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Relato de caso

Fístula cutânea odontogênica mimetizando neoplasia cutânea: relato de caso

Clarissa Brito Farias; Ana Vitória Lins Paiva Antunes; Aretuza Iolanda Pimentel Torres Portella; Antônio Carlos Evangelista de Araújo Bonfim; Luciana Cavalcanti Trindade

DOI: https://doi.org/10.5935/scd1984-8773.2026180547

Fonte de financiamento: Não
Conflito de interesses: Não
Data de submissão: 13/01/2026
Decisão final: 9/4/2026
Como citar este artigo: Farias CB, Antunes AVLP, Portella AIPT, Bonfim ACEA, Trindade LC. Fístula cutânea odontogênica mimetizando neoplasia cutânea: relato de caso. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(2):e20260547.


Abstract

As fístulas cutâneas odontogênicas representam um trajeto entre a cavidade oral e a pele e constituem manifestações de necrose pulpar e periodontite apical crônica, causadas por cárie, infecções ou traumas. As manifestações cutâneas incluem lesões como nódulos e cistos e podem apresentar retração perilesional. São um desafio diagnóstico, pois, na maioria dos casos, os pacientes não referem odontalgia. Neste estudo, relatamos o caso de uma paciente cujo diagnóstico foi retardado pela ausência de suspeita clínica, tendo sido submetida a diversos tratamentos, inclusive cirúrgicos, devido à semelhança clínica da lesão com uma neoplasia cutânea. Após o tratamento odontológico, houve resolução completa da lesão.


Keywords: Fístula Bucal; Fístula; Carcinoma Basocelular


INTRODUÇÃO

As fístulas cutâneas odontogênicas (FCO) representam uma comunicação entre a cavidade oral e a pele e constituem manifestações cutâneas secundárias à necrose pulpar e à periodontite apical crônica.1 As causas incluem cárie, infecção pulpar ou periapical, doenças periodontais, fraturas radiculares e problemas mecânicos decorrentes de trauma, sem predileção por gênero ou faixa etária.2,3

As manifestações cutâneas incluem lesões como nódulos, cistos e áreas de solução de continuidade, podendo apresentar retração na região perilesional. Os trajetos fistulosos mais comumente relatados estão relacionados ao acometimento da arcada dentária inferior, com drenagem para a mandíbula e o mento.4,5

Apesar de bem documentadas, as FCOs continuam sendo um desafio diagnóstico, pois, na maioria dos casos, os pacientes não referem odontalgia. O diagnóstico definitivo geralmente é realizado por meio de exames de imagem, como radiografia panorâmica e tomografia computadorizada, que evidenciam alterações do processo alveolar.5

Estima-se que metade dos pacientes com FCOs seja submetida a tratamentos desnecessários, tais como múltiplas abordagens cirúrgicas dermatológicas e antibioticoterapia prolongada, até que o diagnóstico correto seja estabelecido.6

Nesse contexto, o objetivo do presente estudo é relatar um caso de FCO com diagnóstico retardado devido à ausência da suspeição diagnóstica, reforçando a importância do conhecimento dessa condição e de sua relação com o exame da cavidade oral de modo a possibilitar uma conduta adequada e oportuna.

 

Relato de caso

Paciente do sexo feminino, 43 anos, faiodérmica, relatava surgimento de lesão em região mandibular direita, indolor, de crescimento progressivo, havia 6 meses. Ao exame, observava-se um nódulo eritematoso, com áreas amareladas e discreto brilho, de consistência fibroelástica e indolor à palpação (Figura 1). A dermatoscopia revelou uma lesão nodular, de fundo rosado, encimada por crostículas amareladas aderidas, com presença de áreas homogêneas amareladas e telangiectasias arboriformes cruzando a lesão (Figura 2), sugerindo carcinoma basocelular.

Foi realizada a exérese fusiforme da lesão e o exame anatomopatológico evidenciou pele com infiltrado inflamatório misto, linfo-histioplasmocitário e neutrofílico, denso e difuso, envolvendo a derme superficial e profunda, o que não corroborava a hipótese inicial de neoplasia cutânea (Figura 3).

Houve perda de seguimento e a paciente retornou após 2 anos da exérese, relatando recidiva da lesão no mesmo local. Ao exame, apresentava nódulo de aspecto lobulado, rosado, com um ponto central amarelado que eliminava exsudato e retração da pele circunjacente (Figura 4). Nesse momento, aventou-se a hipótese de FCO. A cavidade oral foi examinada e verificou-se dentes molares e pré-molares direitos em péssimo estado de conservação, com presença de restos radiculares (Figura 5). Foram solicitadas radiografia panorâmica da face e radiografias periapicais dos pré-molares e molares inferiores direitos, evidenciando remanescentes radiculares dos elementos 44 e 46, com área de radiolucidez no ápice radicular do elemento 44, estendendo-se também à região periapical do elemento 45 (Figura 6).

A paciente foi encaminhada ao cirurgião-dentista, que optou pela exodontia dos restos radiculares supracitados com curetagem alveolar e antibioticoterapia com amoxicilina e clavulanato. O elemento dentário 45 foi tratado de forma conservadora, dado que apresentava vitalidade pulpar. A paciente retornou ao ambulatório 6 meses após a realização do tratamento odontológico, apresentando fechamento completo da fístula e cicatriz discretamente atrófica no local (Figura 7).

 

DISCUSSÃO

As FCOs representam um trajeto entre a cavidade oral e a pele. São infecções crônicas, manifestações de necrose pulpar e periodontite apical crônica, causadas por cárie, infecção pulpar ou periapical, doenças periodontais, fraturas radiculares ou problemas mecânicos decorrentes de trauma. Provocam um processo inflamatório osteoclástico, com formação de abscesso, que progride gradualmente através do osso alveolar, formando um trajeto em direção à área de menor resistência.7 O local da drenagem pode ser intraoral ou extraoral. Quando não detectadas precocemente, podem ocasionar alterações estéticas e transtornos psicológicos, comprometendo a autoestima, além de complicações e infecções secundárias.

É necessário um elevado grau de suspeição diagnóstica em relação à FCO, pois nem sempre há relato de odontalgia e a localização pode estar afastada do foco infeccioso, como nas fistulizações para a face e pescoço.8 Lee et al.7 verificaram que, de 33 pacientes com fístulas de origem odontogênica, 27 receberam inicialmente diagnóstico incorreto (81,8%). Os diagnósticos equivocados incluíram cisto epidérmico (24,2%), furúnculo (21,2%), micose subcutânea (15,2%), carcinoma de células escamosas (9,1%), carcinoma basocelular (6,1%) e granuloma piogênico (6,1%).

As manifestações cutâneas apresentam variabilidade morfológica, podendo se apresentar como retrações cutâneas, nódulos, abscessos, cistos, úlceras ou lesão com drenagem em diferentes locais, dependendo dos dentes acometidos.4 Os trajetos fistulosos são mais comumente associados a infecções de dentes inferiores, com drenagem preferencial para a mandíbula e o mento.5

O diagnóstico baseia-se na suspeita clínica e é confirmado por radiografia panorâmica da face, radiografia periapical e tomografia computadorizada.9 A ultrassonografia cutânea é uma técnica não invasiva e emergente, com utilidade comprovada em lesões localizadas,10 representando uma ferramenta segura e acessível para o diagnóstico da FCO. A presença de um trajeto fistuloso hipoecoico com realce ao Doppler colorido é um achado característico que auxilia no diagnóstico da condição.5

O tratamento consiste na remoção da causa primária, o que leva à cicatrização e regressão da lesão cutânea em 1 a 2 semanas. A cicatriz residual pode ser revisada cirurgicamente caso seja esteticamente desagradável para o paciente.6

Apesar de rara, a FCO deve sempre ser considerada no diagnóstico diferencial. Os médicos devem conhecê-la e estar atentos à cavidade oral, principalmente diante de lesões periorais e cervicais. Quando esse tipo de entidade se desenvolve e os pacientes desconhecem o quadro patológico dentário, eles procuram primeiro tratamento dermatológico antes de serem encaminhados para cirurgiões-dentistas.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:

Clarissa Brito Farias
ORCID:
0009-0009-5395-045X
Análise estatística, Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura.
Ana Vitória Lins Paiva Antunes
ORCID:
0000-0002-5171-245x
Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados.
Aretuza Iolanda Pimentel Torres Portella
ORCID:
0000-0002-3952-363X
Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados.
Antônio Carlos Evangelista de Araújo Bonfim
ORCID:
0000-0001-8739-365X
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Luciana Cavalcanti Trindade
ORCID:
0000-0002-0643-1093
Concepção e planejamento do estudo, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.

 

REFERÊNCIAS:

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2. Sheehan DJ, Potter BJ, Davis LS. Cutaneous draining sinus tract of odontogenic origin: unusual presentation of a challenging diagnosis. South Med J. 2005;98(2):250-2.

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4. Chhabra A, Chhabra N. Dental infection mimicking dermatological lesion: three case reports of cutaneous fistulae and sinus tracts on face. Indian Dermatol Online J. 2018;9:441-4.

5. Altemir-Vidal A, Iglesias-Sancho M, Quintana-Codina M. Usefulness of high-frequency ultrasonography in the diagnosis of odontogenic cutaneous fistula. An Bras Dermatol. 2021;96:259-60.

6. Cantatore JL, Klein PA, Lieblich LM. Cutaneous dental sinus tract, a common misdiagnosis: a case report and review of the literature. Cutis. 2002;70:264-7.

7. Lee EY, Kang JY, Kim KW, Choi KH, Yoon TY, Lee JY. Clinical characteristics of odontogenic cutaneous fistulas. Ann Dermatol. 2016;28(4):417.

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9. Amorim GM, Paul IR, Molozzi B, Steckert SEV, Biazussi B, Amorim-Filho RM. Fístula cutânea odontogénica. Rev SPDV. 2020;78(3).

10. Wortsman X, Wortsman J. Clinical usefulness of variable-frequency ultrasound in localized lesions of the skin. J Am Acad Dermatol. 2010;62:247-56.


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