Sociedade Brasileira de Dermatolodia Surgical & Cosmetic Dermatology

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ISSN-e 1984-8773

Volume 10 Número 3


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Relatos de casos http://www.dx.doi.org/10.5935/scd1984-8773.20181031829

Carcinoma espinocelular no pé: apresentação atípica

Squamous cell carcinoma in the foot: an atypical presentation


André Luiz Simião1; Marcela Baraldi Moreira2; Lívia C. Dela Coletta Pelliccioni2; Vanessa de Sousa Mançano2,3

1. Ambulatório de Cirurgia Dermatológica de Mohs, Serviço de Dermatologia, Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) - Campinas (SP), Brasil

2. Serviço de dermatologia, Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) - Campinas (SP), Brasil

3. Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (IAMSPE) - São Paulo (SP), Brasil

Data de recebimento: 27/05/2016

Data de aprovação: 27/02/2017


Trabalho realizado na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) - Campinas (SP), Brasil

Suporte Financeiro: Nenhum

Conflito de Interesses: Nenhum

Correspondência:

Vanessa de Sousa Mançano

Avenida John Boyd Dunlop, S\N Jardim Londres

13034-685, Campinas - SP, Brasil

E-mail: vanessa_ssm@outlook.com

 

Resumo

O carcinoma espinocelular é a segunda forma de câncer de pele não melanoma. Está relacionado à fotoexposição, e a apresentação clínica no pé é atípica, com pouca capacidade de desenvolver metástase. Relata-se o caso de paciente com quadro clínico exuberante de carcinoma espinocelular no pé, com longo tempo de evolução e ausência de metástase. Foi realizado tratamento cirúrgico com sucesso.

Palavras-chave: Neoplasias de células escamosas; Pé; Melanoma amelanótico

INTRODUÇÃO

O câncer da pele não melanoma é a neoplasia maligna mais comum no Brasil e representa o tumor mais incidente em ambos os sexos. Cerca de 80% dele é constituído pelo carcinoma basocelular (CBC), e 20% pelo carcinoma espinocelular (CEC).1 O CEC acomete, preferencialmente, áreas fotoexpostas, e sua localização no pé é condição rara.2-4 O tratamento preconizado é cirúrgico.5,6

Apresenta-se o caso de paciente do sexo masculino, de 47 anos, com lesão tumoral no pé esquerdo, de apresentação exuberante e localização atípica, há 30 anos, sem metástase. Foi submetido à exérese cirúrgica, com sucesso terapêutico, mantendo motricidade e sensibilidades preservadas.

 

RELATO DO CASO

Paciente do sexo masculino, 47 anos, pedreiro, com queixa de lesão tumoral no pé esquerdo, dolorosa, há 30 anos, apresentou-se à consulta na clínica de dermatologia do Hospital Celso Pierro da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Ao exame dermatológico, apresentava tumoração vegetante, com superfície verrucosa, bordas eritêmato-infiltradas e bem delimitadas, medindo 5 x 4 x 1,5cm, dolorosa, localizada na porção distal da região plantar esquerda, próxima aos quarto e quinto metatarsos (Figura 1). A radiografia do membro não apresentava acometimento ósseo. Foram aventadas as hipóteses diagnósticas de CEC, melanoma amelanótico e carcinoma verrucoso, tendo sido realizada biópsia incisional para elucidação. O estudo anatomopatológico evidenciou características de papiloma viral cutâneo. Devido à incongruência clínico-histológica, optamos por exérese justalesional, sob anestesia tumescente, com posterior aproximação das bordas e fechamento por segunda intenção (Figuras 2 e 3). O estudo histopatológico final, porém, confirmou CEC bem diferenciado com margens comprometidas, tendo resultado negativa a pesquisa para papiloma-vírus humano (HPV) pela técnica de hibridização in situ. Foram realizadas tomografias de crânio, tórax e abdômen, com resultados negativos para metástase. O paciente foi então encaminhado à ortopedia, que procedeu à ampliação cirúrgica com margem de segurança de 1cm. A nova análise corroborou o resultado de CEC, tendo ficado demonstrada a ausência de comprometimento das margens. O paciente evoluiu, após cinco meses, com motricidade e sensibilidade preservadas (Figura 4). Um ano após a cirurgia, a cicatriz apresentava ótimo resultado estético, demonstrando apenas certo grau de hiperqueratose, o que não acarreta prejuízo funcional ao membro (Figura 5).

 

DISCUSSÃO

O câncer da pele não melanoma é a neoplasia maligna mais comum no Brasil e representa o tumor mais incidente em ambos os sexos.1 Cerca de 80% do casos derivam das células não queratinizadas da camada basal da epiderme, originando o CBC, e 20% correspondem ao CEC, o qual deriva da proliferação atípica dos queratinócitos suprabasais.1 O CEC acomete, preferencialmente, locais de exposição solar e indivíduos com mais de 50 anos, do sexo masculino.2 Está associado à imunossupressão, ulceração crônica, exposição a agentes arsenicais e ao papilomavírus humano. É frequente a origem a partir de lesões cutâneas prévias, como queratose actínica, leucoplasias e radiodermites.7,8 O CEC na região plantar é infrequente e pode surgir a partir de líquen plano, micose profunda, líquen simples crônico, verruga plantar ou, mais raramente, ser metatastático.3,4 Pode se apresentar com diversos aspectos clínicos, tais como úlceras, nodulações ou vegetações, com crescimento exofítico de difícil cicatrização.9 Para a elucidação diagnóstica são necessários estudo anatomopatológico e exames de imagem (radiografia, ressonância nuclear magnética) para determinar a extensão tumoral e o planejamento cirúrgico. O tratamento de escolha é cirúrgico, e a cicatrização da ferida operatória por segunda intenção é uma alternativa apropriada que permite ao cirurgião dermatológico alcançar excelentes resultados cosméticos. Trata-se de método simples, prático, eficaz, de baixo custo e bem aceito pelos pacientes, permitindo a vigilância do leito da ferida para reconhecimento precoce de recidivas tumorais.8,9

A cirurgia micrográfica de Mohs apresenta elevada taxa de cura para lesões primárias de alto risco; curetagem, eletrocoa-gulação ou cirurgia excisional, com margem de segurança de 0,5 a 1cm, podem, no entanto, eliminar cerca de 90% dos tumores, especialmente aqueles com menos de 1cm.5,6 O CEC metastático do pé é muito raro, e a taxa de cura em cinco anos para pacientes com tumores grandes é de 70%, independentemente do tratamento realizado.6 O risco cumulativo de desenvolver um segundo CEC nos três primeiros anos é de 18%, e de apresentar outro carcinoma não melanoma em cinco anos atinge quase 50% dos envolvidos; por isso todo paciente com diagnóstico de CEC deve ser acompanhado, a intervalos variáveis de seis meses a um ano, dependendo do tipo histológico e número de tumores prévios.10

 

CONCLUSÃO

O CEC no pé é raro. Pode ser primário ou metastático, e a excisão cirúrgica é o tratamento de escolha. Neste relato referimos apresentação atípica de um câncer frequente, com muitos anos de evolução. Ressaltamos a importância do reconhecimento de feridas em áreas não fotoexpostas para o diagnóstico precoce e garantia do melhor prognóstico desses pacientes.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:

André Luiz Simião | ORCID 0000-0002-0246-2001
Aprovação da versão final do manuscrito. Revisão crítica do manuscrito.

Marcela Baraldi Moreira | ORCID 0000-0002-7218-8407
Elaboração e redação do manuscrito Lívia Carolina

Dela Coletta Pelliccioni | ORCID 0000-0002-8944-6230
Revisão critica da literatura

Vanessa de Sousa Mançano | ORCID 0000-0001-9081-0768
Elaboração e redação do manuscrito

 

REFERÊNCIAS

1. Ministério da Saúde do Brasil, Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Estimativa 2012: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: Inca; 2011. 118 p.

2. Shahid Majeed, Bari AU. Squamous cell carcinoma foot arising in deep mycosis. A case report. J Surg Pak. 2004;9:54-5.

3. Dhillon MS, Gill SS, Nagi ON, Singh DP, Mittal RL. Primary malignant and potentially malignant tumours of the foot. The Foot. 1992;2(1):19-26.

4. Alam M, Ratner D. Primary care: cutaneous squamous cell carcinoma. N Engl J Med. 2001;344(13):975-83.

5. Ribeiro MZ, Wulkan C, Paschoal FM Maciel MHM, Machado Filho CDAS. Verrucous carcinoma: a clinical-histopathologic variant of squamous cell carcinoma. An Bras Dermatol. 2004; 79(5):619-21.

6. Mullen JT, Feng L, Xing Y, Mansfield PF, Gershenwald JE, Lee JE, et al. Invasive squamous cell carcinoma of the skin: defining a high-risk group. Ann Surg Oncol. 2006;13(7):902-9.

7. Rinker MH, Fenske NA, Scalf LA, Glass LF. Histologic variants of squamous cell carcinoma of the skin. Cancer Control. 2001;8(4):354-63.

8. Sinha A, Smith D, Langtry JA. Treatment of benign digit tip tumours by surgical excision and secondary intention healing with scar quality assessment by epidermal ridge patterns. Br J Dermatol. 2010;162(2):452-4.

9. Van der Eerden PA, Lohuis PJ, Hart AA, Mulder WC, Vuyk H. Secundary intention healing after excision of nonmelanoma skin cancer of wound characteristics and final cosmetic results. Plast Reconstr Surg. 2008;122(6):1747-55.

10. Marcil I, Stern RS. Risk of developing a subsequent nonmelanoma skin cancer in patients with a history of nonmelanoma skin cancer: a critical review of the literature and meta-analysis. Arch Dermatol. 2000;136(12):1524-30.


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