motivou biópsia; em um caso, a evolução clínica e sangramentos recorrentes indicaram excisão, confirmando melanoma nodular espesso. A série destaca como padrões familiares favorecem ancoragem diagnóstica e atraso na suspeição. História evolutiva, preocupação do paciente, exame de pele total, dermatoscopia sistemática e baixo limiar para biópsia são estratégias práticas para reduzir vieses e melhorar o diagnóstico precoce.


Keywords: Melanoma; Dermoscopia; Erros de Diagnóstico


INTRODUÇÃO

Melanomas podem mimetizar lesões mais prevalentes na rotina dermatológica, como carcinoma basocelular (CBC), doença de Bowen, queratose actínica (QA), queratose seborreica e outras dermatoses benignas ou queratinocíticas. Esse mimetismo favorece vieses cognitivos, especialmente ancoragem e fechamento prematuro do diagnóstico, ao ativar padrões clínicos familiares e reduzir a percepção de risco.1-3

A dermatoscopia aumenta a acurácia diagnóstica para detecção de melanoma em comparação ao exame clínico isolado e pode funcionar, na prática, como uma estratégia para interromper o reconhecimento intuitivo de padrões quando há discordância entre a impressão clínica inicial e os achados morfológicos.4

Em cenários nos quais a dermatoscopia não está disponível ou não foi documentada, a história de evolução da lesão — correspondente ao critério "E" da regra do ABCDE — deve reduzir o limiar para biópsia, especialmente diante de crescimento, mudança de cor, alteração de superfície, sintomas ou sangramento.4-7 Além disso, o exame de pele total pode aumentar a detecção de câncer cutâneo mesmo em pacientes com queixa focal, reduzindo a "visão em túnel" no contexto ambulatorial. A preocupação expressa pelo paciente também pode apoiar a decisão clínica quando a avaliação é inconclusiva.9,10

Esta série é apresentada por seu valor didático e aplicabilidade imediata na rotina dermatológica, ao demonstrar cinco apresentações aparentemente comuns que ocultavam melanoma.

 

RELATO DOS CASOS

Série retrospectiva de cinco casos submetidos a excisão cirúrgica. Para cada caso, foram descritos: local anatômico, evolução, padrão clínico, achados dermatoscópicos e anatomopatológico.

Caso 1: Paciente, 70 anos, fototipo II, com múltiplas máculas acastanhadas homogêneas semelhantes a melanose solar ou QA pigmentada, sem lesão que se destacasse, em geral, das demais. À dermatoscopia da região temporal esquerda, evidenciou sinais de atipia melanocítica, elevando a suspeita e motivando biópsia diagnóstica. Histopatologia confirmou lentigo maligno (Figura 1).

Caso 2: Paciente, 60 anos, fototipo III, com história de lesão na coxa esquerda com surgimento há mais de 5 anos, com sangramentos frequentes secundários a manipulação. Ao exame, lesão verrucosa de grandes dimensões, clinicamente compatível com ceratose seborreica; sem dermatoscopia registrada. A retirada foi indicada por tamanho, crescimento ao longo do tempo e preferência informada da paciente. Histopatologia confirmou melanoma nodular de padrão nevoide, com índice de Breslow de 4 mm. A ausência de registro da dermatoscopia neste caso foi deliberadamente mantida na análise como parte do fenômeno estudado, reforçando a necessidade de baixa tolerância a incerteza diante de lesões em evolução (Figura 2).

Caso 3: Paciente, 62 anos, fototipo III, com história de lesão eritematosa levemente descamativa no membro superior

esquerdo de surgimento há 6 meses, com aspecto clínico inicial de doença de Bowen ou CBC superficial. A dermatoscopia registrada evidenciou padrões vasculares (padrão de vasos polimórficos e áreas sem estruturas) incompatíveis com uma queratose isolada, motivando biópsia diagnóstica. Histopatologia confirmou melanoma extensivo superficial in situ (Figura 3).

Caso 4: Paciente de 48 anos, fototipo II, com nódulo, de surgimento há vários meses, na região pré-auricular esquerda, eritematoso, com brilho perolado, de aspecto clínico compatível com CBC. A dermatoscopia foi registrada e levantou suspeita de lesão melanocítica/atípica, determinando biópsia excisional, e não incisional como seria na suspeita do CBC. A confirmação histopatológica foi melanoma nodular hipomelanótico, com índice de Breslow de 2,3 mm (Figura 4).

Caso 5: Paciente, 68 anos, fototipo II, lesão eritemato-queratósica no antebraço direito, com aspecto clínico inicial de doença de Bowen ou QA. A dermatoscopia registrada evidenciou padrões vasculares incompatíveis com tal diagnóstico, motivando biópsia diagnóstica. Histopatologia confirmou melanoma extensivo superficial in situ (Figura 5).

 

DISCUSSÃO

Os cinco casos apresentados ilustram um mesmo mecanismo diagnóstico: apresentações clínicas suficientemente familiares para induzir ancoragem em hipóteses muito mais prevalentes, apesar de corresponderem a melanomas. Embora melanomas que mimetizam lesões não melanocíticas representem apenas cerca de 1,4% dos casos em centros terciários, sua relevância clínica é desproporcional, pois essas apresentações estão associadas a maior espessura de Breslow, maior frequência de micrometástases e maior positividade do linfonodo sentinela, refletindo o atraso diagnóstico inerente ao mimetismo clínico.1

Mais do que ausência de sinais de malignidade, essas apresentações exploram atalhos cognitivos inerentes ao raciocínio diagnóstico, especialmente o reconhecimento intuitivo de padrões, favorecendo vieses como ancoragem e fechamento prematuro do diagnóstico. Esses mecanismos, fundamentais para a prática médica cotidiana, tornam-se vulneráveis quando lesões malignas reproduzem características típicas de dermatoses muito mais prevalentes, aumentando o risco de atraso diagnóstico.2,3

O caso 2 exemplifica esse fenômeno. Uma lesão verrucosa, clinicamente compatível com queratose seborreica, revelou melanoma nodular com índice de Breslow de 4 mm. Nesse contexto, a ausência de documentação dermatoscópica evidencia uma limitação relevante da avaliação inicial e reforça que lesões em evolução, mesmo quando aparentemente benignas, devem reduzir — e não aumentar — o limiar para biópsia.

A dermatoscopia representa uma das principais estratégias para mitigar esse processo de ancoragem diagnóstica. Ao substituir a impressão clínica inicial por uma avaliação sistemática de critérios morfológicos, ela reduz a dependência exclusiva do reconhecimento intuitivo de padrões e aumenta significativamente a acurácia diagnóstica. Revisão sistemática envolvendo mais de 23 mil lesões demonstrou aumento significativo da sensibilidade e da especificidade para o diagnóstico de melanoma quando a dermatoscopia foi associada ao exame clínico, reduzindo simultaneamente melanomas não diagnosticados e excisões desnecessárias.4 Na presente série, esse benefício foi evidente em quatro dos cinco casos, nos quais a documentação dermatoscópica modificou a hipótese diagnóstica inicial ao revelar estruturas incompatíveis com doença de Bowen, QA ou CBC.

Além de aumentar a acurácia diagnóstica, a dermatoscopia auxilia na identificação de variantes de melanoma particularmente desafiadoras. Melanomas que simulam queratose seborreica frequentemente apresentam assimetria estrutural, vasos atípicos e ausência dos critérios clássicos de queratose, enquanto melanomas amelanóticos ou hipomelanóticos podem apresentar fundo rosado associado a vasos polimórficos, simulando CBC, tumores queratinocíticos ou dermatoses inflamatórias.5,6 Esses achados reforçam que a dermatoscopia deve ser utilizada não apenas para confirmar a hipótese clínica inicial, mas sobretudo para identificar elementos que a contradigam.

Entretanto, a dermatoscopia não substitui a história clínica. A evolução da lesão, representada pelo critério "E" da regra do ABCDE, foi incorporada aos critérios de avaliação clínica do melanoma justamente por contemplar mudanças em tamanho, forma, cor, superfície ou sintomas, incluindo sangramento e sensibilidade.7 O caso 2 ilustra esse princípio: apesar da ausência de dermatoscopia documentada, o crescimento progressivo e os episódios recorrentes de sangramento motivaram a excisão, permitindo o diagnóstico definitivo.

O atraso diagnóstico decorre da interação entre fatores relacionados ao paciente e ao médico. Muitos pacientes retardam a procura por assistência após perceberem alterações na lesão, enquanto tratamentos empíricos, baixa suspeição clínica e demora no encaminhamento também contribuem para o diagnóstico em estágios mais avançados.8 Nesse cenário, a preocupação expressa pelo paciente deve ser considerada um dado clínico adicional, especialmente quando associada a lesões em evolução ou com características atípicas.9

Outro aspecto relevante evidenciado por esta série é a importância do exame de pele total. Além de reduzir a chamada "visão em túnel", centrada exclusivamente na queixa principal, essa prática aumenta a detecção de tumores cutâneos adicionais, incluindo melanomas não relacionados ao motivo inicial da consulta, constituindo uma estratégia simples e de elevado impacto na prática dermatológica.10

Os casos apresentados permitem destacar três recomendações práticas para a rotina dermatológica: (1) incorporar e documentar sistematicamente a dermatoscopia, especialmente em lesões aparentemente banais, porém atípicas ou em evolução; (2) manter baixo limiar para biópsia quando houver discordância entre a impressão clínica, a história evolutiva e os achados dermatoscópicos; e (3) integrar, de forma sistemática, a evolução da lesão, a preocupação do paciente e o exame de pele total ao raciocínio diagnóstico.

O principal desafio dos melanomas mimetizadores não é a ausência de sinais de malignidade, mas sua capacidade de reproduzir padrões clínicos extremamente familiares ao dermatologista. A familiaridade, portanto, não deve reduzir a vigilância diagnóstica; ao contrário, deve estimular uma avaliação mais criteriosa diante de lesões em evolução ou com achados discordantes. A integração entre história clínica, dermatoscopia documentada, exame de pele total e baixo limiar para confirmação histopatológica constitui uma estratégia prática para reduzir vieses cognitivos, minimizar atrasos diagnósticos e melhorar o prognóstico do melanoma.

 

Agradecimento

À Dra Mercedes Cristina Mongeli Martim Paro pela documentação de um caso demonstrado neste artigo e seu entusiasmo pela dermatoscopia da pele.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:

Márcio Fellipe Menezes Viana
ORCID:
0009-0005-1663-9591
Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Revisão crítica da literatura
Renata Ferreira Magalhães
ORCID:
0000-0001-9170-932X
Análise estatística, Revisão crítica do manuscrito
Andréa Fernandes Eloy da Costa França
ORCID:
0000-0003-1657-4570
Análise estatística, Concepção e planejamento do estudo
Lucas de Teive Argollo
Obtenção, análise e interpretação dos dados
Thais Helena Buffo
ORCID:
0000-0002-6833-7596
Aprovação da versão final do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura
Hamilton Ometto Stolf
ORCID:
0000-0002-3540-2769

Aprovação da versão final do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica do manuscrito

 

REFERÊNCIAS:

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