Sociedade Brasileira de Dermatolodia Surgical & Cosmetic Dermatology

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ISSN-e 1984-8773

Volume 10 Número 3


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Relatos de casos http://www.dx.doi.org/10.5935/scd1984-8773.20181031956

Poroqueratoma: uma nova entidade clínica?

Porokeratoma: a new clinical entity?


Fabiana Oliveira da Silva1; Ticiana de A. Castelo Branco Diniz1; Yasmin Gama Abuawad1; Marcella Amaral Horta Barbosa1; Maria Isabel Ramos Saraiva1,2; Thais Amaral Carneiro Cunha1; Neusa Yuriko Sakai Valente1,3

1. Serviço de Dermatologia, Hospital do Servidor Público do Estado - São Paulo (SP), Brasil

2. Hospital Alemão Oswaldo Cruz - São Paulo (SP), Brasil

3. Serviço de Dermatologia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil

Data de recebimento: 25/12/2016

Data de aprovação: 21/08/2018


Trabalho realizado no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo (HSPE) - São Paulo (SP), Brasil.

Suporte Financeiro: Nenhum

Conflito de Interesses: Nenhum

Correspondência:

Ticiana de A. Castelo Branco Diniz

Rua Borges Lagoa, 1755, 4º andar Dermatologia Indianápolis

São Paulo - SP, Brasil

E-mail: ticidiniz@hotmail.com

 

Resumo

O poroqueratoma é entidade definida como acantoma com características de porocerato-se. Apresenta padrão histopatológico distinto de lamela cornóide e diferenças clínicas em relação à poroceratose típica. Trata-se de uma afecção recentemente descrita, com poucos casos relatados na literatura. Apresentamos caso de paciente do sexo masculino, 46 anos, com lesão nodular exofítica, localizada na região interglútea. O exame histopatológico evidenciou múltiplas lamelas cornóides, sendo as periféricas as mais bem definidas. Devido à apresentação clínica e histopatológica, o diagnóstico foi de poroqueratoma.

Palavras-chave: Acantoma; Ceratose; Poroceratose

INTRODUÇÃO

O poroqueratoma é uma afecção dermatológica descrita pela primeira vez por Walsh et al em 20071 que o definem como acantoma com características de poroceratose. Poroqueratoma e poroceratose compartilham a característica histopatológica de lamela cornóide, que é uma desordem da maturação da epiderme.1,2,3 A poroqueratose comporta algumas variantes: poroceratose de Mibelli, poroceratose actínica superficial disseminada, poroceratose palmo-plantar disseminada, poroceratose linear e poroceratose puntata.1

O poroqueratoma apresenta um padrão distinto de lamela cornóide, além de diferenças clínicas e epidemiológicas. Por esta razão vem sendo discutido recentemente como uma nova entidade clínica. Este relato de caso amplia para o dermatologista o conhecimento acerca desta afecção pouco conhecida.

 

RELATO DE CASO

Paciente do sexo masculino, 46 anos, procurou atendimento devido a recidiva de lesão nodular exofítica na região interglútea (Figura 1). Havia sido realizada a exérese da lesão há 5 anos, não tendo sido enviado material para análise histopatológica. O paciente negava comorbidades ou uso de medicações. Ao exame observava-se lesão solitária verrucosa, com 1 cm de diâmetro, centro hiperqueratósico e crista elevada na periferia. Apresentava hipocromia no sulco interglúteo secundária a intertrigo. Não apresentava outras alterações cutâneas ou em mucosas. Foram consideradas as hipóteses de queratose seborreica irritada, granuloma piogênico e carcinoma espinocelular verrucoso. Após a biópsia incisional da lesão, o estudo histopatológico evidenciou epiderme com acantose regular, ortoqueratose e paraqueratose, exibindo múltiplas lamelas cornóides, sendo as periféricas as mais bem definidas. Na derme observou-se infiltrado linfocitário focal e presença de faixa de tecido adiposo alto (Figuras 2, 3 e 4).

Devido a apresentação clínica e histopatológica, diagnosticou-se poroqueratoma, realizando-se a seguir a exérese completa da lesão com margens livres.

 

DISCUSSÃO

O poroqueratoma é um tipo de acantoma verrucoso recentemente descrito por Walsh et al em 2007, que possui características de poroceratose, porém com padrão de distribuição distinto de lamelas cornóides.2,3

A poroceratose constitui um grupo de doenças cutâneas adquiridas ou genéticas que se apresentam clinicamente como placas anulares hiperceratóticas ou escamosas, com crista elevada periférica que se expande centrifugamente.4 Apresenta ainda associação com imunossupressão e história familiar positiva1,2,3, além de potencial para malignização.4

O poroqueratoma apresenta evolução média de 2 anos e surge em pacientes sem história pessoal ou familiar prévia de poroceratose.1,2 Não há associação com condições imunossupressoras3 e existem relatos de casos que sugerem relação com espondilite anquilosante.2,3 É encontrado principalmente nos membros, assim como na cabeça, pescoço, tórax, nádegas e região interglútea. Apresenta-se clinicamente como placa, pápula ou nódulo hiperceratótico, solitário, podendo apresentar aspecto verrucoso.1,2,3 É geralmente confundido com carcinoma espinocelular, queratose seborreica ou actínica, verruga vulgar e prurigo nodular.1,2

Microscopicamente, pode apresentar ortoceratose, acantose, papilomatose ocasional, além de disceratose, perda da camada granular e lamela cornóide. Esta é uma desordem específica da maturação epidérmica e refere-se à coluna vertical de células paraceratóticas, que se estende da invaginação da epiderme à pele adjacente. Estes achados são semelhantes aos encontrados na poroceratose, porém o padrão de distribuição das lamelas cornóides é distinto: enquanto no poroqueratoma as lamelas cornóides múltiplas e largas são dispostas por toda lesão, na poroceratose estão dispostas nas bordas e com atrofia central.1,4

Uma vez que poroqueratoma e poroceratose compartilham semelhanças histopatológicas e este último pode malignizar, a literatura não afasta a possibilidade de transformação maligna do poroqueratoma. Apesar de não haver casos descritos, é sugerido que o poroqueratoma seja excisado por completo com margens cirúrgicas livres. Portanto, os pacientes devem ser acompanhados ambulatorialmente, especialmente os imunodeprimidos.2,3 Devido as características clínicas, histopatológicas e epidemiológicas distintas, acredita-se em uma nova entidade clínica.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:

Fabiana Oliveira da Silva | 0000-0002-4114-7952
Elaboração e redação do texto

Ticiana de Andrade Castelo Branco Diniz | 0000-0003-0083-5123
Elaboração e redação do texto

Yasmin Gama Abuawad | ORCID 0000-0003-2033-4625
Elaboração e redação do texto

Maria Isabel Ramos Saraiva | ORCID 0000-0002-5043-489X
Elaboração e redação do texto

Marcella Amaral Horta Barbosa | ORCID 0000-0003-2892-9922
Elaboração e redação do texto

Thais Amaral Carneiro Cunha | ORCID 0000-0003-4256-208X
Revisão crítica

Neusa Yuriko Sakai Valente | ORCID 0000-0002-8065-2695
Revisão crítica

 

REFERÊNCIAS

1. Walsh SN, Hurt MA, Santa Cruz DJ. Porokeratoma. Am J Surg Pathol. 2007;31(12):1897-901.

2. Kanitakis J, Rival-Tringali AL, Chouvet B, Vignot E, Claudy A, Faure M. Porokeratoma (porokeratotic acanthoma): Immunohistological study of a new case. J Cutan Pathol. 2009;36(7):804-7.

3. Batalla A, Roson E, De la Torre C. Porokeratoma: A Different Entity ora Variant of Verrucous (Hyperkeratotic) Porokeratosis? Indian J Dermatol. 2013;58(2):158.

4. Bolognia JL, Jorizzo JL, Rapini RP. Proliferações e Tumores Epidérmicos Benignos. In: McCalmont TH. Dermatologia. Rio de Janeiro: Elsevier; 2011. p. 1669-1671.


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