Gabriela Roncada Haddad1; Ana Carolina Salomão Gerolamo2; Nicole Dias Sbrissa2; José Ferreira de Oliveira Neto3; Isabela Novello 3; Ricardo Henrique Marcelino3
Fonte de financiamento: Nenhum
Conflito de interesses: Nenhum
Data de submissão: 23/06/2025
Decisão final: 15/10/2025
Como citar este artigo: Haddad GR, Gerolamo ACS, Sbrissa ND, Oliveira Neto JF, Marcelino RH, Novello I. Peeling de fenol: indicações, complicações e manejo do paciente, uma revisão da literatura. Surg Cosmet Dermatol. 2025;17:e20250486.
O peeling de fenol é uma técnica de esfoliação química profunda usada há décadas para rejuvenescimento facial, cicatrizes de acne e hiperpigmentações. A fórmula de Baker-Gordon é a mais utilizada, proporcionando resultados eficazes, mas com riscos significativos. O procedimento exige anestesia e cuidados rigorosos no pós-operatório devido a possíveis complicações, como hiperpigmentação, hipocromia, infecções, cicatrizes e toxicidade sistêmica, principalmente cardíaca. Esta revisão de literatura, descritiva e exploratória, baseada em artigos de 2000 a 2025, destaca a eficácia do método, mas reforça a necessidade de mais estudos sobre sua segurança a longo prazo e sobre o manejo adequado dos pacientes.
Keywords: Fenol; Abrasão Química; Efeitos Colaterais e Reações Adversas Relacionados a Medicamentos
O termo peeling se origina do inglês to peel, que significa descamar. Trata-se da aplicação de um agente químico sobre a pele, levando à destruição controlada da epiderme e parte da derme por esfoliação química, seguida do estímulo à regeneração celular, ou seja, à reepitelização.1,2
O peeling é classificado de acordo com a profundidade atingida: superficial, médio e profundo. Quanto mais profundo o procedimento, mais aparente será seu efeito, porém maiores os riscos e o desconforto. O peeling superficial atua apenas na epiderme, o médio age na epiderme e na derme papilar e o profundo penetra até a derme reticular. Um exemplo desse último tipo é o peeling de fenol.3
O fenol, ou ácido carbólico (C6H5OH) (Figura 1), é um agente químico que induz o rejuvenescimento facial. Além disso, provoca coagulação das proteínas da pele, tem ação anestésica nas terminações nervosas, produz efeitos bacteriostáticos quando usado em concentrações de até 1% e é bactericida em concentrações maiores.
O peeling à base de fenol surgiu após a Primeira Guerra Mundial. Na Inglaterra, estudiosos já haviam trabalhado com fenol como base para tratamento de manchas e cicatrizes, mas sem demais evoluções sobre seu uso. Nos anos 60, novos avanços deram início à era dos peelings por meio de soluções modificadas de fenol (com adição de óleo de cróton, septisol e água) e avaliações histológicas dos seus resultados, permitindo a comparação entre os efeitos do fenol e os dos demais subtipos de peeling.3 Em 1962, Baker e Gordon descobriram a atual formulação do peeling de fenol, na qual este é diluído a concentrações que variam de 45 a 55%.4,5
Sua utilização exige anamnese e exame físico detalhados e exames laboratoriais, visto que o fenol é altamente tóxico e é absorvido sistemicamente pela barreira cutânea. O fenol causar eritema e edema localmente e tem possíveis efeitos cardíacos (taquicardia, extrassístoles ventriculares, fibrilação atrial e ventricular e dissociação eletromecânica), renais, hepáticos e até depressão do sistema nervoso central.4,5
Em junho de 2024, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a Resolução nº 2.384/2024, que proíbe a importação, fabricação, manipulação, comercialização, propaganda e uso de produtos à base de fenol em procedimentos de saúde ou estéticos.6,7 Desde então, o peeling de fenol não pode ser realizado no Brasil, apesar de haver relatos na literatura sobre sua eficácia e segurança.
Nesse contexto, o objetivo deste trabalho é realizar uma revisão de literatura sobre a importância, a segurança e a eficácia de peelings que utilizam o fenol e seus riscos e benefícios para os pacientes. Além disso, fornece informações sobre as técnicas empregadas na atualidade, indicações e contraindicações do seu uso em tratamentos e as possíveis complicações relacionadas a seu manejo.
Trata-se de uma revisão de literatura, de caráter descritivo e exploratório, com buscas nas bases de dados Google Scholar e PubMed. No Google Scholar, a estratégia de busca utilizou os descritores DeCS “Abrasão Química” AND Fenol AND Rejuvenescimento. No PubMed, utilizou-se os descritores MeSH Chemexfoliation AND Phenol AND Rejuvenation.
Foram incluídos artigos completos, publicados entre 2000 e 2025, em português e em inglês. Foram excluídos estudos sem texto completo publicado e disponível, em modelos animais ou que explorassem outras técnicas e procedimentos, assim como artigos duplicados.
A busca inicial produziu 47 resultados ao total, sendo 24 no Google Scholar e 23 no PubMed. Destes, 14 foram incluídos. Vinte e cinco estudos foram excluídos com base no título e 8 no resumo ou no texto completo (Figura 2).
A fórmula de Baker-Gordon, ainda a mais utilizada nos peelings de fenol, contém componentes que intensificam a atividade do fenol na pele, como óleo de cróton e sabão líquido (Figura 3). Na ausência desses, a regeneração celular é menos eficaz.4
O óleo de cróton aumenta a vascularização do local para intensificar a ação queratocoagulante do fenol e a infiltração cutânea.8 Por ser altamente tóxico para a pele, gera edema e eritema local. O sabão líquido, por sua vez, desempenha um papel tensoativo e é o principal responsável por reduzir a tensão superficial lipídica da pele, proporcionando emulsificação e esfoliação e facilitando a permeabilidade.4
É importante a remover a barreira lipídica e os pelos da região para garantir a penetração uniforme e minimizar o desconforto durante o procedimento. A face é dividida em seções e a aplicação deve ser iniciada na área que possui maior extensão, com o uso de algodão ou gazes. Para não elevar as taxas de toxicidade, é preciso evitar movimentos intensos de fricção. O tempo de ação varia entre 10 e 15 minutos por área.4,9
Estudos demonstram que a absorção do fenol pela pele pode variar de acordo com a pressão exercida, a fricção e o tempo de exposição. Recomenda-se a aplicação em áreas fracionadas, com intervalos, para reduzir a absorção sistêmica e aumentar a segurança do procedimento. Além disso, a penetração do fenol está diretamente relacionada à composição da fórmula, sendo o óleo de cróton e o sabão líquido fundamentais para otimizar a difusão dérmica e a resposta clínica.
Apesar do desenvolvimento de novas tecnologias em dermatologia estética, o peeling de fenol mantém sua relevância devido à sua relativa simplicidade e eficácia, sendo o agente mais utilizado para peelings profundos.10,11,12,13 A fórmula de Baker, em aplicações pontuais ou em toda a face, é indicada principalmente para o tratamento do envelhecimento facial severo e relacionado à exposição solar, com rítides profundas.4,11,12 Estudos relatam resultados positivos para a utilização de peeling com fenol a 88% para rejuvenescimento das regiões perioral e periorbital.14,15
O fenol pode ser utilizado no tratamento de cicatrizes, particularmente cicatrizes de acne,12,16 e promove o clareamento cutâneo. Também parece ser eficaz na abordagem de lesões malignas e pré-malignas, como queratoses actínicas.11,14,15,16
A eficácia do fenol foi observada em um estudo clínico que avaliou a aplicação pontuada de fenol a 88% para tratamento do fotoenvelhecimento, demonstrando melhora significativa da qualidade da pele e reorganização histológica das fibras colágenas.10 Uma revisão recente destacou que, mesmo com a introdução de técnicas modernas, como lasers e toxina botulínica, o fenol continua a ser um método de escolha em rítides estáticas periorbitais e periorais, com resultados superiores em determinados casos15,18 (Figura 4).
Devido à sua ação na derme reticular intermediária, o peeling de fenol é um procedimento bastante doloroso e deve ser acompanhado de anestesia e analgesia.11 Alguns estudos relatam a utilização de drogas hipnóticas para realização de sedação consciente.17 Analgésicos podem ser prescritos para controle da dor após o procedimento.4
Por se tratar de um peeling profundo, o procedimento com fenol provoca a formação de crostas espessas, então o pós-peeling pode exigir o uso de hidratantes à base de vaselina ou antibióticos tópicos.4,11 O prurido é um efeito colateral comum e pode ser aliviado com corticoides de baixa potência e compressas geladas.11
Após o procedimento, é aplicada uma máscara oclusiva, em geral de esparadrapo ou pomada de vaselina, removida após 48 horas.4 Assim, é preciso planejar retornos nos primeiros dias e durante todo o período pós-operatório. A regeneração epidérmica se inicia em cerca de 48 horas, mas o período de recuperação total pode durar até 3 meses.11,17
Apesar da prática clínica consolidada, ainda não há padronização quanto à analgesia. Di Santis et al. observam que a dor intensa nas primeiras 12 horas após o peeling permanece um desafio, de modo que o controle da dor em geral se baseia na experiência do profissional, sem um protocolo estabelecido na literatura.17 Ressalta-se também a importância da monitorização contínua em ambiente clínico adequado, dado o risco de eventos adversos cardiovasculares mesmo em pacientes sem comorbidades.20
As complicações pós-peeling de fenol são raras, principalmente quando realizado por profissionais familiarizados com a fórmula e a técnica de aplicação.18 Devido ao comprometimento da barreira cutânea, há risco de infecção bacteriana secundária ou erupção herpética.4,9 Podem ocorrer cicatrizes permanentes mais profundas, principalmente em regiões como lábios, pálpebras e mandíbula.8,10 Assim, é preciso investigar o histórico de queloides antes do procedimento a fim de prever possíveis cicatrizes inestéticas.9,17 Outras complicações incluem o risco de hipercromia pós-inflamatória, áreas de despigmentação e eritema por tempo prolongado.4,13,14,21 Podem também surgir pequenos cistos brancos, chamados milia, devido à rápida reepitelização.4
Em relação à toxicidade sistêmica, destacam-se as toxicidades cardíaca, hepática e renal.11,19 Um estudo que avaliou efeitos adversos associados ao uso irresponsável do fenol demonstrou a importância da cardiotoxicidade.19 Em outro estudo retrospectivo, o fenol não prejudicou as funções renal e hepática, mas também esteve associado a arritmias em indivíduos suscetíveis, sem relação com a concentração ou técnica empregada.20 Mesmo indivíduos pré-selecionados e adequadamente hidratados podem desenvolver arritmia cardíaca transitória.9 Kadunc e Vanti reforçam a necessidade de ECG contínuo durante o procedimento,20 principalmente em indivíduos com risco cardiovascular subclínico. Assim, além de avaliação prévia do paciente com exames clínicos e laboratoriais, é aconselhável espaçar as aplicações do peeling em diferentes áreas e garantir a hidratação endovenosa contínua do paciente para permitir a eliminação adequada dos metabólitos.4,11,19
Por fim, a relação entre o fenol e a carcinogênese ainda não é clara. Uma hipótese é que algumas formas de apresentação podem ter potencial carcinogênico.9
Apesar do procedimento ter ganhado visibilidade nos últimos anos, ainda há poucos estudos sobre o peeling de fenol, e especialmente poucos estudos clínicos. Trata-se de uma abordagem agressiva, com benefícios importantes relatados principalmente no combate ao envelhecimento cutâneo, e que pode ser realizada com segurança e ótimos resultados, desde que por profissionais médicos experientes. Diante do potencial de complicações sistêmicas, como cardiotoxicidade e arritmias, e dos recentes debates regulatórios, o desenvolvimento de protocolos seguros, a monitorização adequada e a seleção criteriosa dos pacientes são essenciais. Ainda assim, o peeling de fenol continua a ser uma alternativa relevante e eficaz e merece ser reavaliado à luz de evidências científicas mais robustas.
Gabriela Roncada Haddad
ORCID: 0000-0002-7516-9586
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Ana Carolina Salomão Gerolamo
ORCID: 0009-0001-4831-5728
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Nicole Dias Sbrissa
ORCID: 0009-0009-5425-3584
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Obtenção, análise e interpretação dos dados, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
José Ferreira de Oliveira Neto
ORCID: 0009-0000-8721-2732
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Ricardo Henrique Marcelino
ORCID: 0009-0003-4759-781X
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
Isabela Novello
ORCID: 0000-0002-2496-4475
Aprovação da versão final do manuscrito, Concepção e planejamento do estudo, Elaboração e redação do manuscrito, Participação efetiva na orientação da pesquisa, Revisão crítica da literatura, Revisão crítica do manuscrito.
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