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Relato de caso

Matricoma onicocítico em hálux: neoplasia ungueal rara em localização incomum

Heloisa Calegari Borges; Isabelle Sousa Medeiros Torres Ferreira; Flauberto de Sousa Marinho

DOI: https://doi.org/10.5935/scd1984-8773.2026180592

Fonte de financiamento: Nenhuma
Conflito de interesses: Nenhum
Data de submissão: 04/06/2026
Decisão final: 06/08/2026
Como citar este artigo: Borges HC, Ferreira ISMT, Marinho FS. Matricoma onicocítico em hálux: neoplasia ungueal rara em localização incomum. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(3):e20260592.


Abstract

O matricoma onicocítico (MOC) é uma neoplasia benigna rara da matriz ungueal que se apresenta como paquimelanoníquia longitudinal e com grande capacidade onicogênica. Há poucos casos relatados na literatura, sendo a maioria em unhas das mãos. O tratamento é cirúrgico, com excisão completa da lesão, o que é curativo na maioria dos casos. O presente relato descreve um caso de MOC localizado no hálux, contribuindo para o reconhecimento clínico e histopatológico dessa entidade.


Keywords: Unhas; Doenças Raras; Neoplasias


INTRODUÇÃO

O matricoma onicocítico (MOC) é uma neoplasia benigna, monodáctila, originada da matriz ungueal, descrita por Perrin et al. em 2012. Caracteriza-se por notável capacidade onicogênica, manifestando-se por espessamento da lâmina ungueal associado à melanoníquia longitudinal — quadro denominado paquimelanoníquia longitudinal.1,2 Desde sua descrição inicial, poucos casos foram relatados na literatura, predominando o acometimento das unhas das mãos.

A maioria dos casos descritos envolve adultos entre a quarta e a sexta décadas de vida, com discreto predomínio masculino.3-5 O envolvimento de unhas dos pés é incomum, com poucos casos documentados.3-8 Alvarez et al. relataram o primeiro caso em paciente negro, também localizado em hálux, confirmando a possibilidade de apresentações em diferentes fototipos.9

Apesar de seu comportamento indolente, o MOC frequentemente simula tumores malignos, como melanoma subungueal e doença de Bowen, gerando preocupação diagnóstica e necessidade de intervenções cirúrgicas.4,6,9

Em revisão recente de 14 casos, Perrin et al. destacaram a raridade do acometimento em unhas dos pés, observando apenas quatro ocorrências nessa topografia.3 O presente relato tem como objetivo descrever um caso de MOC localizado no hálux, contribuindo para o reconhecimento clínico e histopatológico dessa entidade.

 

RELATO DO CASO

Paciente masculino, 54 anos, fototipo III, procurou atendimento por "linha preta" assintomática em hálux esquerdo com 3 anos de evolução. Referia progressão gradual da pigmentação nos últimos meses.

Ao exame, observou-se faixa longitudinal enegrecida, com cerca de 3 mm de largura, associada a espessamento localizado/pontual da lâmina ungueal, discreta onicólise distal e ausência de sinal de Hutchinson (Figura 1). A dermatoscopia revelou melanoníquia longitudinal homogênea e ceratose subungueal localizada (Figuras 2, 3 e 4).

Diante da suspeita de onicopapiloma pigmentado ou MOC, foi realizada a biópsia excisional. Após assepsia e antissepsia, realizou-se bloqueio digital proximal, seguido de descolamento distal da lâmina ungueal com visualização de lesão pigmentada de distribuição longitudinal, localizada em matriz (Figura 5). Foi então realizado shaving da lesão, com envio do material para exame histopatológico.

O exame histopatológico mostrou proliferação epitelial intraepidérmica composta por células basaloides, dispostas em ninhos e cordões, com formação de pérolas onicocíticas. Havia escassa pigmentação melânica e ausência de atipias citológicas ou mitoses, mas identificou-se presença de elastose e fibrose dérmica (Figura 6).

Com base nos achados clínicos, dermatoscópicos e histológicos, estabeleceu-se o diagnóstico de MOC subtipo acantótico. O paciente evoluiu com cicatrização completa e ausência de recidiva após 18 meses de seguimento.

 

DISCUSSÃO

Clinicamente, o MOC se manifesta como uma faixa pigmentada longitudinal, única e monodáctila, podendo associar-se à paquioníquia e à ceratose subungueal distal. A ausência de dor e de história de trauma é comum, e a evolução é lenta e assintomática.1,3,5

Os achados dermatoscópicos, descritos por Perrin et al., incluem pontos e aglomerados brancos arredondados ou ovais, estrias longitudinais regulares, hemorragias filiformes e espessamento da borda livre.3 Tais achados refletem a queratinização anômala e o espessamento localizado da lâmina.

Conforme descrito por Spaccarelli et al., a forma hipopigmentada do MOC pode mimetizar o onicomatricoma, apresentando espessamento da placa sem pigmento visível.6 O MOC é considerado a contraparte epitelial do onicomatricoma e pode manifestar-se clinicamente como melanoníquia longitudinal, xantoníquia ou leuconíquia, em geral associadas a espessamento localizado da lâmina ungueal.3,5,7 Em contraste, o subtipo pigmentado apresenta melanoníquia devido à deposição de melanina na camada basal da matriz, sem proliferação melanocítica.1,4

O exame histopatológico é determinante para o diagnóstico. O MOC exibe proliferação intraepitelial de células onicocíticas com maturação gradativa, resultando em queratinização abrupta e formação de pérolas onicocíticas.1,3,4 Três subtipos principais foram descritos: 1) acantótico – predomínio de epitélio espessado sem papilomatose; 2) acantótico-papilomatoso – papilas epiteliais superficiais com esferas de células pré-ceratogênicas e ceratogênicas; 3) ceratogênico – zona ceratogênica proeminente e maturação tardia.3,8

O caso aqui descrito apresentou padrão acantótico, sendo o acantótico-papilomatoso o subtipo mais frequentemente observado nas revisões de Perrin et al.3

É importante diferenciá-lo do melanoma subungueal. Ao contrário do melanoma, o MOC se caracteriza pela ausência de atipias, invasão dérmica e proliferação melanocítica.4,6 A diferenciação da queratose seborreica (QS) também é importante. Enquanto o MOC se cornifica com esferas de onicocíticos retentores de núcleos eosinofílicos, a QS apresenta cistos pseudocórneos. Áreas semelhantes a cistos pseudocornosos em MOC apresentam duas camadas distintas, as zonas pré-ceratógena e ceratógena, ausentes na QS.9

A imunohistoquímica pode auxiliar na diferenciação entre tumores da matriz ungueal. O MOC demonstra positividade para LEF-1, marcador onicogênico útil para distinguir de carcinoma onicocítico e ceratose subungueal.3,9

O tratamento é cirúrgico, com excisão completa da lesão, sendo curativo na maioria dos casos.3,5 Não há relatos de transformação maligna ou metástase, e a recorrência é rara e está associada a ressecções incompletas. O prognóstico é bom, com manutenção estética da unha após reparo cirúrgico adequado.

 

CONCLUSÃO

O MOC é uma neoplasia benigna rara da matriz ungueal que pode clinicamente imitar tumores malignos, sobretudo o melanoma subungueal. O reconhecimento de seus padrões clínicos, dermatoscópicos e histopatológicos é fundamental para evitar diagnósticos equivocados. Este caso reforça a importância de incluir o MOC no diagnóstico diferencial das melanoníquias longitudinais e paquioníquias subungueais, especialmente em casos envolvendo unhas dos pés.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:

Heloisa Calegari Borges
ORCID:
0000-0002-8026-262X
Aprovação da versão final do manuscrito, Elaboração e redação do manuscrito, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura
Isabelle Sousa Medeiros Torres Ferreira
ORCID:
0000-0002-9597-3272
Obtenção, análise e interpretação dos dados
Flauberto de Sousa Marinho
ORCID:
0000-0002-9337-9931
Aprovação da versão final do manuscrito, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito

 

REFERÊNCIAS:

1. Perrin C, Cannata GE, Bossard C, Grill JM, Ambrossetti D, Michiels JF. Onychocytic matricoma presenting as pachymelanonychia longitudinal: a new entity (report of five cases). Am J Dermatopathol. 2012;34(1):54–9.

2. Perrin C, Cannata GE, Langbein L. Acquired localized longitudinal pachyonychia and onychomatrical tumors: a comparative study of onychomatricomas and onychocytic matricomas. Am J Dermatopathol. 2016;38(6):1–8.

3. Perrin C, Coutts M, Boukari F, Ambrosetti D. Onychocytic matricoma: a clinical, dermoscopic, and pathological analysis of 14 cases. Am J Dermatopathol. 2024;46(5):259–70.

4. Kusutani N. Onychocytic matricoma as an underrecognized benign mimicker of subungual malignant melanoma and Bowen's disease. J Dermatol. 2016;43(7):1–2.

5. Vieira LFdA, Jeunon T, Leverone AP, Nakamura R. Matricoma onicocítico. An Bras Dermatol. 2019;94(4):214–7.

6. Spaccarelli N, Wanat KA, Miller CJ, Rubin AI. Hypopigmented onychocytic matricoma as a clinical mimic of onychomatricoma. J Cutan Pathol. 2013;40(6):591–4.

7. Perrin C, Ambrosetti D. A new, important nail-unit tumor mistaken for a foreign body. JAMA Dermatol. 2014;150(3):1–3.

8. Song H, Qu F, Dang N, Sun X. Onychocytic matricoma: report of an Asian case. Ann Dermatol. 2017;29(3):355–6.

9. Alvarez G, Kha C, Selim MA, Fresco A. Onychocytic matricoma presenting as longitudinal melanonychia in a skin of color patient. Skin App Dis. 2023;9(3):1–6.


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