Sociedade Brasileira de Dermatolodia Surgical & Cosmetic Dermatology

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ISSN-e 1984-8773

Volume 10 Número 3


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Relatos de casos http://www.dx.doi.org/10.5935/scd1984-8773.20181031968

Semelhanças entre um pseudolipoma pós-traumático e um lipossarcoma: relato de caso

Similarities between a post-traumatic pseudolipoma and a liposarcoma: a case report


Márcio Martins Lobo Jardim; Ticiana A. Castelo Branco Diniz; Thaís do Amaral Carneiro Cunha; Neusa Yurico Sakai Valente

Serviço de Dermatologia, Hospital do Servidor Público do Estado - São Paulo (SP), Brasil

Data de recebimento: 29/01/2017

Data de aprovação: 21/08/2018

Correspondência:

Márcio Martins Lobo Jardim

Av. Ibirapuera, 981, 4º andar, Vila Clementino

São Paulo - SP, Brasil

E-mail: martinslobojardim@gmail.com

 

Resumo

O Pseudolipoma pós-traumatico (PLPT) é uma proliferação de adipócitos maduros, não encapsulada, que se desenvolve após trauma local. Relatamos o caso de uma criança do sexo masculino, que exibiu uma tumoração no antebraço esquerdo, semanas após trauma contuso. Procedeu-se à biópsia da lesão e foi estabelecido o diagnóstico de PLPT. O caso relatado expõe as similaridades clínicas do PLPT com lipossarcoma, que também possui associação com trauma local prévio, pode se apresentar como tumoração de consistência amolecida e frequentemente se localiza no membro superior. Ambas as afecções são pouco relatadas nos periódicos dermatológicos, o que causa desconhecimento de suas características pelos dermatologistas.

Palavras-chave: Lipoma; Lipossarcoma; Neoplasias pós-traumáticas; Traumatismos do antebraço

INTRODUÇÃO

O Pseudolipoma pós-traumatico (PLPT) é uma proliferação focal de tecido adiposo maduro não encapsulado que desenvolve após um trauma local. A despeito de seu bom prognóstico, o pseudolipoma pode ocasionar déficits motores ou sensoriais focais por compressão a estruturas musculares e nervosas adjacentes. Por vezes, um PLPT pode simular um lipossarcoma por sua localização e apresentação clínica. Relatamos um caso de uma criança que desenvoleu PLPT em crescimento, o que nos fez suspeitar de lipossarcoma.

 

RELATO DO CASO

Paciente do sexo masculino, 13 anos, queixou-se de uma tumoração em crescimento progressivo na região anterior do antebraço esquerdo, de início há 2 anos, semanas após ter ocorrido um episódio de trauma contuso no local. Relatava que após o trauma houve desenvolvimento de hematoma no local, o qual foi tratado com compressas quentes que ocasionaram uma queimadura de 2° grau no antebraço. Nos antecedentes pessoais, negava comorbidades ou uso de medicações. Ao exame físico, observava-se uma tumoração de 10cm de diâmetro localizada na face anterior do antebraço esquerdo de consistência amolecida, mal delimitada, sem sinais inflamatórios ou dor à palpação, associada a cicatriz atrófica na pele sobrejacente (Figura 1). Não foram detectadas deficiências sensoriais ou motoras no membro acometido. A ultrassonografia no local, evidenciou proliferação focal de tecido celular subcutâneo. Procedeu-se a uma biópsia da lesão, cuja histopatologia evidenciou tecido adiposo subcutâneo abundante com adipócitos maduros sem atipias (Figuras 2 e 3). Foi estabelecido, então, o diagnóstico de pseudolipoma pós-traumático. Após tomar conhecimento do caráter benigno da lesão, o paciente e seu genitor optaram por não realizar nenhum tratamento, sendo mantido seguimento clínico trimestral da lesão.

 

DISCUSSÃO

O PLPT foi primeiramente descrito em 1932 por Adair et cols. e é definido por ser uma proliferação não encapsulada de tecido adiposo que se desenvolver após traumas agudos ou crônicos. É marcadamente mais comum em mulheres (3,8:1) de meia-idade (idade média de 46 anos) e ocorre tipicamente nos membros inferiores, especificamente coxas e glúteos.1

A patogênse do PLPT ainda não foi esclarecida. Há dois mecanismos patogênicos propostos. O mais antigo foi postulado por Broke e McGregor em 1969 que sugeriram que o pseudolipoma surgiria após uma herniação de tecido adiposo através de lesões traumáticas na fascia de Scarpa.2 Entretanto, esta hipótese não foi confirmada por outros estudos. Outros autores sugeriram que o desenvolvimento da neoplasia ocorre pela maturação de pré-adipócitos estimulados por citocinas e mediadores inflamatórios, liberados na ocasião do trauma, pelo hematoma acumulado ou pelos adipócitos lesionados.3

Clinicamente o PLPT difere do lipoma pela ausência de cápsula e por se desenvolver de semanas a meses após história de trauma local. Sua evolução é benigna, crônica e sem complicações, mas há relatos de casos de déficits motores e/ou sensoriais por efeito compressivo da lesão em estruturas nervosas ou musculares adjacentes. Nestes casos, o tratamento cirúrgico é imperativo, o qual pode ser procedido por lipoaspiração, no caso de lesões maiores, ou excisão cirúrgica, no caso de lesões de menores dimensões.4

No que se refere à localização, a ocorrência de PLPT nos membros superiores é rara. Galea et cols. em 2009 revisaram 124 casos, e constaram que a ocorrência desta neoplasia nos membros superiores é incomum. Por outro lado, 74,4% dos casos estudados nesta série se localizaram nos membros inferiores.

Em 2015, Jacolino e Wingerden revisaram 15 casos de PLPT localizados especificamente nos membros superiores e apenas 5 se localizaram no antebraço, semelhante ao caso aqui relatado. Este dado topográfico tem sua importância no diagnóstico diferencial do PLPT com lipossarcoma, que também possui associação com trauma local prévio, pode se apresentar clinicamente como uma tumoração de consistência amolecida e frequentemente se localiza no membro superior. O diagnóstico do lipossarcoma pode ser suspeitado por ressonância magnética, mas é confirmado pela biópsia da lesão.4,5 No caso aqui relatado foi suspeitada a possibilidade de lipossarcoma devido ao crescimento progressivo da lesão e por sua localização, entretanto o exame histológico nos descartou esta possibilidade.

Por fim, observa-se uma escassez de casos de PLPT relatados em periódicos dermatológicos, ocasionando pouco conhecimento desta afecção pelos dermatologistas. Quase a totalidade dos relatos e séries publicados sobre o tema são de revistas predominantemente de outras especialidades cirúrgicas. Além disso, o caso aqui relatado é de ocorrência incomum na literatura por acometer uma criança do sexo masculino, apresentar história de crescimento progressivo e se localizar no membro superior, o que realçou sua semelhança clínica com lipossarcoma de extremidades.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:

Márcio Martins Lobo Jardim | ORCID 0000-0002-8431-3607
Atendimento ao paciente e elaboração do manuscrito.

Ticiana Andrade Castelo Branco Diniz | ORCID 0000-0003-0083-5123
Atendimento ao paciente e elaboração do manuscrito.

Thaís do Amaral Carneiro Cunha | ORCID 0000-0002-8092-1277
Atendimento ao paciente e revisão do manuscrito.

Neusa Yurico Sakai Valente | ORCID 0000-0002-8065-2695
Atendimento ao paciente e revisão do manuscrito.

 

REFERÊNCIAS

1. Adair FE, Pack GT, Parrior JH. Lipoma. Am J Cancer. 1932;16:1104-1106.

2. Brooke RI, MacGregor AJ. Traumatic pseudolipoma of the buccal mucosa. Oral Surg Oral Me Oral Pathol. 1969;28(2):223-5.

3. Signorini M, Campiglio GL. Posttraumatic lipomas: where do they come from? Plast Reconstr Surg. 1998;101(3):699-705.

4. Galea LA, Penington AJ, Morrison WA. Post-traumatic pseudolipomas - a review and postulated mechanisms of their development. J Plast Reconstr Aesthetic Surg. 2009;62(2):737-741.

5. Jacolino S, Wingerden JJV. Post-traumatic pseudolipoma of the upper extremity. J Hand Surg Eur. 2012;37(1):74-76.


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