Leticia Midori Kondo Iwamoto1; Flavia Rodrigues Dias2; Otavio Augusto Noschang Moreira3; Helio Amante Miot3; Ana Claudia Athanasio Shwetz1,3
Fonte de financiamento: Não
Conflito de interesses: Não
Data de submissão: 28/10/2025
Decisão final: 26/12/2025
Como citar este artigo: Iwamoto LMK, Dias FR, Moreira OAN, Miot HA, Shwetz ACA. Terapia com cemiplimabe para úlcera de Marjolin decorrente de foliculite decalvante: relato de caso. Surg Cosmet Dermatol. 2026;18(1):e20260531.
A transformação maligna da foliculite decalvante (FD) em carcinoma espinocelular (CEC) é rara, porém relevante pela gravidade da evolução clínica. Relatamos o caso de um homem de 53 anos, Testemunha de Jeová, com histórico prolongado de FD que evoluiu para CEC metastático de couro cabeludo, de progressão rápida. Devido à recusa cirúrgica, iniciou-se monoterapia com cemiplimabe (inibidor de PD-1), obtendo-se resolução completa da neoplasia em 12 semanas. Este caso ressalta o risco de transformação maligna em dermatoses inflamatórias crônicas e aponta o cemiplimabe como alternativa terapêutica eficaz para CEC avançado em situações em que a ressecção cirúrgica é inviável.
Keywords: Carcinoma de Células Escamosas; Úlcera Cutânea; Alopecia; Inibidores de Checkpoint Imunológico; Cicatriz; Neoplasias Cutâneas
A foliculite decalvante (FD) é uma alopecia cicatricial neutrofílica rara, caracterizada por inflamação perifolicular, pústulas e fibrose progressiva, em geral de difícil manejo e resultando em cicatrizes.1 A úlcera de Marjolin (UM) é uma neoplasia cutânea rara que surge em cicatrizes e feridas crônicas, sendo o carcinoma espinocelular (CEC) o tipo histológico mais comumente identificado.2 O CEC é mais frequentemente associado a queimaduras profundas e sua ocorrência no contexto da FD é extremamente incomum.1,2 O tratamento da UM geralmente envolve excisão cirúrgica ampla associada a terapias adjuvantes.3 Relatamos um caso de CEC avançado decorrente de FD crônica, tratado com sucesso com cemiplimabe em monoterapia, ressaltando suas implicações clínicas.
Homem, 53 anos, Testemunha de Jeová, em tratamento para FD com doxiciclina há 4 anos, apresentava lesão nodular friável e sangrante no couro cabeludo, com crescimento rápido em 2 meses (Figura 1). Ao exame físico, observou-se linfonodomegalia cervical e supraclavicular palpável. A análise histopatológica confirmou CEC invasivo, ulcerado e bem diferenciado. A ressonância magnética revelou lesão infiltrativa envolvendo derme, tecido subcutâneo e gálea aponeurótica, com proximidade ao crânio (Figura 2). A tomografia por emissão de pósitrons (PET) identificou linfonodomegalia cervical e supraclavicular, indicando metástases não regionais. O tumor foi classificado como CEC estágio IV (T4N1/N2M0), de acordo com o sistema de estadiamento da 8ª edição do American Joint Committee on Cancer (AJCC).
Devido à recusa cirúrgica por motivos religiosos e à evidência de metástases ósseas e linfonodais, iniciou-se tratamento com cemiplimabe (350 mg intravenoso a cada 3 semanas). Após 12 semanas, observou-se resolução clínica e radiológica completa (Figuras 3 e 4), com PET demonstrando ausência de atividade hipermetabólica na lesão do couro cabeludo e linfonodos estáveis.
Descrita em 1828 por Jean Nicolas Marjolin, a UM é uma neoplasia agressiva classicamente originada em cicatrizes de queimaduras.4 Outras patologias, como hidradenite supurativa, úlceras de pressão, úlceras venosas e infecções por HPV, também foram descritas como fatores de risco.1,2 A inflamação crônica aumenta o risco de carcinogênese cutânea, pois a produção contínua de citocinas pró-inflamatórias e o remodelamento tecidual promovem um microambiente favorável à transformação maligna.2 Além disso, áreas de cicatrizes crônicas podem perder células do sistema imunológico, dificultando a vigilância imunológica e favorecendo a agressividade e a propensão à metástase.2 Entretanto, há poucos relatos de UM surgindo no contexto de alopecias cicatriciais.1
A suspeita de UM deve ser levantada diante de uma lesão endurecida, de má cicatrização, crescimento rápido e odor fétido, com bordas elevadas e infiltradas, geralmente localizada em áreas de feridas ou cicatrizes crônicas.2 Outros sinais incluem tecido de granulação exofítico, sangramento local e linfonodomegalia regional.2
O tratamento da UM geralmente envolve excisão cirúrgica ampla com dissecção linfática, podendo-se considerar radioterapia ou quimioterapia adjuvantes.3 O cemiplimabe, um inibidor de PD-1 de alta afinidade, consiste em uma imunoterapia aprovada pela U.S. Food and Drug Administration (FDA) e pela European Medicines Agency (EMA), sendo indicado para pacientes com CEC metastático ou localmente avançado não candidatos à cirurgia curativa ou radioterapia.5 Ensaios clínicos demonstraram resposta antitumoral rápida e substancial, com perfil de segurança aceitável.5
No presente caso, o cemiplimabe foi uma alternativa eficaz e bem tolerada, resultando em resposta completa.
No presente caso de um paciente com CEC em estágio IV que recusou terapias invasivas por convicções religiosas, o tratamento com cemiplimabe foi escolhido como alternativa e resultou em resposta completa. Este relato enfatiza a importância do acompanhamento clínico rigoroso e da biópsia precoce de lesões suspeitas em pacientes com doenças inflamatórias crônicas do couro cabeludo, devido ao risco de transformação maligna. O cemiplimabe demonstrou eficácia neste caso de CEC avançado, reforçando o papel da imunoterapia em neoplasias cutâneas metastáticas ou irressecáveis, quando a intervenção cirúrgica não é viável.
Leticia Midori Kondo Iwamoto
ORCID: 0009-0001-5080-4619
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Flavia Rodrigues Dias
ORCID: 0009-0008-0821-3656
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Otavio Augusto Noschang Moreira
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Helio Amante Miot
ORCID: 0000-0002-2596-9294
Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura.
Ana Claudia Athanasio Shwetz
ORCID: 0000-0002-9373-5019
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1. McMullen E, Maazi M, Te B, Donovan J. Folliculitis decalvans as a potential risk factor for cutaneous malignancy. Int J Dermatol. 2024;63(9):e223-4.
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